Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

22/07/2017

Convencer e entender, conhecer e significar – Hannah Arendt


Em uma entrevista na Alemanha, Hannah Arendt diz que os homens usam narrativas para convencer, que isso se trata de um comportamento masculino, enquanto que ela sempre usou das narrativas para entender.

Arendt nunca fez discursos feministas de qualquer tipo e, portanto, que não se entenda uma frase assim como uma “queda”. Ela conta que escreve para fixar o pensamento e, então, auxiliar a memória para poder pensar mais e adiante. Isso poderia não ser tão importante em outro filósofo, mas, saído da boca de Arendt, que fez questão de colocar o não-pensamento como essencial para a efetivação da “banalidade do mal”, merece uma reflexão.

A distinção aqui é, portanto, bem diferente daquela que esteve na moda nos anos oitenta em meios da filosofia, em especial da filosofia da educação no Brasil, entre vencer e convencer. O evocado aqui é convencer versus entender.

Não raro supomos que alguém que, sendo filósofo e, portanto, sendo sincero consigo mesmo, quer convencer outro a respeito de enunciados feitos a partir de um ponto de vista próprio ou aceito por si mesmo. Sendo assim, do que se quer convencer, sabe-se o que é necessário saber. Ou seja: há um entendimento claro do que se está falando, e o que se está falando é a tese proposta e também o argumento para o convencimento. Um filósofo, isto é, um não sofista, não tentaria convencer alguém daquilo que não entende e que não pode acreditar por meio da razão. Todavia, sabemos bem, todos nós, filósofos ou não, temos atitudes bem diferentes quanto a convencer e entender.

No trabalho de convencimento a narrativa posta tem uma direção: o que me ouve. Na atividade de entendimento, a narrativa não tem nenhuma direção exterior, ela é um patamar para si mesma, de modo que se possa fixar um ponto para se passar a outro no decorrer da investigação. Convencer é trazer o outro para uma posição nova. Entender é trazer a si mesmo para uma posição nova. Convencer demanda uma narrativa que se parece a um anzol enquanto que entender demanda uma narrativa em forma de escada. O anzol puxa e a escada eleva. O anzol é para prender e arrastar enquanto que a escada é para proporcionar a subida (e a descida). Em geral o anzol nós usamos com as mãos enquanto que a escada com os pés. Vergamos a coluna ao puxar algo com o anzol, podemos ficar eretos ao subir a escada. Com o anzol se agarra alguma coisa, ou alguém, enquanto que com a escada se chega a algum lugar, onde pode já existir alguém.

Essas metáforas ajudam à distinção. Narrativas ditadas pelo autor para o entendimento próprio, como faz uma escritora como Hannah Arendt, devem ser diferentes de narrativas ditadas em função de um público. Mas, Hannah Arendt diz que também escreve para ser entendida, que quer ser entendida. Ou melhor, que quer que seu pensamento possa ser entendido exatamente como ele é. Aqui, pode se pensar que esse entendimento que se espera do outro está então quase que funcionando como convencimento. Mas não. Trata-se aí de uma preciosidade quanto à função intelectual. Pensar é tão importante para o pensador que deve merecer uma narrativa digna, aquela que permita a transmissão do que se pensa. É exatamente aí que está a figura de Sócrates, também lembrada a propósito disso, do pensamento, por Arendt, especialmente em A vida do espírito. Sócrates é o pensador par excellence. Ele não pensa em função de convencer, ele pensa no sentido de entender, ou melhor, compreender, isto é, obter o sentido do que vê e ouve e fala. Sócrates atua sem ensinar, sem ser professor, pois não quer convencer, mas quer poder entender. Nesse sentido, como Arendt enfatiza, Sócrates pensa e, então, está na linha de quem quer significados, não conhecimento. Pensar não é conhecer. Pensar como distinto do conhecimento é pensar no sentido do que é cabível à filosofia.

A ciência conhece e a ela cabe procurar a verdade, enquanto que a filosofia pensa e a ela cabe investigar o significado. Arendt defende essa distinção neokantiana, bem usada por Schlick, de modo enfático. A atividade cognitiva cabe ao senso comum e às ciências, mas a atividade do pensamento é própria da filosofia. A filosofia põe a razão em ação para que o visado ganhe seu sentido, seu significado, e então possa ser entendido, compreendido.  Muitos enunciados aos quais não cabe dizer se são verdadeiros ou falsos são perfeitamente inteligíveis, tem seu campo semântico delimitado e captado. Nesse âmbito, situa-se o filósofo. Pensando podemos avaliar o certo e o errado. Mas, conhecendo, nada fazemos que implique termos de avaliar o certo e o errado. Pensar é “parar para pensar”, é o que nos faz dizer que tomamos não só ciência, mas consciência. É refletir e, portanto, poder tentar voltar ao campo no qual ações em curso são interrompidas. Pois no próprio pensar as ações já são interrompidas. O próprio pensar, em certo sentido, já nos coloca fora de ação. Não raro, se interrompemos nossa ação, paramos a de vários outros.

Suspender-se no pensamento, como Sócrates fez, era já interromper o curso da ação, e então poder ter a ideia de que “é melhor sofrer o mal que perpetrá-lo”, pois para perpetrar o mal a primeira coisa que se faz é voltar ao cotidiano, à ação, e, então, deixar o pensamento. Nesse sentido o não pensamento pode ser sim a condição do mal, e pode-se dizer isso sem que seja necessário sequer atentar para o conteúdo do pensamento.

Desse modo, se voltamos ao primeiro parágrafo e olharmos agora aonde chegamos, podemos dizer que começamos com uma atividade cognitiva, o entender, para desembocar em uma atividade não cognitiva, o pensar. É assim mesmo que fazemos na filosofia. Entendemos e significamos. Entendemos ou compreendemos, melhor dizendo, quando significamos. Entendemos melhor se podemos atribuir ou captar mais significados.  A experiência do pensamento que, enfim, é a experiência filosófica, é alguma coisa que pode nos envolver e nos deixar por ela apaixonados. Mas, devemos confessar, não é uma experiência que as pessoas consigam usufruir com facilidade. A ordem masculina do querer convencer é dominadora e carrega a maioria com ela.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

Tags: , , ,

One Response “Convencer e entender, conhecer e significar – Hannah Arendt”

  1. Matheus Kortz
    07/08/2015 at 19:03

    Me apaixonei! Mas não pelo senhor professor! Rs

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *