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22/10/2017

Aquecimento global, apocalipse e mediocridade


O fim do mundo finalmente está no horizonte. Não se trata mais de narrativa religiosa, hipótese cosmológica longínqua ou obra da pseudociência de boteco. Trata-se de algo plausível produzido por cientista acadêmico, e o prognóstico é para este século.

O cientista James Lovelock diz que será o fim do mundo em um sentido específico: até terminar o século que estamos, as transformações serão de tal ordem que o que conhecemos hoje como mundo não se parecerá em nada com o que vamos ter amanhã, e isso não quanto ao aumento populacional, mas quanto ao rumo inverso. As catástrofes provocadas pelo chamado “aquecimento global” sufocarão os continentes, assim, ao terminar o século não seremos mais do que quinhentos milhões em um globo no qual a Europa e a América do Norte estarão com áreas enormes cobertas por um grande deserto.

Bem, o globo não é todo habitado mesmo. Convivemos com a Amazônia e com a Sibéria como lugares vazios. Portanto, nada de novo se olharmos para o nosso planeta, lá do espaço, e continuarmos a ver luzes concentradas em alguns lugares somente. O que será novo, mesmo, é que as mudanças não irão parar mais durante muito tempo, e elas não poderão mais ser evitadas, e as luzes que representamos hoje no mapa serão bem menos que as esperadas.

A tese de Lovelock é que já estamos em um processo de “aquecimento global” cujo “start” foi emitido, e que não pode mais ser evitado nem sequer amenizado. Tudo que fizermos daqui para diante, no sentido da diminuição da velocidade do processo, não evitará mais as catástrofes que virão inexoravelmente. Os tsunamis, o calor intenso e o frio pior ainda criarão falta de comida, doenças avassaladoras, migrações descontroladas e, enfim, desestabilizações políticas completamente loucas, com guerras que irão bem fácil para o velho corpo-a-corpo, com baionetas substituindo aviões. Iremos suportando tudo isso, pois não será do dia para a noite, mas no prazo de cem anos teremos perdido muita gente e estaremos com uma geografia e uma economia muito diferente do que a que temos hoje e muito distintas da que imaginávamos em nossas ficções ou otimistas ou excessivamente pessimistas.

De tudo isso, a ideia básica que é filosoficamente interessante a respeito das teses de Lovelock (cujo nome parece instigante!) é quanto à incapacidade de mudarmos algo, mesmo que tenhamos decisões políticas acertadas daqui para diante. Ou seja, não sabíamos que havia no mundo um botão de “on” sem um botão de “off”. O processo começou pelo que já fizemos, estamos nele, e ele não tem parada. Provocamos o cão monstruoso no qual vivíamos no dorso, e ele finalmente vai dar uma levantadinha e uma chacoalhada nos pelos, para jogar para fora um excesso de pulgas. Junto com as pulgas más irão as boas. Não há ninguém que possa dizer para o cão “behave yourself!” a essa altura do campeonato. Em outras palavras: fodeu!

Vai ser muito terrível tudo isso, mas ao mesmo tempo muito satisfatório (do ponto de vista de algum filósofo sádico) ver o quanto as doutrinas políticas nada poderão fazer em relação ao apocalipse e o quanto as ideologias todas cairão por terra diante da doutrina do cão Gaia e sua coceira. Duvido que a Internet desapareça e, portanto, manteremos nossa comunicabilidade, de modo que o espetáculo da destruição, vivido em cem anos, será bem notado por duas gerações que o acompanharão. A comunicabilidade, uma vez sendo executada, e por pessoas que não estarão longe umas das outras no tempo, irá fazer com que a “sensação de fim de mundo” realmente seja algo real entre a maioria das pessoas. Cem anos é quase a idade de uma vida individual!

Será horrível! Será algo que fará Nero virar na cova, por se sentir inferior, algo que perturbará para sempre os que jogaram as bombas no Japão, alguma coisa que tornará Hitler e Stalin figurinhas de álbum de criança, e possibilitará vermos o quão magnífico é a “energia mais limpa do mundo”, a dos reatores nucleares, vazar para todo o lado, contaminando milhares e queimando os neurônios e os órgãos genitais de outros milhares por conta de terremotos, maremotos e fogaréus jamais imaginados. A Terra vai virar tão do avesso que redescobriremos, enfim, a Atlântida, da qual Platão falava. Também ela, dizem alguns, foi engolida por um Tsunami.

Ninguém vai ter coragem de invocar Deus. Ele deixará claro a todos que não pode fazer nada contra a raiva da mãe natureza na pele do cão monstro. Deus baterá em retirada tendo sido anunciada sua morte por Nietzsche ou não.

Com todos esses problemas, acredite, haverá gente brigando por divórcio, reclamando com a pornografia e criticando quem faz piada na net. Por maiores que sejam as catástrofes do aquecimento global isso não tirará o homem de seu pequeno e medíocre cotidiano.

© 2014 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

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16 Responses “Aquecimento global, apocalipse e mediocridade”

  1. INGRID ERIKA BOER
    12/03/2014 at 19:08

    As perspectivas sombrias sobre o futuro imediato da terra são confirmadas pela ciência e pela Bíblia: “….a própria terra foi poluída sob os seus habitantes,… por isso a própria maldição consumiu a terra …. e restarem muito poucos homens mortais.” (Isaías 24:5,6). Mas, o Deus que criou a natureza não está morto! Ele não permitirá que sua obra seja abalada. “Ele fixou um dia em que se propôs julgar em justiça a terra habitada” (Atos 17:31). Ele colocará um basta e vai “arruinar os que arruínam a terra” (Apocalipse 11:18). Então chegarão “…. os tempos do restabelecimento de todas as coisas” (Atos 3:21).

  2. Maria Madalena
    18/02/2014 at 20:24
  3. Ricardo Couto Jr.
    12/02/2014 at 16:42

    Paulo, medíocre a sociedade sempre foi. Qual seja o futuro caótico que a futura geração enfrentará, a sociedade (que deveria ser denominada de bestiedade (me refiro a bestas feras mesmos)) terá sempre este comportamento animal.

    • 12/02/2014 at 18:08

      Ricardo, as bestas feras não foderam com o planeta, nem estão para fazê-lo.

    • Ricardo Couto Jr.
      12/02/2014 at 19:24

      Paulo, não tome as palavras sempre por sua literalidade. No sentido real as feras são terríveis… entretanto a “sociedade”, no sentido figurado, não passam de bestas feras, que por sua bestialidade destroem – hipoteticamente – o planeta aquecendo-o.

    • 12/02/2014 at 23:26

      Ricardo, eu havia entendido, apenas lembrei que a metáfora não funciona mais. O homem a inverteu.

  4. Tiago de Andrade
    07/02/2014 at 11:31

    A mediocridade é uma coisa quase que inabalável.

    • 07/02/2014 at 13:33

      Tiago, a mensagem era esta mesma, e o pior foi ver neguinho ler e começar a discutir aquecimento global. É foda cara!

  5. Saulo Almeid
    07/02/2014 at 00:52

    Esse Lovelock até já assumiu que foi longe demais com essa maluquice

    • 07/02/2014 at 11:01

      Saulo, felizmente eu não dou mais aula, assim não tenho que escutar mais esse tipo de comentário. O texto não é sobre Lovelock, e se é maluquice ou não, não é você quem pode dizer, nem eu, e pouco importa para o texto. Meu Deus, me ajude! Jesus, tire aluno da minha frente.

  6. noNato
    06/02/2014 at 13:55

    Antes disso, veremos o colapso do universo Jurídico diante dos olhos.

  7. Helô
    06/02/2014 at 13:32

    É bom manter o sinal de alerta ligado para quando catástrofes que até agora pareciam ser somente em lugares distantes começarem a bater na nossa porta. Perguntas como “o que é a vida e o que é importante nela”, perguntas que realmente importam, e que nos dias de hoje é um insulto, devem voltar a serem feitas.

  8. Antonio
    06/02/2014 at 10:36

    progressão geométrica de energúmenos

  9. Valmi Pessanha Pacheco
    06/02/2014 at 10:35

    Nada como uma velha escatologia para satisfazer os anseios mais recônditos dos cientistas do “aquecimento global” : donatários da verdade, finalmente desvelada. Imagina se eles já existissem no Cambriano? Com teria sido no “resfriamento global”?

    • 06/02/2014 at 11:40

      Valmi, “aquecimento global” é para ser estudado, o que você quer é ter uma verdade acima das verdades dos outros.

  10. Nédi
    06/02/2014 at 09:53

    Incrível, o mundo “acaba” e o ser humano não sai do seu mundinho.
    Paulo, tem outros cientistas afirmando que não vai ficar quente, mas vai esfriar muito. Uma Nova era glacial começando neste ano. Bom, de um jeito ou de outro, o “cão” vai coçar as “pulgas”. http://climatologiageografica.org/polemica-cientistas-russos-alertam-nova-era-glacial-chegara-em-2014/

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