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20/07/2017

As cabras não céticas de Santo Agostinho


Há filósofos profundamente mal-humorados, como Heráclito. Há outros, como Sade, que preferem perder o amigo que a piada. Mas há também os que jamais deixam de ser filosoficamente rigorosos quando se aliam ao bom-humor. Santo Agostinho é desse time. Entre outros adversários, os Acadêmicos foram seus alvos preferidos durante um bom tempo. Contra eles, Agostinho nunca desperdiçou a oportunidade de usar de boa dose de jocosidade.

Quem eram os Acadêmicos? Eram os céticos da Academia platônica, então reorientada pelas mãos de Arcesilau, que dirigiu a escola mais ou menos cem anos após Speusippus ter substituído o próprio Platão. Agostinho, quase quinhentos anos depois, tomou contato com essa literatura por meio do romano Cícero. Chegou a aderir ao programa cético, vendo neles um brilhantismo que, enfim, não poderia deixar de conquistar uma mente inteligente como a de Agostinho. Mas, seguindo o ímpeto que foi uma sua característica, não tardou em discordar dessa corrente e, então, tornar-se um de seus melhores e mais agudos críticos.

Contra a dúvida radical e de maior amplitude dos céticos, Agostinho postulou uma fórmula curiosa. Essa fórmula, conhecida como “definição de Zênon” (o de Cítio, não o de Eleia), foi utilizada por Agostinho de diversas maneiras, mas sua formulação mais incisiva e, ao mesmo tempo, mais interessante, é a seguinte: “Zenon diz que uma aparição pode ser apreendida como real se ela se apresentar de tal modo que não possa parecer uma falsidade” (Contra os Acadêmicos, livro III). Ora, mas que tipo de afirmação é esta? E que poder se imagina ter com algo assim em mãos, contra o ceticismo?

Aos olhos não treinados filosoficamente, a “definição de Zênon” soa como um zero à esquerda contra a dúvida cética. A dúvida cética diz respeito à nossa possibilidade de conhecimento, afinal, talvez não possamos conhecer coisa alguma; e a “definição de Zênon” está centrada na tese do “aparecer” e do “parecer”. Por que temos de achar que algo que aparece para nós e que nos vem de um modo que não pode parecer uma falsidade não seja uma falsidade? Estamos acostumados a pensar em situações em que aquilo que aparece para nós e que, de fato, aparece de um modo que não pode nos parecer falsidade, ainda assim pode ser falso. E podemos constatar isso, quando vemos que o que nos aparecia não era o que nos parecia, ao sairmos de uma situação em que estávamos, por exemplo, drogados ou presos na Caverna Platônica ou na Matrix. Então, que tipo de argumento é esse?

Agostinho tem de mostrar, contra o cético, é que algum conhecimento é possível. Assim, de início, ele coloca a própria “definição de Zênon” sob o tacão de si mesma. Ela, a “definição de Zênon”, que se apresenta a nós como se apresenta, se apresenta de um modo que não pode parecer uma falsidade? Ora, para sermos rigorosos temos de dizer que ela tanto pode ser falsa quanto verdadeira. Então, se ela pode ser ou falsa ou verdadeira, já demos um passo importante. Não sabemos se ela é falsa ou se ela é verdadeira, mas podemos saber e, enfim, já sabemos uma coisa: ela é falsa ou verdadeira. Então, temos um conhecimento: a “definição de Zênon” é falsa ou verdadeira. Isso nós sabemos. O cético que disse que não podemos conhecer coisa alguma deve abaixar a cabeça diante de nós que, enfim, sabemos ao menos uma coisa, esta: a “definição de Zênon” é falsa ou verdadeira.

Mas, temos mais coisa a oferecer que isso. Chamamos de S o enunciado “A ‘definição de Zênon’ é falsa ou verdadeira”. Ora, S é uma verdade lógica e, sendo assim, não se pode se apresentar como falsa. S é o tipo de enunciado que, inclusive, uma vez submetido à regra de “definição de Zênon”, a satisfaz plenamente: S deve ser tomado como verdade uma vez que do modo como aparece (como verdade lógica) não pode parecer falsa.

O que Agostinho tira disso é que a melhor regra é aquela que nos diz para concordar somente com aquilo sobre o qual se está convencido “de que é o que lhe parece ser”. Então, diz Agostinho, se estou diante de folhas de oliveira, aquelas que as cabras tanto gostam, e eu mastigo tais folhas, elas me parecem amargas. Ora, se encontro algum Acadêmico que quer saber se tais folhas são amargas por si mesmas, só posso retrucar de um modo: “Ó homem presunçoso! A própria cabra tem mais modéstia! Ignoro como essas folhas serão para os animais, mas são bem amargas para mim. O que mais quer saber?” (Contra os Acadêmicos, livro III).

Assim, Agostinho advogou que podia dar mais respostas ao cético do que este poderia acreditar, à primeira vista, ser possível. Poder-se-ia crer nas verdades matemáticas e lógicas e, enfim, no mundo fenomenal, ou seja, aquilo que nos aparece de um modo que não podia parecer falso. Com isso, todas as frases do tipo “Eu sei que isso me parece X”, que formariam um conjunto muito grande de frases, indicariam conhecimentos inegáveis. Como então não dizer que não posso conhecer muitas coisas?

© 2011/2017 Ghiraldelli

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2 Responses “As cabras não céticas de Santo Agostinho”

  1. 03/07/2017 at 10:45

    Entre o ceticismo e o dogmatismo, inclino-me mais a apoiar o primeiro do que o último. Já li uma obra introdutória a respeito do cetiscimo, “O que é ceticismo”, do professor Oswaldo Porchat, da editora Brasiliense. Muito bom. Recomendo aos interessados.

  2. 02/07/2017 at 23:03

    Paulo, por falar em ceticismo e céticos, você já visitou o site ceticismo.net? É excelente.

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