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01/05/2017

Há ou não há um avanço da direita? Isso é ruim?


Há um avanço da direita, claro. É péssimo. Mas não é péssimo quanto à política e, sim, em relação aos costumes sociais. Em relação à política, as coisas poderiam não ser um caos.

Em relação à política, se o chamado neoliberalismo é a direita, isso não é ruim e nem bom a priori. Depende do momento e depende do setor. O estado idolatrado pela socialdemocracia em certos lugares sabe só cobrar impostos, não sabe devolver em termos de serviço. Talvez os feitos do neoliberalismo não sejam bons para países como o nosso, onde o estado ainda é quem puxa o desenvolvimento, mas críticas são válidas quando reclamam da ineficiência do estado. Além disso, não precisamos ficar no debate sobre “socialdemocracia versus neoliberalismo”, muito menos no debate mais energúmeno que é se vamos ou não privatizar a Petrobrás, afinal, só um tonto faria uma privatização de tal empresa. Então, os debates alemães sobre política, envolvendo Peter Sloterdijk falando de utopias a partir de força do Thymos e não de Eros, podem oxigenar a cena de qualquer país (Hora da Coruja: Fim dos Impostos. Artigo: As utopias de Nozick e Sloterdijk).

Todavia, em relação aos temas sociais e especialmente aos relativos aos costumes, os mais afeitos à vida ético-moral, receio que o neoliberalismo não seja a direita. Temo que algo mais à direita e, curiosamente, no limite nada liberal embora queira se passar por liberal, é que leva vantagem. Fascismo? Não, nem tanto assim, no sentido original da palavra, mas algo extremado, algo que se efetivado produziria um Brasil que não iria deixar sair de casa nem as esposas dos que pedem tal condição e regime. Daí a ideia que vem surgindo, mais recentemente, do possível aparecimento de um tipo de Tea Party dentro do PSDB, que por azar e culpa própria acabou se transformando na oposição conservadora ao governo do PT que, por sinal, está perdendo o caráter de progressista já faz tempo. Essa direita sim é nefasta.

Essa direita é aquela que fomenta as avaliações extremamente negativas em relação a negros, índios, pessoas de regiões marcadas historicamente por pobreza, pessoas do mundo LGBTTT e outras minorias. A reação desses grupos a tal atitude se torna, não raro, irracional e pouco culta ou inteligente. Forçados pela atitude exclusivista dessa direita, tais movimentos esquecem seu lado positivo, passam então para uma ação totalmente reativa, incapaz de distinguir quem está e quem não está do lado contrário. Atacam qualquer um que parece discordar de palavras de ordem e de cartilhas. E eis então que o cheiro de fascismo de tais grupos de direita começa a ser aspirado e reproduzido por certas facções das minorias. O problema do fascismo não é a existência de fascistas, mas a contaminação do adversário, tirando suas respostas do campo da empresa filosófica de “dar e solicitar razões”. Quando acordamos, estamos diante de movimentos de minorias agindo contra nós, filósofos e intelectuais, da mesma forma que nazistas agem. O fascismo conquista o adversário com uma facilidade que é inacreditável.

Quando se chega a essa situação, todo o antigo ethos já está de cabeça para baixo. Aí o campo dos costumes começa realmente a fazer diferença social e política. Tudo piora. A dondoca que não quer ver nenhuma “preta ou pobre ou puta” no elevador “social” de seu condomínio dá um passo além. Ela inicia sua idolatria ao um deputado que não quer ver pobre nenhum vivo, e este começa a se sentir no direito de ter um grupo paramilitar que o apoia que, à noite, espanca gays e mata travestis. Aquela mesma gente que, quando seus avós eram donos de fazenda no interior, estuprava a filha da empregada doméstica, uma vez na cidade passa a querer que a barbárie da Casa Grande versus Senzala se torne urbana e seja a lei.

Um país como o Brasil, ao contrário do que muitos pensam, pode chegar nisso de uma maneira muito fácil. Os ataques às novelas da Rede Globo, quando elas denunciam isso, vem da esquerda e da direita, inclusive de minorias, e nessa hora sabemos que o clima de “fascistaria” está disseminado socialmente. Em alguns lugares, quando isso ocorreu e foi percebido mais claramente pelos que pensam a sociedade, já era tarde; logo em seguida o próprio poder político foi tomado ou de assalto ou pelo voto por alguém muito mais à direita do que a sociedade pode suportar. Então, o problema do país deixa de ser somente a falta de infra-estrutura e a corrupção, e passa a ser além disso o comando do país exercido por um belicista de cabeça oca. Aquele que aparece como gênio para os fracassados e ressentidos vira algo pior que o Caçador de Marajás e dá o bote. Acordamos então com gente no governo, na cúpula, trazendo para ministros a TFP, algo que transformaria a Dama do Desmatamento, Kátia Abreu, em uma senhora de esquerda!  (diga-se de passagem, essa ministra de Dilma tuitou que não está gostando da novela Babilônia! Significativo não?).

Aí a pauta política da direita começa a andar: leis para prender menores, justificativas para a dizimação de pobres e negros pela polícia, desconsideração completa por leis de Direitos Humanos que policiem o estado de modo que ele não desrespeite o indivíduo, desconsideração para com a diversidade de religião, de cor, de objetivos morais etc. O ódio da dondoca do elevador vira política. Nessa hora, se você olha para a esquerda, ela está inteirinha dominada também pelo ódio, reagindo quase igual à direita.  Velha história essa! Uma história que não está longe de nós não. Vejam como há gente de esquerda já pedindo a criminalização de atos de gente da direita, mesmo que se trate apenas de questões de opinião.

A direita em termos de costume traz com ela um vírus horroroso que faz com que um Renato Janine Ribeiro peça criminalização de gente de direita de modo igual a um Pondé que quer que a esquerda nunca saia de dentro da fábrica. Termina todo mundo dizendo: cada um segure o seu negro na senzala. E então todo mundo vira negro porque todo mundo está trancado na senzala. Fecha-se o Brasil para balanço, mas sem qualquer balanço.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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One Response “Há ou não há um avanço da direita? Isso é ruim?”

  1. Marcos
    31/03/2015 at 14:18

    É bom, reconfortante ver que alguém decompôs as questões econômicas das questões sociais. Sentia falta de um artigo assim. O que tinha visto até o momento era gente atacando a economia de um modelo ou a politica do outro modelo através daquilo que eles chamam de ‘fascistas’, ‘vagabundos’ e etc. E dai o insatisfeito com a economia prefere ficar ao lado do racista, desde que a proposta seja sem assistencialismo, etc, etc. Belo artigo, voltarei mais vezes ao site.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo