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29/05/2017

O que é a filosofia após o fim da filosofia?


Quando o personagem louco de Nietzsche declarou “Deus está morto”, muita coisa mais havia morrido. A busca pelo absoluto não interessava ninguém mais a não ser os físicos, que então acreditavam – como acreditam ainda – poder encontra-lo exatamente no pior lugar para se procurar, que é o mundo terreno, material e mutável. A filosofia como metafísica estava declaradamente defunta uma vez que na sequência de “Deus está morto” também veio o desaparecimento do “mundo real” e, dessa forma, também o “mundo aparente”. Dualidade e Absoluto se despediram dos terráqueos e, então, o que se deveria fazer com a narrativa filosófica? Não teria ela, como tantas outras, de se recolher ao museu das grandes orações tornadas supérfluas?

De certo modo, foi isso mesmo que ocorreu. Tanto é verdade que o filósofo deixou de ter importância e foi substituído por enunciadores de outras narrativas. Seu posto na universidade moderna perdeu prestígio. No entanto, o século XX não produziu grandes filósofos? Efetivamente os teve, mas em parte foi por força da inércia. O que fazemos nós, filósofos que sobramos? É possível dizer que nós filósofos, a sobra, lutamos para dizer que somos necessários, e não como relíquias em zoológicos, prontas para o amendoim diário jogado por gente rica que finge nos dar importância. O que temos feito na labuta diária para mostrar que nossa narrativa pode ser lida com algum proveito, ainda que um proveito inútil para os fins da utilidade do mundo contemporâneo? Em outras palavras: o que é a filosofia após a morte da filosofia?

Uma boa parte da filosofia contemporânea procurou se salvar criando uma narrativa crítica em relação ao projeto filosófico tomado como filosofia. Desse modo, a filosofia após a filosofia teria se transformado, toda ela, em um muro de mea culpa. O manual é simples: começa-se contando que Nietzsche disse “Deus está morto” e, em seguida, se explica de mil maneiras a morte de coisas importantes, inclusive Deus, e a falência da filosofia, ou seja, o fim do platonismo. Todavia, também esse projeto se esgotou. O que fazemos nós, hoje, filósofos?

Uma boa parte dos filósofos gasta uma vida em sua própria formação. Os estudantes fazem a graduação, aprendem línguas, aprendem história da filosofia. Fazem mestrado e doutorado e aprendem a pesquisa em filosofia. Então, quando começam a filosofar, ganham encargos burocráticos na universidade e, para a felicidade própria, não têm que filosofar. Forma-se para não exercer o trabalho para o qual se formou. Mas isso é um alívio, afinal, como iriam filosofar após a morte da filosofia? Uma outra parte dá aulas, repetem como bons scholars a sua leitura do filósofo do tempo que a filosofia era viva. Uma terceira parte quer fazer filosofia. Essa terceira parte é maluca. Como exercer uma atividade que não existe?

A ideia básica dessa filosofia após a morte da filosofia é criar narrativas sobre o mundo que se mostrem necessárias, e que não são possíveis de serem produzidas pela ciência, e que não cabem ser pensadas pela religião e pela literatura ficcional.

No meu caso, tenho estado particularmente interessado em encontrar uma narrativa que possa nos dizer do que falamos quando falamos da subjetividade humana. Não como fundamento, é claro, mas como uma instância que permanece em nossos vocabulários, e que não parece que deva ser descrita somente pela narrativa da Psicologia ou da Filosofia da Mente cientificizada ou da Linguística ou e similares. Parece-me que se encontro uma tal narrativa, também encontro narrativas adjacentes de descrição do mundo. Desse modo, tenho ido da atividade filosófica de Rorty, que é a de um árbitro da cultura, para a de Davidson, que é de um criador descritivo de uma ontologia desinflacionada a respeito das funções humanas de ação e interpretação. Mas não fico nisso. Vou às narrativas de caráter ontológico que notem a subjetividade de um modo ainda mais amplo. Algo que implique no entendimento da subjetividade no contexto da história das ideias e nos vários modos que a vemos e falamos dela no presente. Nesse sentido é que Peter Sloterdijk me parece então interessante, como fonte inspiradora, na minha jornada. Ele busca uma narrativa para a subjetividade, para além de Hegel e dos frankfurtianos, e a partir e contra Heidegger, tomando uma narrativa sobre a intimidade, e esta ele investiga na função de arqueólogo. Ele visa construir com parte de sua “teoria das esferas” uma narrativa a partir da “arqueologia da intimidade”.

Para mim, esse passo implica em estar fazendo filosofia após a morte a filosofia

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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10 Responses “O que é a filosofia após o fim da filosofia?”

  1. Marco Antonio Coelho de Moraes
    27/03/2015 at 19:38

    Bom dia.
    Fala-se sobre o fim da Filosofia, porém acredito que o fenômeno do raciocínio é que não exista. essa foi a falácia máxima. Trata-se de mimetismo, como fazem as crianças enquanto aprendem ou captam ou repetem. A deusa Razão é também inexistente. Parece-me que tudo se limita à espantosa velocidade com que os nossas informações zunem e ‘viajam’ pelos neurônio forçando nossa estrutura biológica a repetir padrões e articular associações, mas não de ideias, mas sim de vivência biológicas, imediatamente auferidas pelo corpo. É como andar sempre na mesma rua e repetir sempre os mesmo movimentos saindo daí uma articulação qualquer. Quem for mais rápido terá a ‘ideia’ primeiro que o outro. Se tiver nascido antes, tanto melhor.
    Somos hard drives alimentados por dados externos e como não se pensa muita coisa ao mesmo tempo, mas apenas uma de cada vez, impressiona-nos que estamos a pensar e estamos apenas a reagir aos dados. Reagimos sempre da mesma maneira. As alterações são sutis. Reagimos de acordo com a necessidade e a repetição, elementos necessários para a sobrevivência do corpo biológico. Como qualquer ser vivo – planta animal vírus – somente operamos pela objetividade.

    • 27/03/2015 at 23:01

      Coelho acho que você não leu meu artigo. O fim da filosofia tá bem explicado no texto. O texto foi feito para quem não é da filosofia. Leia novamente e verá.

  2. 26/03/2015 at 14:10

    O fim de qual “filosofia” você está falando, Paulo? Só nós filósofos mesmo para dar umas “viajadas” dessas…Beleza! Viva o “fim da filosofia” e o renascimento do filosofar!

    • 26/03/2015 at 17:04

      Chico, como assim, de qual? Qualquer uma, todas, a filosofia. O texto é tão claro quanto isso.

  3. Ronaldo
    24/03/2015 at 20:21

    E essa filosofia pós-apocalíptica? Seria ela cada vez mais fundamentada em cima de discursos vazios e tendeciosos?

    • 24/03/2015 at 20:28

      Ronaldo não sei do que fala.

    • Ronaldo
      24/03/2015 at 20:36

      Me refiro a essa filosofia após o fim da filosofia, ela ainda pode ser levada a sério?

    • 24/03/2015 at 22:32

      Ronaldo a filosofia após o fim da filosofia é isso que eu escrevi.

  4. Maximiliano Paim
    24/03/2015 at 19:18

    Me atrai os pensadores que a Scarlett Marton chamou de rebeldes, Foucault, Deleuze e Derrida. Vejo um solo fértil nos pensamentos deles. O que dizes, professor?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo