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17/08/2017

Anselmo e o Deus dos filósofos


Nada há de mais laico do que o pensamento dos filósofos cristãos, quando os tomamos pelo que lhes é essencial: a linguagem e a lógica.

No início do cristianismo os padres estiveram preocupados com a divulgação da mensagem dos apóstolos. Em Agostinho a teologia ainda fazia parte da filosofia. Mas, em Anselmo, por exemplo, foi possível deixar a teologia de lado, e qualquer conteúdo da religião cristã em sua forma popular, e observar a filosofia já dando mostras de um caminho pelas próprias pernas. Paradoxalmente, as “provas da existência de Deus”, comuns na filosofia medieval, fundaram o local em que o Deus cristão exclusivamente religioso efetivamente desapareceu. Emergiu daí o “Deus dos filósofos”, bem no seio da Igreja.

O Deus dos filósofos não servia para a fé ou para garantir a bondade ou o amor no mundo. Menos ainda tinha como missão estar à espera do cristão arrependido. O Deus dos filósofos, como, por exemplo, o Deus de Anselmo, tornou-se quase que imortal à medida que nutriu uma profunda discussão lógica, que ultrapassou os tempos medievais.

Anselmo expôs sua argumentação pela existência de Deus por meio da seguinte formulação: podemos entender que o maior que pode ser pensado está no pensamento, mas se se trata do maior que pode ser pensado, tem de ser concebido como estando no pensamento e também como existente, pois caso contrário não seria o maior a ser pensado. Sendo Deus esse maior, não se pode concebê-lo sem admitir sua existência.

Independentemente do sucesso ou não dessa prova, chamada de “prova ontológica”, inclusive sem muito conversarmos sobre seus defensores e críticos na história da filosofia, o que se tornou notável nela é que deu à filosofia medieval um tom mais que moderno, quase contemporâneo. Ou seja: provas em filosofia nunca quiseram ser provas em ciência, isto é, empíricas, tornaram-se claramente explanações no campo da lógica da linguagem. Assim, podemos dizer, Deus veio a ser o Deus bíblico que se encontrou com Moisés e disse “eu sou (aquele que sou)”. Um Deus que falou vestido em roupagem da linguagem ontológica. Claro que Moisés lembrou então que se assim retransmitisse ao seu povo esse enunciado ontológico, não seria entendido, e recebeu do mesmo Deus uma fórmula popular, histórica. Deus disse para ele voltar e falar, então, que encontrou o Deus de Abrahão, de David etc. Deus deixou a ontologia de lado e apelou para a tradição.

Os padres da Igreja que tinham propensões filosóficas, que haviam estudado Aristóteles, nunca se conformaram em ficar com o Deus de apresentação popular, e se sentiam mais à vontade com o Deus ontológico, o chamado “Deus dos filósofos”.

Não há nenhuma contradição entre as duas vias. Nem mesmo hierarquia. São duas narrativas distintas, para gente de gostos distintos. A Igreja sempre procurou conciliar sua frente popular com a sua frente intelectual, pois nunca conseguiu abandonar sua herança greco-latina filosófica. Uma religião como a do cristianismo, principalmente na sua versão católica e similares, nunca deixou Roma enterrar de vez Atenas.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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8 Responses “Anselmo e o Deus dos filósofos”

  1. Thiago Carvalho
    08/11/2016 at 18:47

    Bacana! O Deus dos filósofos é o Deus ontológico e consequência do gosto intelectual por compreender o mundo racionalmente.
    Penso então em termos mais palpáveis assim: o Deus de Moisés, ou do povo, é o Deus límbico, enquanto o dos filósofos oriundo do córtex-frontal…

  2. Paulo Roberto
    31/08/2014 at 00:23

    Uma pergunta técnica a respeito do seu blog: por que meus comentários não aparecem? É porque escrevo tarde, fora do prazo? Queria entender! Respeito muito suas análises e reflexões filosóficas; são pertinentes e fazem a gente pensar. Sempre externo um comentário, mas não aparecem. Por favor, ajude-me a criar interatividae com sua reflexão. Agradeço sua disponibilidade.

    Valeu!

    • 31/08/2014 at 10:01

      Paulo Roberto – este aí saiu. Tente outros, veremos!

  3. Roberto William
    30/08/2014 at 15:19

    Eu sei que o Olavo de Carvalho não é grande coisa como filósofo, tanto que seus videos só servem pra fazer rir dos palavrões heheheh; todavia vejo que ele acertou, em dizer que a religião se caracteriza como um corpo de crenças compreendido de forma diversificada pelas diversas camadas de crentes que vai de “São Tomás de Aquino e vai descendo até seu zé mané”.

  4. Hugo Lopes de Oliveira
    25/08/2014 at 21:40

    Esse é um bom exemplo para se usar no ensinando a lógica na escola básica. Isso se ainda tivéssemos uma!

    Mas Paulo, quais foram os críticos de Anselmo?

    • 26/08/2014 at 00:38

      Nossa Hugo, o debate é longo. E continua até hoje. Poucos não botaram a mão nisso.

    • Alexandre
      29/08/2014 at 16:51

      Fiquei curioso, quem foram os poucos que não botarão a mão?

    • 29/08/2014 at 19:12

      botarão? Alexandre, essa pergunta está com construção estranha.

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