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29/05/2017

A Bíblia sem pecado


O mistério da Bíblia não é outro senão a sua capacidade de ser um livro múltiplo. É um livro de história, sociologia e antropologia. Ao mesmo tempo, tem lances filosóficos, em parte por conta de uma ontologia e, por outra parte, por ser um texto normativo, um lance ético-moral. Além disso, é também um livro de literatura fantástica e um grande poema.

Por tudo isso, a Bíblia é um livro para todos, mas não é para qualquer um. Por isso, os intelectuais, os filósofos, leram esse livro com propósitos elevados. Sua leitura nos tempos modernos, a partir do momento que religião perdeu de vez sua condição de capa e agasalho de esferas de valor  e de atuação humana, que se tornaram autônomas e independentes como Weber ensinou, passou a ser valorizada pelos filósofos e profissionais das ciências humanas e da literatura como uma enorme nuvem de inspiração. A leitura dos Evangelhos por Santo Agostinho, sempre desejoso de conciliar sua cultura helênica com a sabedoria hebraica socializada por Paulo, e então dita como de toda a humanidade, foi aos poucos se tornando uma leitura a mais. O texto bíblico, então, deixou de ser uma referência para Deus, mas uma referência cultural fundamental. Ter conhecimento da Bíblia a ponto de saber diversas passagens de cor, na cabeça, tornou-se uma obrigação para nós tanto quanto conhecer a Ilíada e a Odisseia o era para os gregos no tempo de Sócrates.

Não podemos conhecer o homem ocidental, religioso ou não, sem a leitura da Bíblia, e de certa forma, sem a leitura da Ilíada e da Odisseia.

 A Bíblia é composta pelos textos mais antigos de nossa civilização ocidental. Nisso, o texto dá informação para historiadores, antropólogos e sociólogos. Todavia, hoje em dia, às vezes são mais estes, com outros saberes, principalmente os avanços técnicos em hermenêutica, que acabam por informar os estudiosos da Bíblia. Mas, quanto aos saberes filosóficos e ao estilo poético, sua originalidade não se inverteu. Ela, a Bíblia, dá o tom.

Não é de todo errado tomar a fala de Deus dizendo “eu sou (aquele que sou)” como uma declaração equivalente à de Parmênides sobre o ser. Não é de todo errado tomar “no começo era o verbo” como tendo um parentesco com o Logos de Heráclito, do qual ele se imaginava um porta-voz. Não é um equívoco ver no Gênesis uma descrição de Deus como quem dá normas para quem não é deus, e também como quem decide aleatoriamente – se fazendo destino – para estes. O desobedecer de Eva e Adão e, depois, a escolha de Abel e não as colheitas de Caim, como Deus fez, são ensinamentos em forma de um poema fantástico, e ao mesmo tempo simples de leitura literal, capaz de conformar a tradição de qualquer povo.

A própria tensão entre a justiça do Velho Testamento e a bondade do Novo Testamento, a tensão entre um Deus que era o antigo deus da guerra, e o Deus que é filho de Deus e pregador do amor, formou a mentalidade dos ocidentais. Esse drama jamais foi resolvido. Todos nós não sabemos ainda se temos de seguir leis universais, as de Deus (da Polis, estado, Humanidade etc.), ou se temos de seguir a lealdade para com os familiares e amigos (a manutenção do vínculo com o clã), como o que Jesus pediu ou mesmo exigiu aos que vieram a ele. Justiça ou lealdade ainda é nosso drama ético-moral e político. Estamos montados nesse touro de dupla cabeça e ferido. Muito de nossa filosofia, de Platão a Rawls, foi erigida para equacionar isso.

Para além de tudo, a Bíblia é um texto que se parece às vezes com um filme de Tarantino: um show de imagens que merece trilhas sonoras estapafúrdias, aquelas colhidas entre o Western Spaghetti e um ritmo pop qualquer. Caso Jesus não tivesse inventado o percurso até o Calvário, Tarantino o faria, com todo o sangue possível. Mas o sexo, não raro, não é o de Tarantino e sim o de Almodóvar. É intrincado, contraditório e, não raro, esplendorosamente simples. Todos nós sabemos que as formas de controlar mulheres e de espioná-las, inclusive o modo engraçado de engravidá-las, como no caso de Maria e também de sua mãe, poderiam ser assinados pelo cineasta espanhol. No meio disso tudo, aqui e ali, também Esopo poderia assinar algumas passagens gerais, coisas pequenas que foram muito aproveitadas pelos filósofos moralistas franceses. Não à toa um Pascal era religioso, um cristão fervoroso, bom leitor da Bíblia, e ao mesmo tempo um psicólogo de mão cheia.

Essa Bíblia de que falo não tem nada a ver com o amontoado de palavras dos pastores ou analfabetos caça níqueis, ou o que vem dos alfabetizados suficientemente malucos para serem, em nome de Deus, caça níqueis. Há de tudo nesse mundo. Todavia, quanto a isso, a Bíblia torna-se nefasta. Em famílias em que ela é lida literalmente, ele impede realmente as crianças de raciocinar na escola. As crianças perdem a noção da riqueza metafórica e, ao fazerem isso, perdem a capacidade de se apropriar da língua no que ela tem de básico e rico. Criar metáforas, figuras de linguagem, sacadas humorísticas, distinguir o que é aceito como real e o que é aceito como fantástico é fundamental para educar bem um criança. A leitura literal da Bíblia, a leitura dos evangélicos que se tornam antes de tudo “evanjegues”, é um perigo para as crianças. Embota a mente e faz um papel pior do que o das drogas.

Evitar um evangélico de tipo “evanjegue” e sua Bíblia no âmbito familiar é como salvar um menino do contato com as drogas.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. – atenção, o programa Hora da Coruja será às segundas 22 horas ao vivo, durante cinco semanas, sendo que às terças ele passará o gravado. É na Flix Tv.

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3 Responses “A Bíblia sem pecado”

  1. max
    10/06/2016 at 20:21

    A BIBLIA CRIMINOSA!!!
    10 Cursed the man who goes about the Lord’s work grudgingly, nor with blood stains his sword!

    • 10/06/2016 at 22:27

      Max! A coisa é mais complexa, mas também simples. Em todo caso, é para inteligentes, e só.

  2. Valmi Pessanha Pacheco
    18/08/2014 at 10:58

    Meu caro PAULO:
    Concordo, plenamente. Não é, por sorte ou tradição, que a Bíblia é chamada de “O LIVRO”, ou melhor “OS LIVROS”, etimologicamente falando.
    Atenciosamente.
    Valmi.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo