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22/07/2017

Antissubstancialismo da Teoria das Esferas de Sloterdijk


Excurso II [palhinha de futuro livro sobre Subjetividade em Peter Sloterdijk]

Antissubstancialismo da doutrina das esferas

A maior parte de nós sente culpa. Vivemos querendo nos livrar de culpas. Mas, quando encontramos alguém que não sente culpa, ficamos aterrorizados. E não sem razão. Todavia, isso não nos faz parar de imaginar uma situação em que pudéssemos viver, sem nos destruirmos cotidianamente, livres da rainha má-consciência.

Nietzsche desejou essa situação pós-humana. Mas essa sua imaginação veio no contexto da investigação sobre a culpa e a má consciência enquanto um dos elementos básicos do niilismo, o eixo de sua filosofia da história.

No livro Genealogia da moral Nietzsche fala de como a má consciência pode ter nascido de uma inicial situação em que os instintos ainda cobram satisfação, uma vez duramente contidos porque no novo ambiente não poderiam mais ajudar. Para falar disso, ele remete a situações anteriores à cultura ou mesmo ao proto-homem. Evoca animais aquáticos que tiveram de sair da água e andar sobre pés. Antes eram levados docemente pelas águas, todavia, uma vez em terra, passaram a ter de criar pernas e se erguer sobre elas, e carregar seus corpos em uma situação bem mais difícil. Antes era só abrir a boca e deixar-se alimentar. Na terra, precisaram do cálculo para a busca do alimento. Não podendo mais saciar as antigas demandas que eram satisfeitas no ambiente aquático, esses instintos contidos se descarregaram para dentro, causando dor em cada um desses novos terrestres. Dor interna como a dor da culpa, como o elemento central da má-consciência do homem ou, talvez, já de um seu ancestral. [1]

Essa ideia da transposição da água para a terra é central na evolução, mas nem sempre é considerada como diretamente ligada ao homem. Nietzsche quase que faz uma alusão ao que recentemente escritores têm chamado de “símio aquático”.[2] A ideia do homem como mais próximo dos anfíbios talvez seja mesmo uma boa sugestão. Sloterdijk não a deixa passar.

Sloterdijk diz claramente que trabalha na perspectiva ontogenética e filogenética com o homem como aquele que não é exclusivamente pertencente a um elemento. O homem não é da terra ou não é somente da terra. Ela vem do líquido, filogeneticamente, e não desaprendeu de nadar. Ele vem do líquido, ontogeneticamente, e caiu sob a dependência do ar que, afinal, em excesso ou mesmo em doses homeopáticas, lhe causa o êxtase. E o quanto o homem gosta de êxtase nem é preciso dizer, já que ele é endorfinado e tem isso como base de tudo que faz. O homem de Sloterdijk merece um olhar filosófico que nunca nenhum filósofo aceitou usar, que é vê-lo para aquém de toda e qualquer filosofia. Ele está pensando no homem que só interessa à antropologia, mas uma antropologia capaz de romper com os procedimentos padrões, capaz de admitir a anfibologia. Sloterdijk quer fundar, com a sua teoria das esferas, uma filosofia que é devedora de uma antropologia anfíbia. [3]

O lugar do homem é a esfera, mas não necessariamente um elemento. Aliás, a noção de esfera e, no caso, de bolha, está posta em Sloterdijk exatamente para evitar que se pense no homem monoelementar. Quando o homem é tomado como sendo de um elemento, por exemplo, da terra, fica fácil para ele, então, após criar uma metafísica substancialista e depois uma descrição de si mesmo como uma unidade substancial, aceitar tal descrição como a única possível e que efetivamente lhe é mais adequada. O resultado disso é a visão metafísica clássica, dual, em que há essência e aparência, tomada de modo a se fazer ela própria a descrição essencial, natural. Eis aí o perigo!

Quando “as coisas se agravam” a hierarquia cria a catástrofe maior: que se sacrifique o não essencial. Que o Ser seja louvado e que o Nada realmente possa ser dispensado, já que é o nada. Diante da realidade e do aparente, que morra o aparente. Diante do universal e do particular, que desapareça o particular. Diante da certeza e da reflexão, que se descarte a segunda. Trata-se aí, nessas escolhas, da vitória e império da “matriz ontológica do sacrifício”.[4] Que haja plebiscito cotidiano e que o Uno seja Uno, que pereçam os polos não vindos de cada dualidade. Que permaneça então o dualismo virtual de modo que se possa lutar pela totalização do totalitarismo do Uno. É disso tudo que Sloterdijk quer fugir.

Não é fácil fugir disso.

Aparentemente, temos a metafísica substancialista e a concepção do indivíduo enquanto substância unitária como uma visão já do passado, algo sem validade, ao menos entre filósofos atuais e cientistas de mente aberta. Ledo engano.

Sloterdijk é claro sobre isso, e convincente: as ciências modernas não são independentes da matematização, e esse processo implica em “redução dos objetos às suas chamadas qualidades primárias”. “Sem o primado da análise não há ciência”. Esse “hábito de isolar é naturalmente um fator decisivo na formação da mentalidade moderna”. “Continuamos apegados ao fetichismo da substância na medida em que cremos que as coisas chegam primeiro numa forma isolada e estabelecem depois relações entre si”.[5] Aliás, não posso deixar de notar, essa formulação não está nem um pouco distante daquela a que se opõe a cosmologia do pragmatismo.

Expondo o pragmatismo de modo sucinto, Richard Rorty lembra de sua vinculação ao antiessencialismo que sugere que “ponhamos de lado todas as questão sobre onde terminam as coisas e onde começam as suas relações, todas as questões sobre onde findam suas naturezas intrínsecas e onde principiam as suas relações externas, todas as questões sobre  onde finda o seu núcleo essencial e começa sua periferia acidental”.[6]

O projeto das esferas ecoa esse pragmatismo, ainda que Sloterdijk não faça referências à doutrina americana, à medida que ele diz que “devemos partir de um ‘entre’ autônomo”. “A metafísica clássica”, diz ele, “colocara sempre o essencial em primeiro plano, para continuar depois com o que chega de forma fortuita”. “Na medida em que glorificou a substância e a essência, tratou o acidente e o atributo digamos que com algum cavalheirismo. Ainda hoje, os jogos linguísticos da ontologia cotidiana não procedem de outra forma: primeiro, o subjacente, depois o acrescentado; primeiro, a coisa em si, depois suas relações com o outro”. E Sloterdijk diz algo que Rorty e, na mesma época dos pioneiros do pragmatismo, Nietzsche também endossaria: “as nossas linguagens foram forjadas de tal modo que, na prática, não fazemos senão confirmar este hábito [o do essencialismo] a cada frase que proferimos”. Ora, Nietzsche foi quem avisou bem que acreditaríamos em Deus enquanto déssemos crédito à gramática. Ele cansou de acusar a linguagem comum de ser a linguagem da filosofia – do platonismo! Dewey e James em sua época também disseram algo semelhante.

A diferença entre Rorty e Sloterdijk, nesse caso, aparece porque para o primeiro não surge o interesse antropológico de dizer, mais do que Darwin já disse e Dewey endossou, sobre como que a vida na terra, e não mais no elemento água (ou outro), colocou os animais (e entre estes o tal ‘símio aquático’) a moldar seus pensamentos, sua ontologia, a partir de coisas mais duras do que as do meio líquido, do qual veio. Do simples “duro” para o mais complexo e metafísico “substancial”, e deste para a concomitância do surgimento da linguagem, tudo se fez para que, em seguida, a primeira filosofia começasse a sua busca por arkhé. Aliás, o debate da tríade de filósofos jônios que dizemos que foram os iniciadores da filosofia cosmológica, foi um debate exatamente sobre a rarefação ou não, a permeabilidade ou não do arkhé. Tales falou da água e depois Anaxímenes falou do ar. Então, o apeiron, a palavra para designar o meio termo entre o mais substancial e o menos substancial – o incomensurável – apareceu na boca de Anaximandro.

Os projetos pragmatista e o da esferologia, ao menos da maneira que eu os leio e uso, se complementam.

Os pragmatistas substituíram perguntas do tipo “o que é?” por perguntas “como é que é?”, a esferologia dá um passo para a pergunta “onde está?” Talvez um pragmatista pudesse afirmar que essa pergunta é pior que a substituição feita pelo pragmatismo, pois a “posição” implicaria no espaço e este está sujeito à cartesianização, ou seja, pode ser posto sob a campo de um eixo XYX. Mas o esferologista, nesse caso, pode muito bem responder que o espaço das esferas não é o espaço físico. Um esferologista pergunta “onde está o homem”, mas ele sabe que só o cadáver é encontrado através do eixo XYZ. O homem vivo tem de ser descrito por esferas movidas por impulsos surrealistas. Elas implicam em ver o contido como sendo o que contém. A microesfera, por exemplo, ao traçar o panorama da intimidade, ao servir à arqueologia da intimidade, vai se por como uma bolha oval, no qual há dois polos do tipo um Aqui e um Lá em interpenetração, em ressonância.

O exemplo claro disso é Deus oco criando um Adão oco, e então soprando nele para que ele se encha de sopro e de vida, e então ressoe, como que o bom ceramista, o criador, faz com seus jarros.[7] Como diz Sloterdijk nesse seu exemplo: a metafísica começa como uma metacerâmica. Deus se colocou na criação como usando da melhor tecnologia do período, a do oleiro, a do fazedor de vasos. Essa interpenetração seria imprescindível à ressonância entre dois polos que, assim, vibrando juntos, criam uma esfera, um campo de autoimunização. Nesse campo nada existe que não seja relacional. A linguagem de Sloterdijjk faz desse relacional que é o elogio do ‘entre’ o que é o elogio do poroso, do que pode entrar em ressonância por ser o que se deixa transpassar pelo sopro e devolve a vibração inicial.

Ora, se vamos para a placenta e seu feto, tudo fica ainda mais claro. E nisso o homem nunca aparece sozinho, como substância. A intimidade, o protótipo da subjetividade, é sempre, mínimo, um campo a dois em ressonância. Qualquer tentativa de substancialização a posteriori seria uma traição ao projeto das esferas, ou simplesmente um não entendimento dele. Seria um retrocesso! Algo como deixar de perguntar “onde está o homem?” para falar novamente “o que é o homem?”

Nesse sentido, se o pragmatismo pergunta “como faz o homem?” ou “como o homem age?”, a doutrina das esferas, por sua vez, pergunta “onde está aquele que faz?” Na esferologia esse homem não pode de modo algum ser tratado como elemento  exclusivamente da terra, ainda que sua história o tenha feito andar pela terra e mudar sua sensação; ele não pode se reintegrar na perspectiva da metafísica clássica que o fez substancial. Ter se mostrado substancial em sua descrição foi reflexo de sua condição de bicho da terr. Mas, essa condição nunca lhe deu autoridade efetiva para se acreditar parecido com uma pedra sem qualquer poro, uma ilusão de pepita essencial formada antes de toda e qualquer relação.

Assim, o projeto das esferas tem um objetivo maior, o de se colocar contra uma metafísica da substância e de um seu derivado, o sujeito visto como unidade e individualidade unitária. Ecoando Adorno, o filósofo que advogou que a metafísica Rainha Má não deixaria a concorrente em beleza, sua negativa, viver em floresta alguma, Sloterdijk diz que há uma profunda decorrência da violência fácil e justificável vinda desse ambiente filosófico. Mutatis mutandis também Rorty sempre pediu um réquiem para o contingente.

[1] Nietzsche, F. Genealogia da moral. São Paulo: Cia das Letras, 2005, II-16, p. 72.

[2]

[3] Sloterdijk, P. O sol e a morte. Lisboa: Relógio D’Água, 2007, pp 270-1.

[4] Idem, ibidem, p. 251.

[5] Idem, ibidem, p. 119

[6] Rorty, R. Pragmatismo. In: Carrilho. M. M. Dicionário do pensamento contemporâneo. Lisboa, Dom Quixote, 1992, p. 270.

[7] Sloterdijk, P. Spheres I. Bubbles. LA: Semiotext(e), 2011.

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4 Responses “Antissubstancialismo da Teoria das Esferas de Sloterdijk”

  1. Astrea
    15/10/2015 at 12:34

    Somos seres permeáveis,e porosos, por isso nos afetamos com o que vem do outro. E o que fazer para não sofrermos ao afeto muitas vezes nocivo do outro. Como nos defendemos?
    Obrigada, Astrea

    • 15/10/2015 at 13:03

      Astrea mas nossa porosidade tem membranas, tem comportas, é saber usá-las.

  2. Rogério
    27/09/2014 at 14:18

    OS QUATRO EXCREMENTOS DA MANHÃ.

    Primeiro excremento da manhã:
    não tenho pai nem mãe.
    É bom saber disso: estou vazio.
    Não tenho significado, my dear.

    Segundo excremento da manhã:
    preocupações financeiras, dor de barriga,
    em quem você vai votar para presidente?
    Tome uma, tome duas, tome três.

    Terceiro excremento da manhã:
    exílio todo dia.
    Por que isso foi acontecer comigo?

    Quarto e último excremento da manhã:
    já está tudo mole.
    A falta de forma incomoda.

    • 27/09/2014 at 16:36

      Rogério, há um quinto excremento. Mas, diante desses aí, ele já foi para o córrego.

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