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27/06/2017

Arendt e Sloterdijk: não durma com o inimigo


“Onde se está quando se está no mundo?” pergunta Peter Sloterdijk. “Onde se está quando se está pensando?” pergunta Hannah Arendt. Duas perguntas distintas, instigadas pelo mesmo filósofo: Heidegger. Mas, além disso, o que possuem em comum?

A resposta de Sloterdijk é que estamos no mundo ao procurarmos estar em esferas. A resposta de Arendt é que quando estamos pensando não estamos em lugar algum.

Ausentamo-nos para pensar. Deixamos a alma em favor de habitarmos o espírito. Procuramos seguir Platão e entender que filosofar é aprender a morrer, no sentido de nos livrarmos do que nos prende à terra para ficarmos somente no âmbito da atividade espiritual. Essa é a lição e Arendt. Com Sloterdijk, aprendemos que somos “designer de interiores”, que sempre queremos voltar “para dentro”, que procuramos manter ressonâncias que formam uma espécie de campo imunológico para vivermos. Há aí, entre ambos, um ponto comum.

O que Arendt e Sloterdijk estão dizendo é que uma coisa é estar sozinho, outra coisa é a solidão. A solidão praticamente inexiste. O lugar nenhum de Arendt e a esfera de Sloterdijk se encontram à medida que podem ser, em várias situações, o lugar de se ficar sozinho e, por isso mesmo, o único lugar que não se está em solidão. Quando se está sozinho, se se é filósofo ou ao menos alguém com possibilidades para tal, se está bem acompanhado de seu si-mesmo, de seu duplo e, portanto, da atividade da consciência que é a reflexão, o exercício do “dois-em-um”. Afinal ter consciência e ter um companheiro interno que é ao mesmo tempo nós mesmos e, no entanto, pode responder como um amigo externo, pois dá respostas novas, que não sabíamos.

Arendt encontra o dois-em-um pronto, como dado. Sloterdijk busca compreender a gênese do dois-em-um. Arendt analisa como que pensar, querer e julgar são sempre impregnados pela forma de atividade da consciência, que é o duplo, o dois-em-um. Sloterdijk formula uma teoria – sua micro-esferologia – para mostrar que o dois-em-um está presente, segundo uma “ontologia do dois”, já na primeira esfera, a esfera uterina. Ela é um espaço surrealista, em que aquilo que está dentro também recobre o dentro sendo ele próprio o fora. A pericoresis é a maneira pela qual dois podem ocupar o mesmo espaço. A pericoresis é a maneira que placenta e companheiro estão no útero, e também a maneira que, depois, o eu e o self estão no campo espiritual.

O que Arendt e Sloterdijk nos ensinam é que estamos sempre em companhia de nós mesmos, e somos duplos porque nunca fomos outra coisa. O individualismo solitário é ideologia liberal. Nossa verdade é que somos duplos (ou comunidades, como dizia Nietzsche). Sempre fomos. Por isso somos aqueles do cogito que é sempre um cogito me cogitare. Nunca estamos em solidão. E o filósofo menos ainda, porque faz do estar sozinho, a atividade da reflexão, um exercício quase constante – profissional.

Quando agrupamos Sloterdijk e Arendt, então entendemos o que Sócrates e Aristóteles queriam dizer a respeito de quanto sofremos ao ficarmos sozinhos se não somos bons, pois nesse caso teríamos de conviver com alguém não bom dentro de nós mesmos, ou seja, dormir com o inimigo.

Há pessoas que dormem com o inimigo. Elas são as que ganham o inferno na Terra.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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6 Responses “Arendt e Sloterdijk: não durma com o inimigo”

  1. Pedro de Faria
    23/06/2015 at 12:51

    Eu estava pensando aqui para comigo. A Arendt conhece o Heidegger por perspectivas que o Sloterdijk não tem do autor. Pois, você pôs Sócrates e Nietzsche como dois que não podem não se por a prova. O perspectivismo do Nietzshce funciona como o elenkhós socrático, no sentido de se por sempre a prova?

    • ghiraldelli
      23/06/2015 at 12:53

      O perspectivismo fornece narrativas, não necessariamente investigações. Sócrates fazia uma investigação, daí o método depender de refutações.

  2. Marcos Miller
    23/06/2015 at 10:59

    Pode-se falar numa fuga desse “universo singular” do eu? Quando penso na vida ativa do trabalho e no pouco tempo que as pessoas têm para essa consulta eu já vejo uma tentativa de driblá-la. Mas, penso que sempre existe uma noite penitente. Mas então, não estaríamos encorpados na estrutura ainda cristã de uma culpa? Erro ao pensar nisso?

    • ghiraldelli
      23/06/2015 at 11:54

      A discussão de Arendt é sobre nossa incapacidade de pensar, ou seja, de refletir, de levar a sério o pensamento que, definido por Platão, é a “conversa consigo mesmo” .Usamos de clichés, frases prontas, “macetes” para evitar isso.

  3. Emisson Santos
    22/06/2015 at 18:35

    olá paulo,eu queria emitir algumas indagações com base no texto à cima,na sua concepção filosófica,por que é muito difícil as pessoas conseguirem acha este “eu” intrínseco?este “eu” reflexivo dentro delas?e sempre precisam de acordo Sloterdijk e Arendt,dormir com o inimigo?ou seja achar outro ser,outro “eu” externo e de subjetividade desconhecida,quais são as motivações para tal situação?

    • ghiraldelli
      22/06/2015 at 18:50

      Se você é um criminoso e não pode ser orgulhar disso, seu duplo interno se torna não mais seu amigo, seu daimon, seu anjo da guarda, mas … quem? Um criminoso? Você vai dormir com ele?

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