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29/05/2017

Blue Jasmine, mas para quem já viu o filme


Jasmine e Hall

Blue Jasmine, mas para quem não viu o filme

Quase no final de Blue Jasmine (Woody Allen, US, 2013) ficamos sabendo que a heroína, Jasmine (Cate Blanchett), é quem detonou seu marido, Hal (Alec Baldwin) e, enfim, sua própria vida. Ela deu o telefonema para o FBI denunciando-o como sonegador (entre outras coisas).

Ela mesma não tinha um bom álibi para escapar de acusações. Afinal, ela assinava tudo em conjunto com o marido há anos. Impossível afirmar que realmente não sabia das transações, ao menos perante a justiça. Agora, perante os familiares, ou perante si mesma (talvez o mais importante) ela tinha um excelente álibi, exatamente este: ela havia assinado tudo conjuntamente, então, pela gravidade do assunto e diante do fato dela não ser uma imbecil, ela podia muito bem não saber de nada, ou seja, ela podia passar como quem nunca deixou de ser uma crédula na honestidade do marido, como qualquer mulher apaixonada.

A justiça poderia investigar e chegar logo à conclusão que o telefonema partiu da casa dela, e que ela não agiu por honestidade de quem repentinamente ficou sabendo do marido desonesto. A justiça conseguiria concluir facilmente que ela agiu em um momento de ódio, e então arruinou tudo: já que iria perder Al para outra mulher, então, ao menos por um momento, nada valia mais a pena. Bum! Que tudo fosse para os ares. Muito bem, munida desse elemento, a justiça a condenaria por ser uma cúmplice. Ora, provavelmente foi isso que aconteceu, pois ela menciona os advogados como tendo levado boa parte do patrimônio. Como Al se matou na prisão, quem ficou para gastar com advogados foi ela.

Todavia, tudo isso não era o importante. O que Jasmine tinha com ela própria, e que a fazia ainda caminhar após a sua vida ter ido pelos ares, e inclusive ir morar na casa da irmã prejudicada também por Al, é que para ela mesma e para os familiares podia dizer que nunca soube de nada. Afinal, para ela própria e para os familiares, sempre poderia omitir o fato de que foi ela quem denunciou Al, e poderia sustentar que realmente nunca soube de nada, pois, afinal, tinha perdido tudo. Todos nós, se quisermos, podemos admitir que somos capazes de acreditar em uma mentira contada por nós mesmos, caso o esquema contenha uma racionalidade convincente.

Como espécie e como indivíduos, a razão é conquistada a duras penas por nós e, por isso mesmo, uma vez dentro de nós, tornamo-la nossa essência. Modernamente, ela passou a ser mais que nossa essência, ela é Deus dentro de nós e, por isso, tudo que é racional, que possui alguma justificativa razoável, pode ser mentira nossa mesmo, mas se impõe a nós com certa facilidade. Afinal, quem desafia Deus? Quem se põe contra Deus, estando ele dentro de cada um?

Jasmine podia pensar para si mesma e para outros alguma coisa mais ou menos assim: “não sei de nada, nunca soube das falcatruas de meu marido, tanto é verdade que assinei tudo em branco e perdi tudo na justiça”. Além do mais, fora do campo da justiça dos tribunais, ninguém iria acreditar (e em alguns momentos, nem ela) que ela teria denunciado Al, isso seria uma completa falta de razão, de “instinto de sobrevivência”. Ela, Jasmine, podia mostrar sintomas de perturbação, mas louca mesmo, ou seja, aquele que literalmente rasga dinheiro, ninguém diria isso dela.

Mas, por que estou dizendo tudo isso? Onde quero chegar?

Seríamos tolos se pensássemos que alguém que acredita em uma mentira própria é um completo maluco. Eis o que pode chocar alguns: agimos como Jasmine em diversas situações e de modo muito mais frequente do que admitiríamos. Funcionamos articulando nossa rede de crença e desejos (nosso eu) segundo recortes variados. Cada recorte é um conjunto de crenças e desejos, um pedaço da rede, e esse pedaço pode se autonomizar em um momento (e, logo em seguida ser abandonado), de modo que o que chamamos de “eu” é então caracterizado por outra parte recortada nessa rede. Não precisamos invocar “o inconsciente”, no sentido da psicologia profunda, para tal caso. Afinal, não estou falando de uma crença que foi sufocada, esquecida, reprimida, mas de uma crença que está perfeitamente sabida, mas que não causa problemas porque uma outra crença se articula em uma parte da rede de modo mais racional (é mais racional), que outras, e forma o “ego” que se permite emergir no âmbito da fala explícita. Essa pequena esquizofrenia, digamos assim, está presente em nós.

O esquema que uso aqui, portanto, para entender Jasmine, não é senão aquele de Rorty e Davidson, e que nos permite entender a psicologia de múltiplos eus, sem ter de recorrer ao “subconsciente”, que não é bem vindo para certa filosofia ou psicologia pós-wittgensteiniana. Posso ter uma parte da rede de crenças e desejos como formando o eu que apresento a mim mesmo e aos meus familiares, e posso ter outra parte da rede de crenças e desejos que apresento somente a mim mesmo, mas com essa alternância não entro em colapso, porque a primeira parte é que me parece como racional, como sendo a fala do Deus dentro de mim. Trata-se de algo como o logos heraclitiano, que Heráclito entendia como falando pela sua boca, ou a Linguagem, na acepção de Heidegger, como sendo a voz do que é ( o som do Ser) que nos escolhe para deixar o mundo falar. Uma parte da rede de crenças e desejos pode ganhar essa força demiúrgica do logos, e nos deixar tranquilo. É assim que duas verdades contrárias sobre nós mesmos podem conviver conosco, sabidamente, ou “conscientemente”, digamos.

Cada um de nós carrega uma Jasmine, e não nos envergonhamos disso.

Pensando assim, podemos evitar o envolvimento com aquele drama de Sartre, que se viu obrigado a atacar Freud para poder responsabilizar os nazistas pelo que fizeram. Eles, nazistas, sabiam sim o que estavam fazendo, disse Sartre. Mas, ao dizer isso, Sartre teve de considerar que Freud não tinha nenhuma razão ao postular o inconsciente. Ora, não precisamos ficar nessa alternativa entre um sujeito que “dorme” e “acorda” dentro de si mesmo. O modelo de Davidson-Rorty me parece ser menos misterioso.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

PS. NOTA METACRÍTICA. Tenho feito esse exercício de utilização da noção de sujeito, ou melhor, de agente, de Davidson-Rorty, para compreender nossas ações cotidianas. É assim que utilizo a filosofia na minha interpretação de elementos psicológicos. Também é assim que trabalho no Hora da Coruja (Flix TV), ainda que eu procure, nesses casos, não deixar que aqueles que conversam e participam, no programa ou fora dele, se sintam numa aula. Aos poucos, é claro, tenho introduzido nessa maneira de entender o agente, algo também da minha missão filosófica, aquilo que eu mesmo defino como filosofia, ou seja, a “desbanalização do banal”.

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2 Responses “Blue Jasmine, mas para quem já viu o filme”

  1. 02/12/2013 at 17:15

    Excelente, Paulo! Parabéns pelo curso que você vem integrando no oceano do saber. Isso é o que chamo de uma filosofia em movimento, construtora de diálogos, pontes, que mantem o fluxo da vida, e o do convite à filiação com a sabedoria!

  2. MARCELO CIOTI
    02/12/2013 at 13:44

    O pior é que se Cate Blanchett ou Woody Allen ganharem o Oscar 2014,
    não será transmitido na TV aberta brasileira.Isso porque como será no
    domingo de Carnaval,a Globo vai passar aquela porcaria do desfile
    do Carnaval no Rio.Será que não existem outras TVs interessadas
    em transmitir o Oscar,caramba!!!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo