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26/09/2017

Você viu um ateu? Putz, ele veio encher seu saco?


Ser ateu era ser inteligente, mas no século XVIII. Foi o caso de um Diderot. No início do século XIX ainda era ser inteligente. Foi o caso de Feuerbach. Marx não! Marx não era ateu porque nunca se colocou de fato uma tal questão. Ele entendia o ateísmo como algo do passado, algo que se contrapunha à religião, mas a religião já não o tocava pessoalmente, nem a ele nem a Engels. Nietzsche confirmou que entraríamos o século XX já livres do ateísmo, pois Deus estava morto. Não se poderia descrer de um morto. Era até mais fácil crer no morto, mas não descrer. 

Entramos o século XX e alguns filósofos ainda se disseram ateus. Mas já não se tratava mais de posição filosófica e sim de posição política, especialmente nos Estados Unidos. Ser ateu era como que se opor aos que, mandando gente para a Guerra, diziam “God Bless America”. Ser ateu era uma forma de negar voz ao Establishment. Uma tentativa de ser rebelde e atingir o centro conservador do Partido Republicano ou mesmo o conservadorismo infiltrado entre o Democratas. A Era Obama tem mudado isso, conformando a política americana a um jogo um pouco mais europeu ao não falar mais de liberdade que de igualdade e ao mostrar que questões religiosas são para ficar no âmbito privado.

As igrejas podem permanecer lotadas, e isso não desmente o dito de Nietzsche, explicou Heidegger. Deus está morto significa, no plano das pessoas mais cultas, conscientemente, que a metafísica tradicional chegou a um impasse. A filosofia tem dificuldade de conversar sobre o que era seu objeto mais querido, o absoluto. No âmbito das pessoas menos cultas, do que se trata? Disso: há certo relativismo moral em curso. No âmbito das pessoas nada cultas: vamos à igreja, mas lá não encontramos com Deus, mas com o dinheiro e a magia do picareta, mas tá bom, deve ser Deus!

É preciso muita geografia e história para a filosofia. Compreender espaços e, inclusive, espaços surreais, e não só épocas, epoché, é fundamental para entender a validade ou não de jogos da linguagem da alta cultura, da filosofia e, de certo modo, também para poder entender no que se transformou o senso comum. O ateísmo teve seu tempo e espaço. Agora, sendo algo de fora do jogo de linguagem culto, sobrevive no moldes do discurso religioso de baixo calibre, como parasita do pensamento, não como pensamento. Ocupa os espaços da periferia do senso comum. Cabe portanto, perfeitamente, nas redes mais amplas. A internet é uma rede ampla de convívio de jogos de linguagem. Assim, um grupo de pessoas se descobre ateu e prega o ateísmo, quase como faziam os filósofos do século XVIII, ou seja, como um dia o não-senso comum fez. Todavia, um grupo assim faz essa pregação sem a sofisticação intelectual dos do passado, faz no âmbito do senso comum que, enfim, sempre é o senso comum, o discurso menos culto. Gramsci estava errado ao dizer que o senso comum é a ciência de uma época passada. Não. O senso comum reproduz algo da ciência de uma época passada, mas não deixa de funcionar com as características de senso comum, as características de deslocamento, desajuste e acriticidade.

É por isso que o ateísmo faz pouco sentido para o mundo culto e, onde permanece com algum apelo ao discurso culto, é porque está sob o influxo da luta política. Sendo homogeneizado pelo senso comum, o discurso ateu pega todos os vícios do seu pretenso antagonista. Não à toa o ateu de hoje parece um tipo de testemunha de Jeová, pois ele é um pregador de baixa inteligência. Ele está no senso comum. Ele descobriu a câmara fotográfica e não sabe que seus inventores estão fazendo cinema. O que ele absorveu de máximo para a sua inteligência é algo que lhe parece uma grande descoberta; ele reinventa a roda, quando todos já estão voando, ainda que possam usar a roda. Ele se sente superior ao crente. Não faz ideia que fora do senso comum sabe-se que a religião ficou sem religiosidade e que Deus tem todos os poderes, menos o de ressuscitar. Como era imortal, quando morreu, não podia contar com uma volta.

Deus negado ficou lá no mundo de Diderot, Voltaire, Feuerbach e, de certo modo, até de Freud, embora este já soubesse de tudo que estou falando aqui, ou quase tudo.  Freud já sabia que Deus estava morto e o que falou da sua falta de “sentimento oceânico” era apenas provocação.

Paulo Ghiraldelli, 58

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14 Responses “Você viu um ateu? Putz, ele veio encher seu saco?”

  1. Mauricio
    06/04/2016 at 19:59

    Essa interpretação para a morte de Deus em Nietzsche, não entendo porque já vi umas 6 ou 7 interpretações diferentes! Minha pessoal é que, Deus morreu quando o homem ao invés de procurar um padre, procura um médico ou a tecnologia para salvar sua vida, mas principalmente Deus morreu porque as pessoas não tem mais moral pra acreditar nele, todos o mataram com suas ações cotidianas fraudulentas e desumanas.
    Eu estaria sendo muito ignorante em minha definição ?

    • 06/04/2016 at 20:20

      Maurício, sim, essa sua versão não está errada.

  2. Mauricio
    06/04/2016 at 16:06

    Afirmar que o ateísmo “ocupa os espaços da periferia do senso comum” demonstra falta de senso comum de quem afirmou

  3. Ismael
    31/01/2016 at 16:47

    Professor, boa. Penso que Nietzsche, ao ferir-se a “morte de Deus”, considerava os desdobramentos socias do afastamento da metafísica, como princípio, das relações em sociedade, da verdade e de outros fenômenos (que descubro ainda…) para regiões periféricas, distantes da legitimidade e relevância na sociedade moderna, como você comentou no texto, perdendo espaço para a ciência positivista como pressupostos fundamental das relações sociais, da verdade e etc. pelo menos em instâncias institucionais formais e cultas da sociedade ocidental.
    Me arrisco ao equívoco de pensar também, que nas esfera política brasileira, mais especificamente na câmara federal a presença da bancada evangélica, e não somente dela, põe em pauta novamente o assunto da influência da metafísica, ou o seu retorno a centralidade das discussões políticas e portanto da legitimidade na sociedade, não excluindo o científico mas valendo-se dele como instrumento para legitimar suas proposições.
    É um cenário peculiar acredito; em que aquilo que se acreditou ultrapassado ou morto, retorna para os campos da legitimidade de forma explícita ou implícita nas afirmações e propostas de alguns indivíduos, utilizando o científico como sustentação ou manobra de sustentação.

    • 31/01/2016 at 17:47

      Ismael a tese de Nietzsche não é geográfica, embora seja. Ela é filosófica. Ou seja, o absoluto foi embora. Isso não tem nada a ver com pessoas indo em Igrejas ou não. Até por uma razão simples: nenhum pastor acredita em Deus.

  4. José Silva
    01/01/2016 at 22:28

    Os ateus são chatos, e a chatice deles provém da mesma fonte do pessoal de esquerda, direita e fãs do Star Wars.

    • Emerson Santos
      06/04/2016 at 15:09

      Vc conheceu cristaos chatos ??? budistas chatos ??? muçulmanos chatos ??? crença colega .. nao é fonte de inteligencia … eu sei que existem cristaos idiotas e imbecis .. mas e ai ?? sao pessoas como eu e eu tenho que respeitar .. Nao aprendi isso na igreja .. aprendi isso sendo humano … Entao … saiba que existem cristaos inteligentes, budistas inteligentes e muçulmanos inteligentes .. e até ateus inteligentes

  5. Jayme Conde
    29/12/2015 at 11:45

    Com todo o respeito e admiração que eu tenho pelo senhor, professor Paulo, permita-me vir até aqui encher o seu saco e discordar. Não acredito que o ateísmo tenha as mesmas práticas da religião. Não existe uma igreja ateia, livro sagrado ateu, dogmas ateus. Por acaso já acordou domingo de manhã com um ateu à sua porta, com um livro do Dawkins debaixo do braço, dizendo: “teria um tempinho para ouvir uma palavra de descrença?”.

    Deus não pode estar morto. Deus nunca esteve vivo, uma vez que ele não existe! Acredito que não é porque está fora de moda nos circuitos intelectuais que Deus passou a existir. Continua não existindo uma evidência sequer de que o Todo-Poderoso exista.

    Acho que ainda devemos nos preocupar com os males da religião, sim, uma vez que temos aí uma bancada evangélica no Congresso Nacional, propostas de Estatuto da Família, de criminalização da “cristofobia”, de deputado querendo colocar na Constituição que todo poder não emana do povo, mas de Deus, com pastores e padres incentivando o ódio religioso, com homens se explodindo em nome de Alá e o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e um “filósofo cristão” (Olavo de Carvalho) querendo nos fazer acreditar que a Terra é o centro do Universo.

    • 29/12/2015 at 13:32

      Jayme você discorda de mim por razões de pressa. Se pensar, adquirir experiência, você vai concordar. Você discordou sem refletir.

    • 29/12/2015 at 16:37

      Jayme, eu tenho convivido e tentado dialogar com ateus de todo calibre e devo avisá-lo de que o ateísmo configura-se como religião. curiosamente o ateu criou formas de igrejas, ainda que a título de paródia. curiosamente o ateu cita livros de Dawkins e outros como “divinamente inspirados”. Basta ler textos de ditos ateus para ver que existem sim dogmas – a começar por eleger o método científico como o único “verdadeiro”, praticamente uma “revelação divina”, na qual tudo deve se ajoelhar e tudo que for diferente será condenado por ser “superstição”, “crendice” e outros “pecados” que não são permitidos nessa “religião”.

    • Scherch
      06/04/2016 at 22:59

      Quem comenta algo assim, desmerece o fato de o metodo cientifico responder perguntas de forma muito melhor que qualquer outro metodo em 100% dos casos. E nao foi entregue por atlas aos homens, pelo contrario, o metodo cientifico foi refinado ao longo dos seculos para fornecer resultados cada vez mais confiáveis, e prova de q ele nao é dogmatico é o fato de continuarmos refinando este metodo.
      .
      Quem desmerece o metodo comparando-o a um dogma, simplesmente nao conhece ciencia. Caso o contrário nao diria isso. E quem insistir em defender essa opiniao, deveria se suicidar com uma overdose de remedio homeopático.

  6. 28/12/2015 at 11:45

    simplesmente perfeito, professor. o Ateísmo também morreu. se bem que não faltam zumbis. volta e meia eu vejo “ateu” que faz referência aos antigos pensadores gregos como “prova” de suas ilações ontológicas. tal como os crentes cristãos, citação generalizada, descontextualizada e desonesta. os antigos pensadores gregos e romanos discordavam da forma como as pessoas da época viam os Deuses [o tal do senso comum], mas não desacreditavam na existência do divino. falta avisar ao Daniel Arroz Sottomoaior e outros candidatos a Richard Dawkins que Deus está morto, então o Ateísmo está morto. };)

    • 15/01/2016 at 20:24

      O texto de Ghiraldelli e o seu comentário é de uma ingenuidade incomparável. Deus não está morto, ainda não. Deus é um personagem como qualquer outro na ficção, esperando para ser assassinado. Na melhor das hipóteses, deus é um ideal, que continua tão forte hoje quanto fora concebido milênios atrás. Não se trata de ser chato. Se trata de simplesmente não aceitar conversa da cachorrinha, que teístas consideram exemplo máximo de ética e moralidade. Pastores ladrões, ensino dessa merda nas escolas, e políticos corruptos usando o nome da mentira — Deus, para continuar um clico de decadência. Isso não se trata de ser chato. Se trata de não ser uma galinha perante a esses rebanhos de nocivos.

    • 16/01/2016 at 09:19

      Quimera, existe algo chamado história da filosofia. Um filósofo é sempre bom ser lido com um conhecimento mínimo disso, senão não dá mesmo cara. Deus é uma personagem de ficção no século XVIII, com os ateus crescendo em número. Depois decai. Mas quando Nietzsche diz “Deus está morto” ele está se referindo à busca metafísica do Absoluto e à fundação da teologia, que perde o sentido numa época que o deus da ciência positiva aparece. Você pode entrar nesse mundo da filosofia pelos meus dois volumes A aventura da filosofia (Manole). OK? Vai por mim. Você consegue.

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