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19/03/2019

Beagles e povo


“Povo” não existe. Sim, talvez seja mesmo só uma palavra de retórica … populista! Mas podemosThe Beagles substituir tal palavra por “população”, “pessoas” etc. O que não podemos é abolir a nós mesmos. Somos os que estão aqui nessa democracia fazendo regras e tentando jogar de acordo com elas. Podemos falar de nós mesmos como “povo”, e daí?

Os conservadores não podem ouvir falar em “povo”, “povo na rua” e, agora, “beagles”. Por outro lado, o governo, que seria em parte o contraponto dos conservadores (em tese), fala muito em “ouvir a voz do povo nas ruas”. Mas agora, tanto quanto os conservadores, o governo parece estar incomodado com a palavra “beagle”. O ministro da Ciência e Tecnologia disse que os cientistas decidem sobre testes com animais e pronto. Ou seja, sobre os beagles impera só o que dizem os cientistas! Não é verdade. Há lei feita pelo povo: se há métodos que poupam os animais de terem de servir de cobaia, eles devem ser usados. Essa é a regra com a qual jogamos. Os cientistas fazem regras gerais enquanto povo. Ou seja, todos nós juntos, via instituições democráticas, fazemos as regras e devemos cumpri-las. Caso contrário, ficamos de um modo que os conservadores, os progressistas, a esquerda e a direita democráticas não poderão existir. Ou seja, botamos a nós mesmos, o povo, em situação de barbárie.

O problema dos conservadores com essa conversa de não gostar de povo e de beagles é paradoxal. Eles invocam o duelo desnecessário entre razão e emoção. Acham que todos que falam “povo” e “beagle” agem por emoção e que isso estraga a ação que seria a correta, aquela vinda da razão. Paradoxalmente, apoiam antes a vertente iluminista que a vertente romântica da modernidade.

Tudo se passa como se os conservadores, passado um tempo, tivessem mudado de lado filosófico para poder continuar do mesmo lado político. Querem para o povo e para os beagles uma política baseada exclusivamente na razão. Mas isso seria um desastre, porque a razão solitária perde a si mesma, transforma-se em mera razão técnica, um arremedo de razão. Sabemos bem o quanto foi necessário ao romantismo e, portanto, ao próprio conservadorismo, com a emoção, adocicar a fúria iluminista. Os conservadores hoje, ficando do lado exclusivamente iluminista, lutando por um racionalismo radical em tudo, perdem o que havia de melhor na vertente conservadora, no passado, quando os românticos fizeram alguns revolucionários se darem conta do quanto, justamente em nome do povo, todo mundo havia sido tratado pelo iluminismo revolucionário como beagle!

O levante conservador racionalista que temos visto aqui e ali, no Brasil de hoje, poderia nos ajudar a pensar e a viver melhor, eu creio. Mas com algum tempero do próprio conservadorismo, ou seja, da sua parte romântica. Foi pelo elemento da emoção que os conservadores, no passado, avisaram o povo que os revolucionários, os iluministas, estavam querendo apagar o passado, não só o que havia ficado caduco, mas tudo que havia para amar, ou seja, toda a tradição.

Não vejo nenhum sentido, hoje, nessa conversa dos conservadores, que dizem que todos os “bonzinhos”, por tratarem as coisas emocionalmente, são burrinhos ou mesmo desonestos. Não, os conservadores não ajudam em nada falando isso. Seria melhor mais moderação.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
http://ghiraldelli.pro.br/

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13 Responses “Beagles e povo”

  1. marcelo santos
    31/10/2013 at 18:02

    Paulo,

    Como o pragmatismo sai dessas dicotomias 1) razão x irracionalismo? 2) razão x emoção? Tem algum artigo/livro do Richard Rorty específico sobre esse debate?

    Abs,

    Marcelo

    • 01/11/2013 at 09:10

      Marcelo, essas dicotomias aí não são dicotomias clássicas da filosofia, o pragmatismo não tem muito a falar delas, na essência. Essas dualidades são, digamos, laterais. Todavia, algumas vezes elas aparecem e são tratadas como eu tratei aí, pragmaticamente: alguém faz algo sem emoção e identificação? Não! Então, os beagles são uma porta de entrada.

    • marcelo santos
      01/11/2013 at 11:25

      Mas essas dualidades são muito presentes nos gregos, não? Rorty sempre foi muito preocupado em relação a essas dualidades que herdamos “inconscientemente” dos gregos e em relação às quais ficamos presos, atados, sem conseguirmos resolver os problemas.
      A razão é apenas uma espécie de paixão diferente?

    • 01/11/2013 at 15:19

      Marcelo, essa dualidade emoção versus razão não é grega, é moderna, romântica.

  2. MARCELO CIOTI
    28/10/2013 at 11:50

    Mas queimar ônibus como fizeram na última sexta em SP parece coisa
    de gente que tem raiva de ver pobre andar de ônibus em vez de
    ficar gastando combustível a toa andando de carro.Em compensação,
    não queimam nenhum carro por aí.

    • 28/10/2013 at 12:27

      Marcelo, da próxima vez no meio da manifestação eles ligam para você de celular perguntando o que deve ser feito. Você quer que queime carro? Vou avisá-los.

  3. Rick
    27/10/2013 at 08:19

    Paulo, espero que vc não me expulse depois deste comentário, que não tem nada a ver com conservadorismo.

    Segundo o Datafolha, 95% dos paulistanos não apóia os black blocs. Eu também não. Suas reivindicações podem até ser legítimas, mas sua forma de luta, calcada na violência, não, considerando que vivemos num regime democrático. Esse último aspecto deles os torna um bando de arruaceiros.

    Sua forma de ação é indefensável num regime democrático, pois um dos fis principais deste é evitar a violência, substituindo a pela resolução pacífica de conflitos, usando sobretudo o debate e o voto livre e universal como meios.

    Em outras palavras, os black blocs são uns “porra loca” e atentam contra a democracia, porém contra eles o estado não deve jamais agir de forma semelhante a eles. Ao contrário, deve agir dentro da legalidade, não admitindo excessos. Ou seja, à ação incontida e destrutiva, deve oferecer a ação equilibrada e própria do estado democrático de direito.

    • 27/10/2013 at 10:02

      Rick, você não está entendendo nada do que um filósofo fala. Eu não falo de política ou contra ou a favor. Fizemos um Hora da Coruja sobre isso. Mas entrar na filosofia é difícil. As pessoas ainda acham que devem ficar em um eterno plebiscito. Não é o caso aqui. O plebiscito leva o sujeito à burrice, então ele fala “fulano é porra louca”. Aí o outro devolve para você: “covarde”, “inocente” etc. O pior ainda é essa sua referência à porcentagem! Infelizmente o jornalismo domina a cabeça de vários leitores, e investigação filosófica não entra. Os próprio Black Bloc são mais filosóficos que os que reagem como você reagiu a eles. E eles sabem disso, embora sejam garotos – é bem poucos (não mais que 4 começaram isso). Sem os Black Bloc nossa sociedade seria hoje uma total farsa. Nem mesmo haveria oposição.
      Agora, o mais chato de tudo é a estatística voltada para o convencimento dos que tendem à direita e possuem medo da violência dos Black Bloc, e se esquecem de que possuem mais medo, mesmo, da polícia. Ou os que não possuem medo da polícia porque são brancos.

  4. Ptolomeu
    26/10/2013 at 18:16

    Boa! Só pra complementar… Retirado de outro texto:

    (…)
    “A se notar as manifestações sobre o episódio, no entanto, ainda estamos longe desse salto civilizatório. Não que adorar animais seja sinônimo de desprezo a pessoas. Mas o precedente é, no mínimo, curioso. Em conversas, posts e artigos de jornais, o que se vê é a confirmação de um movimento, já citado aqui outras vezes, contraditório: a humanização dos animais e animalização do ser humano. Na crônica citada, recorri a uma sociologia de boteco para rabiscar uma explicação ao fenômeno: à medida que as cidades crescem, passamos a conviver cada vez mais em ambientes insalubres; esbarramos no trabalho, nas escolas, nas casas de vizinhos e outras instituições fechadas com todo tipo de competição, ganância, trapaça, preconceito e intolerância. Nesse ambiente, nos animalizamos e a ideia de lealdade se transforma em valor absoluto – e raro pelo contraste. Nessa, os cães ganham uma aura sagrada, mais ou menos como uma divindade indiana: são leais, amorosos, gostam da gente quase gratuitamente e não pulam o muro de casa para nos trair com o dono do cão vizinho. Os homens, nessa visão, são abjetos, pouco confiáveis. Elimináveis, portanto.

    Nos jornais, como a candidatar-se ao Prêmio Relincha Brasil 2013 – expressão de outro amigo – houve quem escrevesse que, em vez de Beagles, a ciência usasse humanos em seus testes. Por exemplo, presidiários. Eles poderiam, chegou a sugerir a colunista, aceitar atuar como cobaias em troca da redução das penas. Não poderia ser mais clara: não aceitamos menos do que a humanização dos animais, mas não nos importamos com o estabelecimento de humanos de segunda categoria. Os Beagles estariam, assim, em uma categoria intermediária entre os brancos livres detentores de direito e os negros, pobres e mulatos, os únicos que afinal cumprem pena, sem serem dignos de pena, no Brasil – ainda que mofem em detenções insalubres sem o direito sequer de serem julgados. Franz Kafka, que no livro A Metamorfose transformou o personagem Gregor Samsa em um enorme inseto – seu alter ego desprezado por sua tuberculose, segundo a interpretação mais plausível – não iria tão longe. Séria ou não, a proposta, de apelo popular indiscutível, lançou as bases de uma nova categoria de indignação: a humanização seletiva. Os ratos deixados para trás na operação resgate em São Roque não poderiam se sentir menos prestigiados.” Por Matheus Pichonelli

  5. Valmi Pessanha
    26/10/2013 at 10:10

    Prezado PAULO:
    Nesse falso dilema entre racionalismo extremado X empirismo radical, só mesmo recordando da moralidade Kantiana para, mais uma vez, ressuscitar a Metafísica. Ou não?

    • 26/10/2013 at 10:23

      Não creio, todas (quase) as filosofias contemporâneas optaram por descrições, só descrições, sem fundamentar metafisicamente suas narrativas. Veja a discussão do pragmatismo, por exemplo!

  6. Thiago S.
    25/10/2013 at 23:31

    Por vezes o conservador pode servir como provocador ao menos. Mesmo que suas ideias precisem de moderação, ele nos instiga a pensar, a contradizê-lo, a questioná-lo. Não?

    • 26/10/2013 at 00:01

      E daí? O que isso tem a ver com o texto? Românticos e Iluministas são provocadores, mas não vi razão da pergunta.

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