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22/09/2017

Antropotécnicas como base do projeto narrativo de Sloterdijk


No lugar da divisão entre natureza e cultura, Sloterdijk coloca o conceito de antropotécnica – conjunto de aparatos, práticas e exercícios de construção da humanidade do homem, nos termos de filogênese e ontogênese, que dispensa questões do tipo “o que vem primeiro, o ovo ou a galinha?”.

Vejamos o caso: cientistas observadores de animais relatam a história de um macaco que, sabe lá por qual razão, botou uma folhinha na orelha, e foi imitado por outros (veja aqui). Um desejo estético do macaco! Temos aí cultura ou natureza? Ora, a distinção rígida entre os conceitos de natureza e cultura caem por terra nessa hora, pois ao invés de ajudarem a uma narrativa explicativa apenas colocam questões irrespondíveis. A solução de Heidegger, de pensar o homem a partir do “Dasein”, só em um certo sentido é uma boa ideia. É correto analisarmos o Da-sein, o ser-aí, ou seja, notarmos “o que é estar no mundo” antes do que qualquer outra pergunta substancialista como “o que é homem?”. Todavia, quando Heidegger começa sua descrição, ele já o faz pressupondo o Da-sein como sendo o homem, com todas as propriedades do homem. Sloterdijk quer uma investigação sem essa petição de princípio. A descrição de antropotécnicas é a sua proposta para tal.

Antropotécnicas envolvem descrições ditas “fantásticas”, utilizando-se de conhecimentos de várias ordens – religião, mitologia, antropologia, teoria da mídia, filosofia, ciências variadas etc. – sobre a evolução do que vem a se chamar homem a partir de esferas de imunização. Sloterdijk faz isso no âmbito da filogênse e da ontogênese, ou seja, a partir da história da espécie e da história do indivíduo.

Em termos de filogênese, podemos pensar em lugares isolados geograficamente, com alimentação e com número menor de agentes predatórios, que pode ter preservado um grupo de hominídios ou coisa parecida. Eis aí a boa situação de calmaria e mimo, capaz de fazer com que uma simples progenitora comece a adquirir a capacidade de ser mais que isso, ou seja, ser mãe. Não é difícil, então, notar que ela pode ter tempo para cuidar da cria aparentemente diferente, aquele que demora mais para amadurecer. Podemos falar, então, que este será aquele capaz de fazer acontecer a neotenia, ou seja, a propriedade de traços juvenis do indivíduo serem incorporados no fluxo genético da espécie. Isso aconteceu conosco. Nascemos prematuros, como fetos, somos frutos de um nascimento que é, na verdade, um aborto, e jamais amadurecemos completamente, ou seja, morremos ainda aprendendo. Somos os animais de cérebro grande, que não amadurece fácil, e que saiu do útero “na última hora”, mais um pouco e não nasceria ou nasceria arrombando a progenitora.

Agora, em termos de ontogênese, podemos pensar em um lugar isolado, próprio para a imunização, que é o útero. Se no campo da filogênese há a relação mãe-filhos, no caso da ontogênese há a relação entre um Cá e um Lá (que a ciência chama de feto e placenta) no mesmo interior formado por um Lá (a própria placenta envolve ela e o feto). No contexto desse lugar aquoso e qualificadamente sonoro (primeiro vibratório) há uma simbiose e uma ressonância que determinará todo o desenvolvimento posterior. Toda a sinestesia envolvida aí será determinante para nascermos predispostos às relações. Quando da separação do feto e da placenta, o feto irá, nessa formação de uma proto-psiquê, tentar restaurar o ambiente diádico, e irá repor sons na recriação de um duplo, depois expresso pelo daimon, anjo da guarda, amigo imaginário etc.; e tendo encontrado esse novo par, o integrará a um terceiro, ou seja, a voz da mãe (já conhecida) e o carinho da mãe, agora em meio aéreo e não mais aquático. Assim, somos o ser-aí, mas este é sempre nossa tarefa de recriação de bolhas, de úteros – o homem é já de início um selvagem “designer de interiores”. Tendemos às relações e as fazemos de modo bem especial. Crianças adoram brincar de cabanas, de se esconder embaixo de camas e mesas, e de viverem em conversa com amigos imaginários. Elas não se socializam com a linguagem, elas nascem relativamente socializadas porque nascem no âmbito de uma intimidade que vem antes que a subjetividade individual. Aliás, para Sloterdijk, a subjetividade é sempre um campo já duplo. Não existe nunca ninguém que é outra coisa senão o “dois em um”, formulado por Hannah Arendt para descrever Sócrates. Portanto, temos em Sloterdijk uma semelhança antes com Buber que com qualquer teoria na base da subjetividade individual de Descartes ou a intersubjetividade de mônadas converseiras de Habermas.

Em ambos os casos, a antropotécnica funciona a partir do impulso da ascese. Somos os que precisam treinar para fazer mais, e esse treinamento implica repetição e paulatina superação. Diz Sloterdijk: onde você procurar homens, achará acrobatas. Se em Nietzsche a religião é base da ascese, em Sloterdijk a ascese é a base de tudo, e religião apenas um caso do movimento ascético.

Esse passo de Sloterdijk, formulando o conceito de antropotécnica, como o expus no resumo máximo acima, acarreta uma série de abolições presentes nas narrativas tradicionais sobre nós mesmos e o mundo: sai o substancialismo/individualismo e entra uma “ontologia do Dois”,  sai a tese da Internacional Miserabilista como base antropológica e entra a riqueza, o mimo, a abundância, a tecnologia na base do combustível fóssil (combustível solar está no horizonte) e a desoneração; dispensa-se o instinto de sobrevivência como dogma e entra o angariamento de votos no esbanjamento e no desperdício; o homem perde sua condição de exclusivo animal político para ser, antes, animal de família; Eros precisa abrir espaço para Thymos; a subjetividade explicada unicamente pelo visão liberal tem de se submeter à tese da “arqueologia da intimidade”; a pergunta sobre a história relativiza-se diante da pergunta sobre a geografia e, então, entra em jogo a topologia e suas metáforas; por fim, sai de cena a “sociedade de  massas” para a visão da sociedade em espumas. A visão é predominante é a de microesferas para macroesferas, da bolha para a espuma passando por globos. Cai fora a investigação sobre como somos isolados, solitários e narcisistas para a investigação da solidariedade. A teoria de objetos sai de cena para entra uma teoria do entre, do estar-em, da mídia. Sloterdijk é fundamentalmente um teórico do Meio.

Todas essas questões está bem desenvolvidas no meu livro Para ler Sloterdijk (Editora Via Veritá) (já pode ser pedido no e-mail editorial@viaverita.com.br). É o passo que ofereço ao meu leitor de modo que ele possa em 2017 adentrar finalmente o século XXI. Este século será um século de esferas. Redescrições em favor do vocabulário esferológico.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 30/12/2016

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2 Responses “Antropotécnicas como base do projeto narrativo de Sloterdijk”

  1. Eduardo Rocha
    26/01/2017 at 20:09

    Paulo essa esferologia do Sloterdijk não acaba criando uma divisão entre aqueles que escolheram a vida de exercícios e aqueles que estão no mundo digamos cotidiano? Isso não faria como certas figuras surgissem na cultura ao mesmo tempo modificando a geografia do mundo? Não surge uma espécie de “locais extraordinários”? Onde só os extraordinários conseguem ultrapassar como cavernas, montanhas, desertos, monastérios, morros, bosques, florestas que abrigariam esses excêntricos, profetas, mestres, eremitas, devotos ascetas que se destacam da montante comum para dizerem que eles mesmos são todos? Mesmo que esse espaça não esteja em algum lugar eles carregam consigo mesmo no seu interior. A academia de Platão não poderia se enquadrar nisso? Como a Heterotopia de Foucault e ao mesmo tempo uma Esfera?

    • 26/01/2017 at 22:25

      Eduardo, para que falar comigo de um três massudos volumes, que abrem uma filosofia toda, sem ler? Qual a utilidade disso? Uma ode aos midiagogos do momento, que falam de coisas que não sabem? Esferologia não tem NADA a ver com exercícios.

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