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24/06/2017

Artigo da Folha de S. Paulo: Novas bases para uma sociedade generosa


Nietzsche disse que Deus morreu, ou seja, que o absoluto metafísico não era mais do interesse de gente séria. Mas não se deu conta de que a divindade intocável da modernidade nada é senão o Fisco. Todas as propostas sobre tudo que se pode mudar na Terra não tocam no imposto. Ou se arranca do homem à força algum dinheiro que deve ir para o Estado ou não se tem sociedade. Eis o dogma de uma religião com legitimidade de pés de barro.

Na quarta (5), pelo projeto Fronteiras do Pensamento, o Brasil vai receber o único filósofo contemporâneo que tem a coragem de fustigar esse dogma, sem vínculo com qualquer tipo de conservadorismo. O filósofo alemão Peter Sloterdijk defende uma mudança de mentalidade que possa gerar uma “sociedade generosa”, aquela na qual o Estado social-democrata que adora taxar possa até estar presente, mas sem dar as cartas para o clima social em geral, que funcionaria pela ênfase na doação e no patrocínio, em um mecenato de cuidado.

Sloterdijk está longe de defender qualquer tipo de “privatização” ou “socialismo feito por capitalistas e doadores”. Sua proposta básica é olharmos para o que já fazemos em termos de trabalho voluntário, doação de dinheiro, tempo e criatividade em inúmeros projetos louváveis, o que não é pouco no mundo, e caminharmos no sentido de incentivar tal atividade e ampliá-la.

Esse tipo de coisa criaria o que ele chama de “dinheiro inteligente”, o oposto do Fisco que, sabemos, arrecada e joga para políticos a tarefa de antes desperdiçar que empregar dinheiro naquilo que queremos.

O filósofo nos conta que a Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, fez um cálculo mostrando que, em 2008, os americanos gastaram US$ 307,7 bilhões em caridade, dentro de suas obrigações fiscais. Só uma pequena parte disso era obrigação restituível.

Esse dinheiro “endereçado”, diz ele, é aquele que vai para a vida cultural e social que realmente se deseja. Uma sociedade assim pode equacionar melhor um grave problema atual, o da distância entre a população e a política.

Sloterdijk não diz tudo isso como uma ideia tirada da cartola. Ao contrário, ele tem revolucionado a descrição de nós mesmos a partir de sua antropologia e psicologia.

O desenho do homem feito pela psicologia moderna nos reduz a uma disputa entre razão e paixão. A fúria por reconhecimento e nosso ímpeto na busca de identidade orgulhosa no que criamos fica sem lugar na alma humana moderna.

Sloterdijk propõe um desenho do homem a partir da psicologia antiga. É necessário um lugar positivo para um terceiro componente da alma, o thymos, o lugar da autoestima, da dignidade e do reconhecimento. Forças eróticas querem as coisas para suprir carências. Forças timóticas não querem pegar as coisas para acalmar desejos, pois são antes de tudo forças doadoras e, portanto, realizadoras.

Uma sociedade como a nossa pode recuperar as forças timóticas em detrimento das eróticas e gerar um grande incentivo a uma vida generosa.

PAULO GHIRALDELLI JR., 59, professor aposentado de história da filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, é autor de “Para Ler Peter Sloterdijk” (ed. Via Vérita), entre outros.

Folha de São Paulo, 03/10/2016 02h00

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4 Responses “Artigo da Folha de S. Paulo: Novas bases para uma sociedade generosa”

  1. Kênio
    01/12/2016 at 22:50

    Boa noite,

    Eu li este seu artigo acima e vi também o seu vídeo sobre o mesmo assunto no youtube. Foi muito esclarecedor.

    Achei incrível a ideia da sociedade de fisco voluntário na sociedade generosa, e a necessidade de uma nova psicologia baseada no thymos, como vc bem explicou.

    Parece-me contudo que isto não será algo difícil de ocorrer, pois a população em geral é… generosa. E esta bondade, não é só inata, mas cultural e gerada pelas suas bases cristãs e não necessariamente socialistas — como a do povo americano, que doa tanto.

    Assim, penso que há muito mais em comum entre as ideias deste filósofo (Peter Sloterdijk) e pessoas com ideias conservadoras (não reacionárias!). Estou lendo um livro Scruton (“As vantagens do pessimismo”), em que ele discorre em cada capítulo sobre certas falácias, como uma que você mencionou no vídeo (ela a chama Falácia da Soma Zero).

    Outra coisa, abusando da sua paciência, eu comecei a ler também a Crítica da Razão Cínica graças a seus artigos neste site, mas me pergunto onde este livro se encaixa neste pensamento de sociedade generosa? Abraços.

    • 02/12/2016 at 00:51

      Sloterdijk é justamente o oposto do conservadorismo. E você absorveu Sloterdijk de modo errado, mesmo eu avisando. A tese de Sloterdijk é toda ela gerada pela ideia de abundância, o conservadorismo liberal é todo ele gerado pela economia, pela não abundância. Scruton, então, nem pensar. Cuidado. Sobre Crítica da Razão Cínica, ele é de uma fase inicial.

  2. Ismael
    08/11/2016 at 12:26

    Prof. Paulo, não encontro no site da editora (Via Vérita) seu livro introdutório à Sloterdijk. Ainda não está em catálogo?

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