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18/11/2017

As únicas duas forças progressistas: procuradores e mercado


Para os pensadores do século XIX e, de certo modo, também do XX, os trabalhadores ou “o povo” são condutores da história. Essa ideia percorreu muitos caminhos, chegou mesmo a constar da Carta-Testamento de Vargas. Acredita-se bem menos nela hoje em dia, no mundo todo. Mas, é claro, ninguém acha, na Europa e Estados Unidos, que não é população que, de certo modo, tem parte importante na força motriz do que pode vir de melhor. No Brasil, temos que abrir mão dessa ideia, ao menos como descrição da nossa situação. Estamos com os movimentos sociais arrefecidos, estamos com um povo que trabalha muito e que cansou de todo ano ir às ruas, além disso, nenhum dos nossos líderes políticos empolga, pois ou se tornaram vítimas de ideias caducas ou/e se meteram em banditismos de todo tipo. Além do mais, nossa tecnocracia governamental está desmantelada, quase que sobrevivendo de um homem só, o tal Meirelles-de-Todos-os-Santos. E nossos intelectuais, meu Deus, muitos ainda presos à figura bandoleira do Lula!

Sobra no Brasil hoje, como força progressista, os procuradores que mandam prender corruptos e o mercado que tende a modernizar relações. Se não temos os procuradores e juízes tipo Moro e Bretas, não conseguimos dar conta dos nossos políticos e empresários. Se não temos o mercado, corremos o risco de ver não a Rede Globo dando o tom, mas sim as inúmeras TVs que produzem o lixo evangélico, e também o infinito culto à desescolarização que tem criado olavetes e bolsonaretes adeptas da tese – pasmem – de que a Terra é plana e que os comunistas dominam o mundo. A burrice come solta nessa plantação crescente.

Dependemos hoje, em nosso país, desses dois únicos vetores de progressismo que nos sobraram: o mercado capitalista e os homens da lei ainda bem intencionados. Nunca imaginei que iria escrever isso um dia, embora eu soubesse, desde os anos oitenta, que chegaríamos a essa situação de esgotamento de propostas sociais, judicialização da política e império do mundo do shopping. Mas, confesso, não imaginava mesmo que um dia eu teria de ver que essa forças, que em geral associamos ao conservadorismo, nos dessem nossa única saída ainda progressista.

Contra leis arcaicas, dinheiro, caciquismo político e mandonismo, os procuradores da República, graças a uma melhor formação e bons salários, estão conseguindo atuar. Não à toa o procurador da República, no Paraná, Carlos Fernando dos Santos Lima, surge como uma das vozes mais lúcidas na política brasileira. Do outro lado, mas também colaborando para que não possamos sair fora do bonde civilizatório, está o nosso mercado consumidor. Mesmo retraído, ele ainda é bem grande, e nossa integração em mecanismos gerenciados por Bill Gates e por Mark Zurckerberg colabora com ele e, de certo modo, garantem para nós uma quase-alfabetização mínima. É o que restou, em um país onde a novidade do pensar e o pensar mais libertário não podem mais vir da escola, uma vez que esta não tem mais professores – o estado brasileiro se esqueceu de que no mundo todo a profissão de professor é profissão mesmo, não bico.

Poderia colocar aí uma terceira força progressista, a própria Rede Globo, especialmente com o seu Jornal Nacional. Ele se mantém acima da média, força o ouvinte a saber da política e a ver invenções laboratoriais que, no seu cotidiano, a população brasileira não entende, mas que ganha ao menos uma noção com a TV. As outras TVs fazem justamente o contrário, colaboram com o arcaísmo. Mas prefiro manter as duas forças progressistas iniciais, e jogar a Rede Globo para o interior do que podemos chamar de mídia associada ao desenvolvimento do mercado capitalista.

Não há mais com o que contar. É isso que temos, ao menos nesse momento, se quisermos pensar em grandes vetores que ainda nos empurram para um Brasil republicano moderno.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 26/08/2017

Foto acima: The Great Exhibition of 1852, Victoria & Albert Museum

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4 Responses “As únicas duas forças progressistas: procuradores e mercado”

  1. anderson garcia bezerra
    26/08/2017 at 15:52

    Depender do mercado e de procuradores como principais vetores do nosso progresso é o mesmo que condenar o Brasil ao ostracismo civilizatório. E ainda colocar a dona rede globo junto, já é o fim da picada. Vc já escreveu coisas melhores. A mudança e o verdadeiro progresso tem que surgir da base social historicamente excluída. Nunca, jamais, das oligarquias dominantes.
    Ou seja, o grito libertário que ecoa do liberalismo político rousseauniano: soberania popular!

    • 26/08/2017 at 17:35

      Anderson tudo que escrevo é bom, mas é sempre para gente inteligente.

    • Matheus
      26/08/2017 at 23:42

      Vc não percebeu o tom de pesar com o qual o Paulo teve de afirmar isso?

      Ngm queria que chegássemos onde chegamos, mas um adendo termos gente do direito – que muitas vezes pensa à direita e só, esquecendo que o cérebro tem dois lados (rsrs) – sendo progressista e nisso podemos incluir até a Carmen Lucia no STF, e alguns outros bons nomes até nos dá um alívio. E como bem disse o Paulo, não é questão de virtude individual, é de gente estudada mesmo, ainda bem! Há algum sopro de esperança

    • 26/08/2017 at 23:46

      Matheus, obrigado pelo entendimento!

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