Go to ...

on YouTubeRSS Feed

15/12/2017

Todo cão é simplesmente um anjo encarnado


Estou esperando o artigo de Reinaldo de Azevedo e Pondé (tanto faz, infelizmente virou a mesma coisa) condenando a petição que corre na Internet, junto com a reação mundial nada pequena, contra a feira de carnes de cães na China. Eles, esses dois “realistas”, vão acabar escrevendo algo, chamando os que assinaram a petição e lutam contra a carnificina de cães de “ingênuos” e, depois, para variar, de “aborteiros” e… “marxistas”. São dois repórteres que vivem na Guerra Fria (e às vezes no mais bárbaro feudalismo) embora mais jovens do que nós, que realmente vivemos em parte dela. Mas gente assim, mais uma vez será derrotada.

O mais interessante é que serão derrotados pelos valores que supostamente defendem, os

Cães são assados vivos em vários lugares na China.

Cães são assados vivos em vários lugares na China.

do Ocidente, ou seja, os da liberdade. São os valores que falsamente defendem, ou que defendem por auto-engano. Os cães adquiriram o status de parceiros, com direitos quase os mesmos que o homem no Ocidente. É uma porta aberta para os animais todos, pois as coisas não funcionam por mais hipocrisia ou menos hipocrisia, mas por incorporação de mais elementos no círculo do “nós”. Como Richard Rorty disse certa vez, a justiça não deve ser descrita como o oposto da lealdade, mas como sua extensão para além de um “nós” de clã para um “nós” que pode abranger a cidade, a nação, a humanidade, os cães, os animais outros, os vivos, os seres galácticos, os robôs etc. É incorporado ao “nós” ao qual devemos lealdade, e portanto ao que pode, pelo tamanho e força, ser chamado de um campo de justiça, os que podem se identificar conosco, os já presentes no círculo que dá legitimidade à justiça. Nessa história, o que vale são processos de redescrição que alteram formas de consciência e de sensibilidade. É assim que funciona.

Na China, os cães não ganharam esse direitos que lhes damos aqui, pois lá até mesmo os trabalhadores humanos não receberam nenhum direito. A China força o capitalismo mundial a aceitar novamente o trabalho semi-escravo, e cria o famoso desemprego internacional. Podemos chamar isso de “barbárie moderna”. Estaremos errados e certos ao fazermos isso. Mas estaremos certos ao continuarmos lutando para que o apreço que temos aqui pelos cães chegue até lá.

O capitalismo chinês, chefiado com o nome de um partido que, para elogio do pós-moderno, se chama “comunista”, ultrapassou os níveis de espraiamento e intensificação da reificação a que estávamos acostumados a ver no Ocidente. Que níveis? Primeiro veio os Estados Unidos, com o capitalismo da liberdade, depois veio o capitalismo de estado, na forma soviética e hitlerista, mais tarde o Japão do Pós-Guerra nos premiou com o capitalismo da ordem, finalmente assistimos o capitalismo de máfia da Rússia pós-comunismo. Agora temos na mira – inclusive do cinema – o capitalismo semi-escravagista da China. Em todos os casos a reificação e o fetichismo se colocaram segundo o que Marx analisou para a Europa do seu tempo, mas em cada lugar a intensidade foi tamanha que fez todos nós não pararmos de nós espantar ao longo de um século e pouco – digo todos nós, filósofos, mas não só!

O fetichismo vindo do capitalismo da liberdade produz agora a boneca falante. Será uma

Há lugares em que chineses incentivam luta de cães até à morte, em espetáculos bárbaros e deprimentes.

Há lugares em que chineses incentivam luta de cães até à morte, em espetáculos bárbaros e deprimentes.

boneca para serviços sexuais e com um cabedal de falas programadas, uma vez que se fosse para ter a mulher falando mesmo, pegar-se-ia a real em situação de prostituição ou doméstica ou de trabalho assalariado qualquer – às vezes é a mesma coisa. Mas o que se quer no momento, e o japoneses querem a todo momento, é a mulher que não reivindique nada, a não ser o direito de gemer no sexo como o seu dono pediu – ordenou. Esse fetichismo só foi possível porque em algum momento dessa história a reificação da mulher se comportando como boneca foi possível – é possível, será mais possível. Garanto para todos, isso nada tem a ver com “machismo”.

No caso dos cães da China atual, o que se transfere a eles é o status de mulher ou trabalhador chinês. As imputações de reificação são de reutilização indireta, por isso a “lógica da mercantilização” atinge a cultura às vezes até mesmo onde o capitalismo não é desenvolvido de maneira plena. Por isso a força contrária também pode funcionar, mesmo quando o sistema econômico capitalista ainda está aquém do grau além da barbárie, que é o que se espera que estejamos vivendo atualmente no Ocidente (às vezes, também como forma de auto-engano acreditamos que estamos melhor). Petições e pressões internacionais são formas de despertar a consciência. Valem na construção do “mundo melhor”, que horroriza os conservadores que querem sempre, antes como poser que sinceramente, viver contra o “mundo melhor”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

Tags: , , , , , , ,

3 Responses “Todo cão é simplesmente um anjo encarnado”

  1. roberto quintas
    30/06/2015 at 15:06

    só nos escandalizamos por que é outra cultura. aqui no Brasil tem rinha de galo. A Friboi tem centenas de processos, incluindo trabalhistas. Mas queremos julgar mediante nossa visão provinciana o chines, o coreano e o japones. engraçado que não protestamos contra o tailandes e o vietnamita por comer insetos. não deixa de ser um especismo e uma edulcuração do animal à lá Disney.

  2. Eduardo Pupim Filho
    21/06/2015 at 22:27

    “Um mundo sem o mal, diz Agostinho, seria um mundo sem humanos, seres capazes de decidir sobre seus atos”. Há cada dia mesmo que não queiramos, nos convencemos mais disso!!

    • 22/06/2015 at 06:01

      Eduardo, isso não quer dizer que devamos, a la Pondé, não denunciar o mal e começar a denunciar como tolos os que denunciam o mal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *