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22/10/2017

Blue Jasmine, para quem ainda não viu o filme


Aqui: Blue Jasmine para quem já viu o filme

Quando admitimos que a filosofia é uma invenção de Platão, então temos de vê-la como uma"Blue Jasmine" premieres in Paris narrativa que busca a justiça – a cidade perfeitamente justa. Para que exista a justiça, ou seja, para que as coisas se ajustem, parece ser necessário que a verdade esteja presente. Eis então que a filosofia se torna, na sua origem, também a busca da verdade.

O senso comum não rejeita a filosofia nesse quesito. Acreditamos todos que a justiça tem lá uma dependência com a verdade. O que o senso comum não compactua com a filosofia, é que esta avisa que a verdade não é fácil, enquanto que aquele crê que pode resolver tudo com frases tolas do tipo “contra fatos não há argumentos”, “vá direto ao ponto”, “é evidente que”.

A verdade vive no interior de jogos de linguagem cuja tarefa é tranquilizar nossa ação quanto à justiça. No entanto, deveríamos saber que ele não é tão fácil. Nietzsche expôs o determinante sobre essa dificuldade, ao perguntar quanto “quanto de verdade suporta um homem?”

Blue Jasmine  (Wood Allen, USA, 2013) expõe uma dessas peripécias da verdade.

Jasmine (Cate Blanchett) tem sua história narrada em dois planos, o presente e os flash backs. No plano do presente ela, Jasmine, acostumada a uma vida rica e fina tem de viver a vida pobre e brega de sua irmã, uma vez que está sem dinheiro e sem marido. Nos flash backs ela vive durante boa parte do tempo como esposa de um ricaço. Ele é Hal (Alec Baldwin), pilantra sonegador e mulherengo, mas que a faz feliz. A trama se desenvolve em torno do seguinte enigma: afinal, ela sabia ou não sabia da verdade, ou seja, que seu marido era desonesto e que todos os seus negócios poderiam ruir a qualquer momento (o que o levou à prisão e ao suicídio). Há o caso do ex-marido da irmã pobre, que havia investido seu pouco dinheiro com Hal, e também perdido tudo; a história repõe em vários momentos a questão da verdade: até que ponto Jasmine sabia ou não sabia dos negócios escusos de Hal. Sempre que indagada, ela se defende dizendo que não tinha como saber, que não se interessava pelos negócios, e que a prova de que não sabia é que ela assinava tudo para ele, tanto que perdeu realmente tudo, além de gastar com advogados para a defesa própria.

Podemos lembrar que Wood Allen é filósofo de formação. Envolver-se com a questão da verdade, então, não é nada estranho. Mas, cabe aqui uma ressalva. Ele só tem feito filmes (filosoficamente) bons mais recentemente, ao resolver finalmente, em parte, adotar o mercado como parâmetro para seus projetos. Antes, seus filmes eram o que chamávamos nos anos oitenta de “produção cabeça” ou “filme cabeça” – coisas que universitários (brasileiros à frente) entendiam como sendo cinema, só assistido pela namorada do produtor. Ou seja, algo igual ao artigo acadêmico que o aluno de mestrado em filosofia, já professor, apresenta na ANPOF e publica em revista acadêmica. Ninguém lê, talvez nem ele, mas serve para ele mostrar para a namorada de como ele será um intelectual um dia. Não é o caso de Blue Jasmine.

Esse é um filme de Wood Allen em que ele acerta a mão, como tem ocorrido com os mais recentes. Cate Blanchet dá um show à parte. Na frente da tela, nós, ali apreensivos, ganhamos um recado da filosofia: não se trata de aprender que a realidade não é o que parece. Isso, apesar de vir da filosofia (ou de uma parte dela), é uma banalidade. O recado é mais sofisticado: a verdade pode estar na nossa cara e, em uma certa dimensão, sabermos bem dela, mas não queremos saber a ponto de, quando as coisas se tornarem difíceis emocionalmente,  não termos como agir como quem não possa usar dela para jogar tudo pelos ares.  Ao final do filme, em um dos flash backs conclusivos, ficamos sabendo como que Al é preso e, enfim, em que plano de complexidade a verdade se punha para Jasmine. Calma, não vou contar exatamente o que se passa aí, não vou estragar seu prazer de ver o filme!

É claro que Wood Allen preserva o espectador, colocando Jasmine em uma condição, desde o início, de uma pessoa frágil emocionalmente, pronta para entrar em colapso psíquico a qualquer momento. Assim, o expectador, se desejar, pode sair do cinema dizendo: “eu jamais viveria uma situação em que a linha divisória entre o que sei que é verdade e o que sei que não é verdade é algo dessa ordem de complexidade, e isso porque não sou nenhum desequilibrado”. Mas, com um pouco de reflexão, podemos trazer duas operações à tona, que complicam as coisas: primeiro, nós não somos um poço de sanidade e, portanto, não somos tão diferentes de Jasmine; segundo, podemos ser um poço de sanidade e, no entanto, diante de uma situação como a vivida por Jasmine, agir como ela – por que não? Afinal, “quanto de verdade suporta um homem” não foi uma frase de Nietzsche feita para pessoas psiquicamente fracas, mas para qualquer um. Sim! Para qualquer um.

Blue Jasmine nos faz sair do cinema, se queremos refletir, com o seguinte espírito: se a justiça depende da verdade, seria bom sabermos que a justiça nunca será tão clara, tão realmente justa, porque a verdade não tem as características de evidência fácil, como imaginamos às vezes. A vida fascista ou fundamentalista sabe da verdade de maneira simples, reta e pode apontá-la, a vida filosófica não tem esse poder de articular de modo ótimo o olho e a espada.

Paulo Ghiraldelli, filósofo.

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6 Responses “Blue Jasmine, para quem ainda não viu o filme”

  1. John
    10/12/2013 at 01:35

    Spoilers à frente!

    Interessante a análise do filme, eu o vi hoje mesmo. Mas eu colocaria 2 verdades em paralelo. Além dessa que citou, há as amantes do Hal, que eu acho que casam mais com essa análise que fez. A impressão que tive é que a Jasmine sabia muito bem das falcatruas e fingia num nível até bastante consciente que não era da conta dela. Mas as amantes sim eram a verdade que ela escondia de si mesma e com a qual ela realmente era incapaz de lidar, como fica claro no episódio da prisão. Todo mundo sabia das amantes, menos ela. Até a irmã flagra o cara nos poucos dias que passa com eles e ela viveu anos escondendo a verdade de si mesma…

    • 10/12/2013 at 14:56

      John, bem, acho que esse problema é mais ou menos o problema do filme Doubt, com o Philip Seymour Hoffman interpretando o padre. Filmes assim não são para respostas, são para termos novas perguntas.

    • John
      10/12/2013 at 19:10

      Perfeito, pra mim são os filmes que mais valem a pena ver. Na verdade eu só pensei nessa questão depois de ler o seu texto, que me fez ficar divagando sobre o filme.
      No momento em que vi, o que mais me marcou foi a repetição na vida dos personagens. Como as mulheres circulavam e trocavam de parceiros para construir exatamente a mesma coisa que não deu certo antes.

      Isso e o Louis CK, que eu só conhecia como comediante, nunca tinha visto ele atuar rs.

    • 11/12/2013 at 00:48

      Não perca o que recomendei, John.

  2. 01/12/2013 at 12:45

    Belo texto. Um tesão de filme. Professor tanto o Nietzsche quando Jasmine ficaram enlouqueceram, como podemos lidar com a verdade sem ficarmos loucos? A arte seria uma solução para o nosso espirito?

  3. Alexandre
    01/12/2013 at 03:32

    Talvez a verdade esteja bem na nossa cara, o problema é que nascemos em um mundo cheio de “verdades” e essas “verdades” são ensinadas pra gente como se fossem absolutas, o que cria um tremendo constraste. Olhando por esse ponto de vista, as crianças são mais sábias do que os adultos, pois ainda não estão tão intoxicadas com uma série de crenças negativas e não se preocupam tanto em seguir regras que no final das contas não fazem sentido algum.

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