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29/03/2017

O que são as antropotécnicas de Peter Sloterdijk


Marx vislumbrou a ideia de simbiose entre atividade em geral e emergência do homem, mas o século XIX o fez canalizar o seu darwinismo e os seus conhecimentos de antropologia para a noção de trabalho. Não podia ser diferente. Assim, nos Manuscritos econômico filosóficos, ele chegou a escrever que toda a psicologia humana poderia ser compreendida a partir da fábrica.

Rorty nunca deu muita atenção para o desenvolvimento humano, para ele os mistérios que poderiam ter feito nascer o bípede-sem-penas eram menos importantes que este mesmo, já imerso na linguagem como quem está em um mundo. Os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem (Wittgenstein) era tudo que Rorty precisava saber. Ele deixou isso bem claro em quatro volumes de Philosophical papers.

Em ambos os casos, que são bem representativos de duas grandes correntes da filosofia contemporânea com raízes comuns – o marxismo e o pragmatismo são frutos do hegelianismo –, a técnica é o que foi posto à margem. Em ambos os casos, estranhamente, a resistência em adentrar a antropologia e escapar da mentalidade tecnofóbica, tão ao gosto de Heidegger, não se verificou. Tinham tudo para escapar da tecnofobia da do tipo de Heidegger, mas entraram por uma via semelhante, curiosamente, inclusive se desviando de princípios básicos de suas próprias teorias. Trabalho e experiência ou linguagem deram vazão às noções de práxis e pragma, e desse modo não foi difícil, principalmente para filósofos, entrar pelo século XX com um ardor antitecnológico arraigado no comportamento diário e, inclusive, tornado um elemento de atraso na investigação teórica. Da passagem de Marx para a Escola de Frankfurt e na passagem de Dewey para Rorty notamos esse problema, uma certa imitação de Heidegger quanto à tecnofobia.

De certo modo, Foucault, justamente por ser arguto como ele só diante da “biopolítica das populações” e da “anátomo-política do corpo”, como tematizou no primeiro volume da História da sexualidade, deveria ter adentrado pelo estudo da técnica de modo mais decisivo, mas não foi adiante. A técnica tomada como acessório humano e não como o que já é o humano só foi uma tese levada a sério mais recentemente, com Peter Sloterdijk, o criador da expressão fecunda: antropotécnicas.

Antropotécnica é o procedimento humano que faz com que humanos gerem humanos. E isso tanto do ponto de vista da ontogênese quanto da filogênese. O homem é homem porque é aquele que se fez ao fazer técnicas de se fazer. Estudar as antropotécnicas é a melhor forma de quebrar de vez com uma divisão que até agora só nos atrapalhou, ou seja, a separação entre natureza e cultura. O homem não pertence a uma tal cisão. As concepções que idolatram tal visão não ajudam em nada na nossa compreensão de nós mesmos. As antropotécnicas são procedimentos que anulam de vez essa divisão. Pertencem a uma narrativa que destoa da narrativa que adota a dicotomia natureza-cultura.

No livro Nicht gerettet há um capítulo sobre “domesticação do ser” em que Sloterdijk se propõe a tratar o homem sem o crivo humanista e, portanto, se apropria da terminologia de Heidegger. O homem é o Dasein. Ou seja, não é o princípio deslocado, como o homem já pronto, único, isolado, do Humanismo, mas o ser que está lançado na existência e nisso é o que conta. Mas Sloterdijk amplia a noção de Dasein ao quebrar com o receio de Heidegger quanto à antropologia (que para ele reintroduziria o vício humanista, o homem isolado, ou o “homem animal racional” de Aristóteles e de todo o mundo!). Esta ampliação é que dá a Sloterdijk, através de uma “narrativa fantástica”, a condição de ver o Dasein efetivamente como Dasein, pois revela o ambiente como ambiente. Concretamente essa ambientação de produção do homem pelo homem, sem que se tenha para isso que pressupor o humano, é o que pode ser feito expondo quatro mecanismos que formam a antropotécnica básica: insulação, desconexão, neotecnia e pedamorfose, e, por fim, transferência.

A insulação diz respeito a um grupo de seres vivos que se isolam e, então, adquirem um clima favorável ao cuidado de seus membros. Nesse ambiente mais favorável, onde se gera algo como que uma estufa ou um melhor espaço de mimo, a progenitora pode se tornar mãe e a cria pode ter a ver a algo que sejam infantes. A desconexão diz respeito os membros desse grupo que podem se deslocar do contato pegajoso com o ambiente. Isso é feito pela pedra. Ela se põe à mão e faz a mão, portanto, tê-la como intermediária entre o indivíduo do grupo e o que, então agora de fato passa a ser o seu arredor. Quem não quer falar de pedras deve se calar sobre humanos, diz Sloterdijk. Pois o movimentos com a pedra são os protótipos simbólicos da linguagem. A neotecnia diz respeito às possibilidades, devido ao cuidado das mães com os filhos, de se ter aspectos infantis e até fetais incorporados no fluxo genético da espécie, gerando então o indivíduo que nunca termina seu aprendizado, o animal que nós somos. Por fim, a transferência já se dá numa situação propriamente histórica: o homem cria situações de levar para momentos hostis os momentos bons vividos, e isso está na base das grandes religiões e das caminhadas do grupos humanos.

Esses mecanismos podem ser notados funcionando, já num plano de estudos talvez menos tradicionalmente antropológico e mais sociológico e filosófico, como que configura os estados, as cidades, os apartamentos singles, a Internet etc., ou seja, espaços de mimos que são condizentes com a sociedade da abundância, que é aquela na qual vivemos. Trata-se da sociedade que fez o trabalho se reduzir, onde ocorreu a libertação da mulher das garras da natureza, a sociedade que juvenilizou todos e que continua assim agindo e, enfim, a sociedade que traz o entretenimento como o seu pivô. A sociedade da leveza em que ocorre o entretenimento (lembrado por Pascal) e o tédio (descrito por Heidegger), o individualismo e as massas, e a sensação de insustentável leveza do ser. Esses mecanismos todos dão vazão a uma continuidade de procedimentos que também podem ser chamar antropotécnicas. Técnicas de domesticação do homem, não no sentido de torna-lo dócil, embora também seja o caso, mas no sentido de fazê-lo ser o que ele é, um ser “de casa”. O homem é um “designer de interiores”. As antropotécnicas modernas são condizentes com esse seu desejo de voltar ao útero ou de construir exo-úteros. Todo esse assunto é que comanda a Esferologia de Sloterdijk, em três massudos volumes.

Quando olhamos para o homem nessas condições, deixamos de lado a dicotomia entre tecnologia e filosofia ou máquina e homem ou natureza e cultura etc. Conseguimos então temer menos, como na prática já fazemos, a manipulação genética, a ampliação de meios de comunicação e o surgimento de pessoas anunciadas pela velha série chamada Cyborg.  Mesmos que Habermas tenha chiliques, é claro que, do lado de cá, a esposa de Rorty poderá entender Sloterdijk. Foi o que ela fez, não se escandalizando com Regras para o parque humano.

Na Alemanha, falar de técnicas assim é um pecado. Na América, clínicas de melhoramento genético não fazem ninguém lembrar do nazismo. Assim é o modo que Mary Rorty (em artigo publicado na Redescrições) viu Sloterdijk, algo completamente diferente da paranoia de Habermas. Duvido que Dick Rorty, uma vez aqui entre nós, não usasse desse mesmo modo de falar de ética. (1)

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

(1) Rorty estava vivo quando da publicação do Regras para o parque humano. Segundo Mary Rorty, em entrevista a mim concedida, ela afirmou que Dick apenas não tocou no assunto para não atropelá-la, no seu longo artigo sobre o caso.

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9 Responses “O que são as antropotécnicas de Peter Sloterdijk”

  1. Eduardo Rocha
    12/12/2016 at 20:35

    Olá Paulo. O que é a “pedamorfose” como antropotécnica?

    • 12/12/2016 at 21:36

      Neotenia, com a biologia a define. A incorporação de traços de juventude de um indivíduo no desenvolvimento da espécie. O homem é um animal que incorporou na sua evolução traços fortes de sua juventude individual, daí sua tendência a nunca deixar de ser jovem, de aprender sempre, de nascer menos preparado fisicamente etc.

  2. tadeu de jesus
    23/05/2016 at 20:16

    Obrigado professor. Vou comprar seu livro. Espero que trate da questão da tecnica e antropotecnica. Aqui no Estado de Mato Grosso, até mesmo os agentes do Estado estão com dificuldades de decidirem na pratica o que é uma atividade tecnica, o que é uma atividade cientifica, e o que é uma atividade meramente burocratica e repetitiva, dentro de uma razoabilidade aceitavel e justa, por falta de estudos que possibilite extirpar essa duvida. São as necessidades intelectuais do homem contemporaneo, para serem postas em pratica.

    • 23/05/2016 at 20:17

      Sabe que o CEFA tem grupo de estudos, participe, fale com a Francielle Chies pelo facebook

  3. tadeu de jesus
    23/05/2016 at 08:57

    Por muitas vezes me socorri aos seus estudos para conhecer mais sobre Peter Esloterdijk. O livro dele “voce precisa mudar sua vida” infelizmente não foi traduzido para o portugues, e tem muito a ver com esse tema. Pessoas como eu que lê apenas em portugues estão prejudicados pela falta da leitura desse livro.

    • 23/05/2016 at 14:15

      Tadeu o livro existe em inglês. A tradução em português foi feita pelo CAsanova e ainda não foi publicada. Estou para lançar libvro sobre o Sloterdijk

  4. Rafael
    12/01/2016 at 03:03

    Professor,já é hora de nos presentear com um livro sobre a filosofia de Sloterdijk. Todos os artigos publicados aqui sobre ele são ótimos!

    • 12/01/2016 at 03:27

      Rafael, tem um pronto, que não é sobre, mas inspirado nele: A sociedade dos rouxinois arrotantes. Está na editora. Há um calhamaço também pronto, mas que estou penteando e melhorando, sobre teoria da subjetividade em Sloterdijk. Este está aqui comigo ainda. As conversas no CEFA estão amadurecendo o bicho. caso queira se integrar, estamos sempre todo domingo em hangout 19 horas usando o programa VSEE Agora, encontro presencial tem um marcado: 21-24 de janeiro agora.

    • Rafael
      16/01/2016 at 00:52

      Ótimo. Aguardarei a publicação! Vou participar no domingo.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo