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16/12/2017

Bin Laden e seu crochê! A revelação dos arquivos da CIA


Hitler adorava a pintura que ele próprio fazia, e que nunca lhe deu outra fama senão a de medíocre. Na Internet os neofascistas e os desescolarizados de sempre, quando olham alguma coisa feita por Hitler, ficam deslumbrados. A concepção de arte dessa gente é a concepção infantil: “quem é?”, pergunta a criança diante do desenho adulto. Se é alguém, se está “bem desenhado”, é artista.

Stalin adorava filmes de faroeste americano. A matança de índios não era o seu forte não. O que ele gostava, mesmo, era as cenas de cantoria, dos momentos idílicos e, claro, da capacidade do cowboy self made man (o típico produto imagético americano) entrar na cidade solitário, afugentado todos os homens e mulheres indefesos e atraindo o olhar de vingança dos bandidos. Mais infantil que isso, impossível.

Dentre esses dois terroristas de estado, em termos de fama contemporânea há o Bin Laden que, por sua vez, não conseguiu constituir um estado de terror, e então resolveu aterrorizar o mundo todo. Os arquivos revelados agora pela CIA (hoje 03/11/2017) mostram um Bin Laden com uma coleção de filmes que, além de incluir falas dele próprio, casamento de um filho e uma série de propagandas políticas, há também curiosidades: filmes da gatinhos, aulas de crochê e filmes e desenhos infantis do mundo americano – o lugar do demônio, que chefia o Ocidente em favor do capitalismo, “um regime de infiéis”. Entre os desenhos há alguns como “Formiguinhas”, mostrando que em termos de gosto Bin Laden foi melhor que Hitler e Stalin. Mas já se sabia que ele era viciado em Coca Cola e adorava faroeste de baixa qualidade.

Os dois primeiros, Hitler e Stalin, foram estudantes medíocres. Bin Laden teve acesso a um vida rica, de Playboy, mas não fez universidade no Ocidente e, sim, na Arábia Saudita, onde nasceu.  Fez a Universidade de Engenharia de Jeddah, e ali se aliou aos grupos mais radicais do fundamentalismo islâmico. Ou seja, foi mais um militante que estudante – coisa que todos que fizeram universidade aqui entre nós sabe bem como é, conhecemos bem aqueles eternos alunos que nunca entram em sala de aula, só o fazem quando é para as invadir e ameaçar professor.

Os ditadores populistas e os terroristas que arrebanham multidões – aliás, figuras próximas ou até mesmo idênticas – são pessoas “normais”. Não são Queer! São aquelas que se enquadram bem na vida cotidiana. Ou seja, são pessoas medíocres, no sentido não necessariamente pejorativo, mas no sentido de fazerem parte da “média”. Caso nada ocorra no mundo em que vivem, podemos imaginá-las juntos, trabalhando numa repartição burocrática qualquer.

Bin Laden, Hitler e Stalin, juntos numa ilha em férias oferecidas por suas empresas, não fariam nadinha de extraordinário, e se a ilha tivesse uma praia deserta, certamente poderíamos filmá-los nus numa tentativa de masturbação um do outro. Penetração? Duvido. À noite, escolheriam um filme comum. No máximo haveria divergência sobre o ator. Bin Laden preferiria Clint Eastwood enquanto Stalin brigaria por John Wayne. Hitler ficaria no celular, vendo falas dele próprio. Numa prisão juntos, se lhes déssemos o livro Lolita, todos os três diriam que nunca viram história de horror mais perverso. Todos eles se mostrariam rousseauístas (sim, inclusive Laden – todos os três adoravam crianças), dizendo que aquela infância de Lolita, como uma não-infância, só podia mesmo ocorrer nos Estados Unidos, o “lugar dos valores humanos deteriorados pelo capitalismo e pelos banqueiros judeus”. Aliás, essa experiência sobre Lolita foi feita. Deram o livro a um criminoso de guerra nazista preso, e ele realmente fez o julgamento do livro como a coisa mais cruel que ela já havia lido e – pasmem – visto! Colocar crianças numa redoma de vidro é um ideal dessas pessoas, ainda que na prática sempre vejamos suas crianças empunhando fuzis. Mas o problema não é com fuzis, e sim com o sexo. O pênis é mais perigoso que o fuzil para gente com Hitler, Stalin e Laden.

O traço de caráter e gostos das pessoas que seguem ditadores e terroristas é muito parecido com o traços dos próprios ditadores e terroristas que as lideram. É a mediocridade travestida, em determinados momentos, por uma luz que parece vir deles mesmos, mas que é acesa por conjunturas de desgraças mundiais, que cai no semblante de um medíocre mais magoado que outros. São pessoas que sofrem da chamada “síndrome de pequenos poderes”. Poderiam ser chefetes de departamento de uma burocracia qualquer, desses que gostam de perseguir faxineiros e cargos menores, ou de participar de bancas em universidades, mas diante do vazio do poder, acabam ficando com um departamento um pouco maior, o Estado ou uma grande organização feita por outros. Quando você, leitor e leitora, quiser ver ao lado um desses, não olhe para os grandes, olhe para crianças com dificuldade de aprendizado, repetentes escolares, magoados do mundo, gente que se imagina um Caetano Veloso mas é apenas um Youtuber que escreveu um livro, mas que não leu nenhum. Um um desses líderes de movimento estudantil catapultado para um grande jornal por um determinado momento. Gente que não conseguiu terminar o ensino fundamental (ou a universidade) e diz saber de tudo, por autodidatismo. Gente que precisa aprender tricô solitariamente, por vídeo, porque tem vergonha de perguntar para uma mulher ao lado. E olha que Bin Laden tinha aos montes mulheres tricoteiras.

São Paulo, 03/11/2017. Paulo Ghiraldelli Jr. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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One Response “Bin Laden e seu crochê! A revelação dos arquivos da CIA”

  1. Orquidéia
    28/11/2017 at 07:54

    Fio…

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