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01/05/2017

As mulheres e os bichas: réquiem para o belo mundo


O mundo moderno e sua mania de funcionalidade. Uma história de transição. 

A senhorinha japonesa comentou comigo, logo de manhã na saída do condomínio: “há uma moça que se mudou para cá agora, para sair com o cachorro ela tem de segurar firme, e ele tem até focinheira”. A fala era a propósito do Pitoko, que não anda, mas desfila. Com a guia na boca ele acompanha meu passo, sempre muito educado. Ela quis saber a razão da diferença. Eu respondi: o Pitoko é um Golden, o da moça que a senhora está falando é um labrador. Eu ia falar mais, como faria a Fran: “o Golden é um cão de companhia”. Mas não disse, segui adiante. A Fran costuma dizer isso didaticamente. Pois a “explicação” pelas funções é uma que seguimos, mas que antes perde que ganha na composição de uma narrativa. Pitoko não é um cão de companhia. O Pitoko é o Pitoko, nosso filho. Filhos ditos como “de companhia” denotariam pais um pouco perturbados.

O mundo lido como um mundo em que tudo funciona é um mundo preparado por Deus para ser um grande motor. Em um motor cada peça funciona. Cada peça vive em função de fazer algo para outra e assim por diante. Somos nós humanos que criamos o motor e já o construímos sob essa ótica, a do funcionamento. Mas Deus, para Santo Tomás por exemplo, era antes artista que engenheiro. O mundo não está aí para funcionar. O mundo simplesmente está aí. Deus preza pela harmonia, não pela função. Vai pela beleza, não pela interdependência útil.

São Tomás leu Nietzsche! O mundo tem a ver com uma obra de arte, não com uma máquina de engrenagens. O certo é que ambos leram os gregos. Antes era o Caos e então contra isso se fez o Cosmos. O mundo não é o Universo. Não há unidade e sim organização para a harmonia. Não se busca no mundo funcionamentos. Nem nele nem em sua mobília. O mundo é contemplável e contemplado. Põe-se assim para si mesmo e quem quiser acompanha-lo que o faça como quem é artista.

Os gregos chegaram a falar em causa e efeito, é claro. Mas não traduziram isso, forçadamente, em funções. A palavra Caos quer dizer desarmonia, a palavra Cosmos quer dizer harmonia. Organização não para funcionar, mas para se mostrar harmônica. Organização não para que causa e efeito se resuma ao que é uma engrenagem, mas para que se faça o acabamento perfeito da obra de arte.

Maquiagem-Preta-Passo-a-Passo-Como-fazerDesse mundo grego que Santo Tomás e Nietzscche possuíam cultura para entender, nada restou. O homem moderno no máximo é um filisteu da cultura e nunca um homem culto e cultivado. Ou melhor, até há sobras, mas o próprio filisteu da cultura não presta atenção na linguagem e, por isso, na sua ignorância de texugo de pijama de bolinhas, não sabe que cosmético vem de Cosmos. Usa-se cosmético para harmonizar um rosto. A beleza que se vê em um rosto em que o cosmético foi bem aplicado, ou seja, ganhou mãos de artista, não é outra coisa senão a organização que os elementos do rosto ganham no conjunto.

Os gregos puderam viver em clima estetizante. Nós modernos já até tiramos tudo que é estético do currículo escolar, de tanto que nossa sensibilidade se perdeu. O que não funciona, não deve ter lugar na educação.

É claro que a estética não pode ser descartada sem um preço. Então, a beleza empurrada com os pés porta afora, pula janela adentro sorrateiramente. Pegamos a nós mesmos, então, admirando funcionamentos. Máquinas começam a ficar belas.

Marx viu nisso algo próprio de uma ideologia, ou melhor, da ideologia par excellence. O mundo produzido em uma sociedade de mercado seria o mundo da inversão entre homens e coisas. Reificação e fetichismo. No meu jargão, e não no de Marx: o que funciona adquire beleza sobre tudo o mais e a estética é completamente subvertida. Não deixa de existir o sentimento estético, mas se põe exatamente pelo seu contrário. Os objetos mortos, o maquinário e o funcionador é o que nos dá, na contramão, a ideia de harmonia – por ser a única coisa de organização que restou ao nosso conhecimento – repousa no que é capaz de falar em causa e efeito única e exclusivamente pela via do funcionamento. Uma máquina que não funciona, mas que se movimenta, é entendida como “engenhoca”. Coisa de engenho, de engenharia, de engenheiro, porém deteriorada por uma mente que não sabe que máquinas, mais que tudo, funcionam. Disney (mais até que Chaplin) soube mostrar o mundo moderno, o “mundo capitalista”, sob o seu lado tragicômico. Quantas e quantas engenhocas não fez o Pato Donald, seguindo aqueles manuais tipicamente americanos de “faça você mesmo!”.

maquiagem1Esse mundo de engenheiros, engenhos e engenhocas faz com que comecemos a achar belo tudo que vem da máquina, e até o humor nosso muda. Vamos rir da máquina. A engenhoca é digna de riso. Ou seja, o que não funciona ou funciona falsamente é engraçado. Homossexuais ficam engraçados, pois são homens que não funcionam como homens, ou seja, como o que tem de funcionar reproduzindo. Uma mulher que solta um pum tocando piano, sem saber que o namorado que espera já está atrás, se torna engraçada, porque mostra o seu péssimo funcionamento ao estar solitária – todos a imaginam no quarto, já velha e gorda peidando após 20 anos casamento. O homem banguelo se torna engraçado, pois quer funcionar com os dentes e não pode mais. O broxa e o corno não são as figuras engraçadas máximas? Não é o inusitado que causa o riso em uma sociedade moderna, mas o inusitado que mostra o não funcionamento e em troca o falso funcionamento. A engenhoca aparece para derrotar o engenho e então faz rir. Não podemos mais rir de felicidade, somente de erros. O erro não é o caos e que tem como contraponto o cosmos, o erro é então a disfunção ou falsa função.

Nietzsche quebrou com tudo isso quando no lugar das forças de conservação e autoconservação inventou de dizer que iria colocar como arkhé, como princípio, algo que não tivesse nenhuma funcionalidade: vontade de potência, um querer que não quer nada a não ser querer mais! Ninguém se põe no mundo para viver segundo a razão, o logos, o metrom, mas apenas para viver. Viver é querer? Não, isso seria uma babaquice de Schopenhauer, um velho caduco fechado a organicismos e funções. Até sexo para esse Cabelo-espetado tinha de ter um função! Ah, como Kant nunca morre! Nada disso com Nietzsche. Vida é vontade de potência. Nadinha de autopreservação!

O preço que pagamos por tudo isso, ou seja, por chegar a ter de ver Nietzsche contando essa história para que pudéssemos nos ver com os últimos homens, está estampado na história da arte. A arte imitava o mundo. Se o mundo era contemplável e contemplado, a arte também era isso. O belo estava ali como Cosmos, como harmonia feita pelos homens assim como se fez natureza. Quando o Deus judaico-cristão fez o belo ser seu mundo e, enfim, Ele mesmo, exigindo do homem educado por Platão a contemplação e a admiração voltada para sua própria Luz, a arte se tornou religiosa em sentido bíblico. Quando esses dois mundos, o dos gregos e o dos cristãos, sucumbiram à lógica do funcionamento, o belo perdeu referência e então a obra de arte foi redefinida. Não se trata mais de ver na obra de arte o belo, mas de defina-la a partir dos critérios da política. A pergunta então é a seguinte, tipicamente filisteia: vai para a galeria, segundo os curadores e os ricos do momento? Sim, vai! Então é arte. Um grego ou um padre da Igreja cuspiriam nesse critério do modo que podemos cuspir no “funk ostentação” (mas não como Adorno cuspiu ao ficar sabendo dos Beatles).

Belo? Onde? Não sabemos onde olhar se alguém nos diz “belo”.

Estamos tão longe de entender o que as mulheres fazem ao se maquiar que nós, homens, estamos perdendo nossas mulheres para as mulheres. Não que elas sejam menos funcionais, que tenham a mentalidade já deformada pela obsessão pela funcionalidade, mas é que, por força da inércia, elas ainda procuram o harmônico. A maquiagem de rosto, que só o não-homem consegue fazer, ou seja, a bicha cabeleireira, é o restinho do mundo que apreciava a beleza, a harmonia, o Cosmos enfim. Trata-se do mundo não funcional dos deuses e, depois, de Deus. Os homossexuais preservaram esse dom das divindades, de modo a oferecê-lo para as mulheres. Um mundo nosso, então, tão aberto a tudo, tão liberal, é na verdade um mundo que contém outro, aquele fechado onde só cabe viados e fêmeas. Nós, os engenheiros funcionais, podemos dominar o mundo, mas de que adianta isso se nem sabemos o que é belo e, se soubéssemos, iríamos perguntar “para que serve?”.

As mulheres poderiam rir ao nos deixar cornos. Mas elas têm a discrição de fazer isso sem alarde. Ao ficarem maquiadas adentram o resto do Cosmos, do não-Universo, então aprendem que rir do corno ainda é ceder à funcionalidade. O corno é o que não funciona como marido. Mas, maquiada, envolta na ordem do cosmético, herdeiro do Cosmos, a mulher não vai cometer o pecado de rir de algo que está tão preso ao funcional. Ao menos nesse momento, ela volta ao mundo antigo.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

Engenhoca para servir vinho: Aqui veja!

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8 Responses “As mulheres e os bichas: réquiem para o belo mundo”

  1. Julio E. Assunção
    12/03/2014 at 11:15

    Gostei do texto, a questão da arte pela arte remete aos monologos de Nietzsche de boa forma, mas assim como percebi em outro texto, de certa forma estás a nega a beleza da utilidade ou na nova utilidade. Eu particularmente, e sujeito a mudança de opinião, acredito que arte pela arte, até no seu cosmético/cosmos é de idealização.
    A utilidade pode servir de fonte de motivação à arte, a criação em si é uma arte, a reinvenção é uma arte maior ainda. Assim, a maquiagem como meio de chamar a atenção é uma arte, e a maquiagem teatral, que consegue até “mudar” a pessoa, do homem gay a “bicha” e do ator ao “personagem”, é uma arte maior ainda e de “utilidade maior”.
    Assim como a engenhoca com nova utilidade torna-se de maior harmonia. A utilidade, quando bem pensada, junto com a praticidade pode sim criar coisas harmonicas.

  2. Roberto William
    10/03/2014 at 22:26

    Paulo, você disse:”O que não funciona, não deve ter lugar na educação.” Deve ser por isso que a filosofia foi tirada das grades escolares e até hoje não é muito valorizada! Ninguém sabe pra que ela serve.

    • 10/03/2014 at 22:59

      A filosofia está nas grades. Mas as disciplinas artísticas estão em desprestígio total.

  3. Diego
    09/03/2014 at 17:25

    Nós somos uma espécie de Pococurante, só que acrescidos de um filisteísmo atroz.

    O belo não mais como um gozo (seria mais ou menos isso Paulo?), mas sim como algo que possui uma função.

    • 09/03/2014 at 21:33

      Bem, o exemplo do cosmos e do cosmético deveria ajudar, Diego.

  4. Helô
    09/03/2014 at 14:12

    O belo seria a harmonia pela harmonia e nós temos a harmonia pela função. O que exatamente perdemos nessa inversão? Afinal a harmonia tem a sua função, mas me parece que a questão está na forma como a produzimos.

    • 09/03/2014 at 16:47

      HelÔ, foi bom você escrever isso. Deu exemplo claro de estar imersa no mundo da funcionalidade.

    • 09/03/2014 at 22:36

      Helô, nós perdemos a própria beleza, ao privilegiarmos a funcionalidade. Perdemos a ideia de que produzimos harmonia a partir do desarmônico, e buscamos beleza inicialmente, não funcionalidade.

      Este estado de coisas pode ser chamado de modernidade, e era contra isso que Nietzsche se insurgia.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo