Go to ...

on YouTubeRSS Feed

25/09/2018

“Base Nacional Comum Curricular irá salvar a nação” – alguém acredita nisso?


[Artigo indicado para o público em geral]

A comemoração do governo por conta da homologação da Base Nacional Comum Curricular soa sarcástica. Colocar na mesa um papel que diz que as disciplinas das escolas serão as mesmas para todo o Brasil é algo simplório, e tomar isso como o início da salvação da educação brasileira é escárnio. Dizer que implantado algo assim, vamos melhorar o que é feito no ensino fundamental público é o equivalente, na área da educação, ao lema do mesmo governo no caso político: “tem que manter isso, viu?”

É para manter isso: o que está aí!

O Brasil tem dois grandes problemas na área de educação, e eles não são enfrentados de modo algum: 1) o professor brasileiro não ganha o suficiente para que a sua profissão seja de fato considerada uma profissão no mercado; 2) os cursos de licenciatura, em especial o curso de pedagogia, são antros de conversação inócua, sobrecarregados de afazeres burocráticos (estágios) voltados para uma “prática” desnecessária. Se há uma crítica tola é aquela que diz que eles são “teóricos demais”. Não são. São de baixa qualidade teórica.

Ser professor no Brasil se tornou uma opção de não-profissionalização, bem ao contrário do que foi no passado, quando muitos jovens se dirigiam à Escola Normal, em nível médio, para se profissionalizarem mais rapidamente. Muito homens queriam casar com “as normalistas”, deixando a retórica do machismo funcionar no vazio, pois sabiam que nunca faltaria salário da professora para manter a casa.

Além disso, ser professor no Brasil era como ser juiz, e ser professor universitário na Rede Federal era como ser ministro. E isso não faz muito tempo não, principalmente em relação ao professor universitário, especificamente quanto a salário.

Essa linha de igualação não era só em relação a salários, mas também em relação ao conhecimento. Professor sempre era um consultor nato, o intelectual do local. Eu cheguei a viver num Brasil em que, para uma cidade do interior fazer um comício de político, era necessário ver o professor no palanque, lado lado com o padre, o delegado, o juiz e o prefeito. Hoje em dia é mais fácil ver as autoridades se relacionando com o professor por meio não do tablado do palanque, mas por bombas de efeito moral e cacetete.

A ideia básica dos governos, até mesmo de grande parte da esquerda, é a “educação profissional”. Ela não deu certo quando nas mãos dos militares. O próprio Figueiredo, presidente-general, a extinguiu no ensino médio, dando o braço a torcer: a ditadura militar havia fabricado um monstrengo com a LDB 5692/71. Até o governo Figueiredo (!) mostrou saber sobre fracasso de uma ideia pedagógica claramente ideológica, coisa que esquerda e direita, hoje, não conseguem enxergar. Ou não querem enxergar.

Estamos com navio à deriva nas questões pedagógicas no Brasil, e nas ruas vemos gente, que não pensa nada diferente do governo Temer, reclamando de Paulo Freire! O homem mais reconhecido internacionalmente como filósofo da educação, aqui na nossa Terra é acusado de estragar o ensino brasileiro por conta de “doze anos do PT no poder”. Ora bolas, o PT de Haddad (ministro da educaçao e prefeito de São Paulo) traiu Paulo Freire. Nunca nada no Brasil, sob o PT, foi feito no sentido de uma pedagogia vinda da linha de Dewey, Anísio Teixeira e Paulo Freire. Nunca foi permitido a Paulo Freire errar. Todos os erros da nossa educação são de outras pessoas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , ,

5 Responses ““Base Nacional Comum Curricular irá salvar a nação” – alguém acredita nisso?”

  1. David
    21/12/2017 at 21:11

    A questão é saber de fato o que é educação, pois eu já não sei mais o que é. O conceito educação está destruído na base, em sua raiz, “uma cultura Maravilhosa” onde se eu, ou qualquer outra pessoa disser que um quadro de velazquez, ou Van Gogh vale mais que um graffiti na parede, seremos chamados de facistas. Penso que na educação há o que deve é, não deve ser transmitido

    • 21/12/2017 at 23:19

      David! Um quadro de Van Gogh pertence à cultura popular, um graffiti pertence à cultura popular. Ensino isto desde o começo dos anos 80. Muitos aprenderam. Antes de mim, outros ensinaram a mesma coisa, como por exemplo o professor Alfredo Bosi. É simples. Agora, ser fascista, aí é outra coisa. Que eu saiba fascistas não gostavam de Van Gogh.

    • Tony Bocão
      22/12/2017 at 08:48

      Nossa que coincidência sobre o comentário do comentário do David, eu estava pensando justamente em Alfredo Bosi no artigo Cultura Brasileira e Culturas Brasileiras sobre a perda de reflexão teórica e crítica por excelência por alijamento de matérias filosóficas dos quadros curriculares do ensino médio.

    • 22/12/2017 at 10:18

      Tony, é dureza né?! A gente produz, ensina, escreve. Mas não adianta, as pessoas não se tocam que há gênero de arte, literatura, música etc. As pessoas querem seguir os palestrantes que não sabem que há gêneros. Julgam tudo pelo mesmo diapasão.

  2. LMC
    20/12/2017 at 16:18

    PG,encontrei aquele texto do Pondé
    que você pediu.Está na Folha de
    9-3-2009.E além de falar do Camboja,
    fala de URSS,China,Vietnâ e Cuba.
    Só rindo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *