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29/03/2017

As utopias de Nozick e Sloterdijk


NozickO norte americano Robert Nozick defendeu nos anos setenta a utopia de uma sociedade de liberalismo máximo. Os impostos seriam mínimos e o papel do Estado também. Essa sociedade iria se beneficiar de serviços coletivos antes fruto de iniciativas de cada cidadão, empresário ou não, que os vindos do chamado “poder público” com rosto estatal. Ele fez isso em um livro premiadíssimo, Anarchy, state and utopia, de 1970 (Nova York: Basic Books, Inc., Publishers).

Nozick era filósofo e jamais pensou em efetivamente realizar sua proposta teórica, efetivamente utópica. Não se associou aos escritos de economistas que, então, procuraram viabilizar sua utopia por meio do que ficou conhecido antes como neoliberalismo que como “anarquismo” ou “libertarismo”, ainda que fossem com estes últimos nomes, e não com o primeiro, que ele identificava seu projeto.

Sua tese básica se ergueu contra a ideia de que o ressentimento e a inveja desapareceriam em uma sociedade rica e igualitária. Não haveria menos inveja à medida que o “poder público” com rosto estatal interviesse na sociedade, no sentido de criar a transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. A diferenciação social continuaria a existir entre mais talentosos e menos talentosos, e ninguém conseguiria eliminar o invejoso, aquele que prefere ver um bem antes perdido que nas mãos de seu vizinho. Desse modo, buscar a igualdade seria apenas uma forma de autoengano e, pior, no limite uma maneira de tolher a liberdade, a pluralidade de iniciativas e a riqueza de capacidades e características entre as pessoas.

O que hoje, tantos anos depois de Nozick, o filósofo alemão Peter Sloterdijk defende, ainda guarda uma semelhança com essa ideia, embora tenha sua origem a partir de outra tradição filosófica. Em uma reunião de artigos recentes, Repenser l’impôt (Paris: Libella), Sloterdijk expõe sua crença: poderíamos pensar em uma sociedade melhor, tendente ao fim do estado, imaginando um sistema bem paulatino de substituição de impostos estatais por doações livremente direcionadas. Os mais ricos, que seriam responsáveis pelo estado de bem estar social ocidental (welfare state keynesiano), não teriam então que ser obrigados a pagarem impostos no sentido em que são hoje. Eles seriam reeducados, digamos assim, por meio de um longo período, no sentido de se verem desonerados de um lado e solicitados por outro, ou seja, solicitados por mecanismos de doações de suas escolhas com alvos também determinados.

RNNa base filosófica da ideia de Sloterdijk está sua compreensão de que as energias psicossociais timóticas deveriam ser resgatadas, de modo a se colocarem como mais harmônicas ao se agruparem às energias eróticas. Na linha de consideração dessas forças platônicas, Sloterdijk estaria querendo que as energias de fomento do orgulho e da identidade, frutos da ira, pudessem se sobrepor às energias da cobiça, da apropriação e do gozo, frutos do amor erótico.

Assim, Sloterdijk se coloca, ao menos à primeira vista, de um modo ainda mais utópico que Nozick. Este, ao menos previa um sistema de desaparecimento do excesso de estado baseado na possibilidade dos serviços públicos serem substituídos por ações empresariais e individuais ainda visando lucro. Aquele, no entanto, a princípio, não vê um lucro direto para os mais ricos no mecanismo de substituir o que se recebe dos impostos pelo que se recebe da doação voluntária, ainda que tal lucro possa ocorrer indiretamente, uma vez que as doações possuem alvos de livre escolha de quem a faz.

Todavia, em termos de rigor da palavra “utopia”, é a proposta de Nozick que se mantém mais sobriamente agarrado a ela. Afinal, na sua forma de pensar, não há um caminho elaborado, paulatino ou não, para a desestatização. Nozick não foi o responsável pela ação dos economistas que quiseram trazer o paraíso do anarquismo não-socialista dos Céus à Terra, tomando como laboratório os reinos de Reagan e Thatcher.

PSOra, no caso de Sloterdijk, não é necessário nenhum economista e ele não está preocupado em falar ou não de utopia. Ele realmente está pensando em uma sociedade que, em termos de longo prazo, gostaria de substituir as energias eróticas pelas timóticas, para um melhor equilíbrio psicossocial e político. Desse modo, sua utopia, digamos assim, tem um caráter moderno, isto é, aquele no qual um projeto visionário não se põe irrealizável, mas vem junto com uma determinada estratégia de viabilização.

O projeto de Sloterdijk é mais louco que o de Nozick, se nós pensarmos na chamada “natureza humana”, tomada aqui antes como expressão que como noção metafísica. No entanto, sua loucura, perto do caráter irrealizável e, portanto, também louco de Nozick, pode se apresentar mais sadio. Aliás, tendo lá sua estratégia de realização, talvez com isso evite que economistas queiram realiza-lo. Pois economistas preferem viabilizar aquilo que os filósofos disseram que não era para ser viabilizado. O que os filósofos dizem que pode e deve ser realizado, então, eles deixam de lado.

Paulo Ghiraldelli, filósofo

Textos sobre o assunto:

História do debate Sloterdijk – Honneth: El caso Sloterdijk
Artigos do debate: Sloterdijk – Honneth: Political Theory Habermas-Rawls
Artigo de Sloterdijk em espanhol: La revolucion de la mano que da
Pesquisa da Folha: sobre questões de participação do estado e impostos
Artigo anterior: A inveja chega aos pensadores europeus
 

 

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7 Responses “As utopias de Nozick e Sloterdijk”

  1. Maximiliano Paim
    31/03/2015 at 12:33

    Tem a ver também com o bios theoretikos de Aristóteles?

    • 31/03/2015 at 13:10

      O que?

    • Maximiliano Paim
      31/03/2015 at 14:16

      Falha nossa. Entendi. Não tem. É Platão.

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Filósofo