Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/05/2017

Aos gordos eu apresento Gattaca


Há seis anos que Bruna Giorjiani de Arruda leciona sociologia na rede estadual paulista de ensino. A hora-aula gira em torno de nove reais. Ninguém trabalha por tão pouco, menos ainda quando se tem um cérebro! Bruna é uma das últimas abnegadas. Talvez por ter só 28 anos, consegue mostrar-se motivada. Nesse tempo todo em que trabalhou teve apenas uma única falta. Foi no dia em que seu pai faleceu.

Bruna agora passou no concurso público. Segundo lugar! A maioria dos que alcançam os primeiros lugares em concursos não fica como professor. Dado que são os melhores, arrumam logo um emprego de ganho maior, ou apenas de ganho digno. Mas Bruna quer ficar, quer dar aula, está contente com a aprovação no concurso. Vai assumir! Vai? Não! Ué, o que lhe impede? Ah, sim! Ele impede: o governador médico Geraldo Alckmin, a coisa mais bem bolada que o PSDB já chegou a inventar na face da Terra. Tolinho o FHC, que vive dizendo que é o Plano Real!

O cérebro mais brilhante da medicina internacional, o governador, bate o pé em um critério estúpido que continua barrando pessoas aprovadas em concurso para a carreira do magistério. Trata-se da ideia de que o gordo não pode trabalhar. Gordo é doente! Eu escutava algo como “gordo é feio”, para uma sociedade como a nossa. Já escutei também: “não é bom para a saúde ser gordo”. Mas eu não sabia que “gordo é doente”. Aliás, não sei. Não tenho esse conhecimento por uma razão simples: isso faz parte da doutrina Alckmin, não é um conhecimento. A doutrina Alckmin não pode ser um conhecimento, ninguém pode cognitivamente absorver alguma coisa desse tipo!

Vamos pesar a população brasileira? Está todo mundo fora do peso. Vamos olhar para a pança dos políticos? Está todo mundo posando de suíno mórbido. Vamos olhar para os que se passam por magros, como o próprio Alckmin, veremos que ele tem cintura descabida e seu exame médico aponta todo tipo de disfunção. Isso sem falar da disfunção cerebral que ele, como governador, dispõe e expõe. Caso isso seja um problema, a gordura da população, isso está no enredo da novela da saúde pública. Para virar algo preocupante a ponto de interferir na vida de cada um, como elemento que impede uma pessoa sadia que tem exames outros todos perfeitos, de vir a trabalhar como professor, muita água tem de passar por debaixo da ponte.

O governo vai perder uma boa professora, na prática vai anular o diploma e o concurso dela, porque afirma que ela, sendo gorda, irá ficar doente. Ou pior: ela não está doente, mas irá ficar, e então o governo conclui que é doente! Por que o governo inventou uma doença antecipada? A pessoa gorda é doente. Não! Então o governo pode, por estimativa de estatísticas, não contratar uma pessoa assim? A probabilidade de ela ficar doente mais cedo que outros a proíbe, agora e não no futuro, de exercer a profissão para a qual se formou?

Chegamos aí a um ponto filosófico central, um problema de ética.

Trata-se do problema da sociedade do filme Gattaca. É permitido em uma sociedade liberal e democrática pensarmos em barrar pessoas ao ingresso no trabalho porque, pelo estágio de nossa ciência, avaliamos que ela irá começar a não render como profissional mais cedo que outros?

Vamos colocar as coisas em perspectiva, para compreendermos melhor a questão: em uma

Bruna, tatuada de gato, uma paixão sua!

Bruna, tatuada de gato, uma paixão sua!

sociedade em que todos são iguais perante a lei, ao menos no sentido de que não podem ser prejudicados, podemos fazer um mapa genético e um histórico da patologia de cada família e, assim, determinar os cidadãos com mais chances de renderem menos que outros num futuro, e, a partir disso, estabelecer um critério para o serviço público? Podemos fazer isso e ficar ainda de bem com a ideia de sociedade liberal democrática? Duvido.

O governo do Estado não está fazendo o que faz no sentido de proteção à pessoa. Não é uma sugestão do tipo: você está gorda, faça um acompanhamento aqui pelo médico do estado para poder trabalhar! Nada disso! É proibição da posse mesmo! Não querem dar posse à moça porque ela, mesmo saudável, tem 110 kilos. Um critério desses, em cima de um profissional que já está trabalhando e que nunca faltou, vai valer assim, sem mais?

Outros gordos já entraram com recurso e ganharam do governador, em episódios passados. Inclusive ganharam os processos que moveram contra essa maravilhosa cabeça de Alckmin e seu governo, a maioria por prejuízos morais também. Mas o governador teima. Ele é aquele tipo de gente que acredita que está usando de “métodos científicos para a admissão no trabalho” quando, na verdade, não entende nada de ciência porque se esqueceu faz tempo que ciência sem filosofia, em discussão ética, é a mesma coisa que meteoro querendo se passar por planeta: uma pedra vagando que se acha capaz de um lugar nobre no sistema solar.

A ciência é sempre mais ignorante do que os cientistas e na mão de burocratas vira o ponto de ápice da estupidez. O Estado de São Paulo está se mostrando cumpridor dessa regra. Mas o pior, debaixo dessa regra a um critério filosófico de seleção antecipada dos futuramente mais aptos, e isso, nós sabemos, não vem senão de algo mais abaixo do que a sede do Governo paulista, que é a sede do demônio. Esse critério vem do inferno.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

Tags: , , , , ,

30 Responses “Aos gordos eu apresento Gattaca”

  1. João Riobaldo Silva
    26/03/2014 at 19:34

    Parece política de higienização social. Biopolítica.

    • 27/03/2014 at 14:24

      João, biopolítica pode, sim, ser um conceito que engloba isso. Tem cheiro de higienização, mas bem burra. A moça vai sair no Geografic, e vai virar matéria escolar, aí o próprio governo do Alckmin compra!!!

  2. Afonso
    16/03/2014 at 17:46

    Essas coisas só acontecem na “República Independente do Estado de São Paulo” que parece ter nas ‘mentes brilhantes psdbistas’ uma Constituição própria que lhes permite tais absurdos – e isso é só uma mínima fração do que acontece (e ficou, nesse caso, explícito nos noticiários) nos ‘meandros’ da política ‘educacional’ paulista… a coisa é bem difícil.

    • 16/03/2014 at 18:06

      Afonso, o Estado de São Paulo não ganha nisso não! Tem gente fazendo pior.

    • Afonso
      16/03/2014 at 20:50

      Puxa, então a coisa tá difícil mesmo.

  3. Carol Giorjiani
    15/03/2014 at 19:39

    Foi a melhor coisa que lí sobre o caso…Sou irmã da moça gorda, recusada pela lógica “Alckminiana” da saúde. Para constar: Alckmin é burro e o médico perito que a reprovou é obeso. Bizarrices maravilhosas que só o governo Alckmin pode nos oferecer…

    • 16/03/2014 at 18:07

      Carol, o problema não é o gordo somente, mas o critério que vai virar uma maluquice. Viu os filmes que falei?

  4. Sara de Farias
    15/03/2014 at 14:16

    A gordinha aí é gatinha.

  5. Saulo Almeida
    13/03/2014 at 13:59

    Se o governo federal quer dizer quem pode ou não assumir a vaga de um concurso publico baseado na cor da pele, dos olhos e do cabelo, o estadual responde checando os culotes dos candidatos.

    • 13/03/2014 at 15:14

      Saulo, você está COMPLETAMENTE errado. Não seja tolo. Saiba pensar. Leia de novo o que escrevi, e leia seu texto. Não deixe o preconceito tolo ultrapassar a lógica. Ninguém proibiu alguém de entrar em serviços por conta de promover a cota. Sua fala é no mínimo equivocada. E olha que já expliquei isso aos montes. Já era para ter aprendido.

    • Saulo Almeida
      13/03/2014 at 20:53

      Como ninguém deixou de entrar Paulo? nos vestibulares, por exemplo, 50% dos alunos que tiraram notas suficientes para entrar ficaram de fora, assim como essa professora ficou de fora do emprego. Quando os governos fazem isso, não é pensando no “bom andamento da coisa publica”. É autoritarismo mesmo.

    • 13/03/2014 at 23:11

      É Saulo, com você não adianta ensinar. O cérebro seu não dá. Não vou perder meu tempo.

    • Desconhecido Aleatório
      18/03/2014 at 11:05

      Saulo, são situações diferentes. As cotas são uma tentativa de igualdade nas condições no acesso as universidades. Nessa tentativa, eles ao invez de fazer uma grande seleção involvendo todo mundo, eles fazem seleções em sub-grupos que teoricamente teriam as mesmas condições de se preparar pra essa prova. É parecido com a divisão de pesos no MMA. Um lutator grande e pesado está em vantagem contra um pequeno e leve, então ao invez de fazer só um tipo de competição em que os lutadores pequenos quase não conseguem participar, eles fazem varias categorias. Dessa forma todos podem competir.

      Pode ser um sistema falho e um tanto racista, mas ele não está relacionado ao caso da professora gorda. Negaram a ela a vaga que ela conquistou por causa de problemas de saúde que é possivel que ela tenha.

    • 18/03/2014 at 12:21

      RESPOSTA TOTALMENTE ERRADA! PUTZ. Não há nada de racista em cota étnica e ela não é uma questão de acesso ao ensino. Trata-se de política que não visa melhorar a condição do negro no acesso à educação, visa colocar negros nos locais onde eles não estão, mais rapidamente, para quebrar mecanismos de alimento de preconceito. Porra! Nego não aprende isso.

  6. Rafael Costa
    13/03/2014 at 10:11

    Aviso aos fumantes, os próximos a serem atacados seremos nós.

    De resto, sem comentários para um caso desse, lamentável.
    Todo mundo sabe que a Utopia do Alckimin é um mundo sem gente gorda, fumante, pessoas que gostam de beber (só se for uma taça de vinho por dia, já que pesquisas comprovam que faz bem à saúde), trepar só em dias e horários que pesquisas mostrem que é melhor para saúde.

    • 13/03/2014 at 10:57

      Rafael, tudo isso pode ocorrer, não tenho nenhum problema com o estado controlando a vida individual das pessoas no sentido delas serem mais saudáveis, ainda que não pelo interesse nelas. O que me incomoda no estado de direito, de cunho liberal-democrático, é que isso deixe de ser orientação e proibição em lugares sociais e passe a ser proibição para SITUAÇÕES QUE NÃO OCORRERAM quanto a emprego. Aí sim começa lógico maluca do Minority Report com o Gattaca.

  7. Valdério
    13/03/2014 at 09:21

    Paulo,

    Em conversas bem humoradas com colegas eu sempre digo que não demos certo. Digo que devemos importar suecos, noruegueses, finlandeses e dinamarqueses pra cuidar da gente. Não adianta nos darem dinheiro porque não sabemos usar.
    É importante ressaltar que trata-se apenas de humor. Preparo o terreno pra dizer que “não sabemos nos cuidar” e tentar fazer o pessoal aqui do trabalho refletir um pouco sobre algumas posições políticas retrógadas e também sobre nossa responsabilidade enquanto cidadão. Porém, o mote principal é fazer a piada. Às vezes, fico assustado quando tenho que explicar pra alguém que é apenas uma piada e não uma sugestão séria.
    Já havia lido a notícia desta professora, mas você deixou mais claro o quanto é absurdo. Nem preciso falar que vai virar mote de piada pra mim, pois sabemos que o maior gargalo que temos no país hoje é o da educação e o critério adotado pelo brilhante governador para ajudar a saná-lo é digno do troféu “orelha de ouro”, premiação que prometo criar para premiar estas brilhantes iniciativas.
    Abraço.

    • 13/03/2014 at 10:58

      Valdério, sim, piada! Mas piada também está proibido agora. Liberaram Gentili para ser fascista, mas censurar a piada dos outros.

    • Julio E. Assunção
      14/03/2014 at 08:08

      Não vejo por que Gentili seria facista, no maximo acido até de mais, até por que comediantes brasileiros tem tanta coisa ruim para fazer piada que não tem como fugir disso. Ele no especial dele sobre politica critica todos os partidos brasileiros, não acho que ele tenha uma “bandeira” e acho que a tolice começa quando o bobo da corte é levado a sério.
      Facista é uma palavra forte de mais para atribuir a um cara “gozado”.

    • 14/03/2014 at 17:10

      Júlio, ninguém é uma coisa só. Há comportamentos fascistas. Em todos nós. Gentili aparece mais porque capricha e porque tem um ressentimento maior. Eu não gosto de censura. Agora, se ele faz coisa de fascista, ele vai sofrer oposição daqueles que são contra. Tomara que os que são contra não atuem contra ele de modo fascista.

  8. Julio E. Assunção
    13/03/2014 at 08:28

    Ser gordo, assim como ser magro de mais não é saudável. Mas se fosse um emprego que exigisse mais do corpo dela (assim como eu, magrelo não serviria para construção civil) até entenderia. Ridícula essa proibição.
    Onde eu acho o edital com essa proibição?

    • 13/03/2014 at 10:59

      Júlio, para cada concurso não deve existir proibição e sim escala de aptidões. Procure pelo nome dele no Google e verá a história repetida, pois já ocorreu outras vezes. Ela também tem facebook.

  9. Alberto
    13/03/2014 at 07:19

    Paulo, que diabos de critério é este? Quer dizer que gordo (?) não tem vez? Não pode assumir um cargo público, conquistado legitimamente através de um seletivo? Cara, seria cômico se não fosse trágico. Estou com 101 kg, percebo agora que minhas chances de ir morar em São Paulo foram aniquiladas pelo meu peso. Picolé de Chuchu é um ser pensante. Dane-se!

    • 13/03/2014 at 11:00

      Ele faz isso, mas há coisa pior nesse mesmo espírito.

    • MARCELO CIOTI
      13/03/2014 at 11:42

      Alberto,quem disse que o Alckmin é
      picolé de chuchu foi o Maluf em 2002.
      Pois é,hoje a esquerda repete as
      mesmas coisas que a direita diz.
      kkkkk

    • 13/03/2014 at 12:07

      O Alberto é um cara que repete? Marcelo, acorda vai!

    • Davi
      17/03/2014 at 09:28

      Professor, o senhor acha que o discurso dos padrões de beleza e “obesidade” passa por um crivo eugenista ?

    • 17/03/2014 at 18:35

      Davi, tem um cheiro disso sim.

    • MARCELO CIOTI
      18/03/2014 at 15:57

      Sim.E o Pondé escreve
      muito sobre isso.Aquela
      lei anti-fumo do Serra
      mais parece aquelas
      leis pseudo-moralistas
      do Jânio quando foi
      Presidente.Aviso:
      nunca fumei na vida.

    • 18/03/2014 at 19:21

      Marcelo, se o Pondé falou isso ele está errado. A única coisa certa que o Serra fez foi aquela lei. Pondé é libertário de ponta cabeça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo