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29/03/2017

Do anel da mulher – questões da subjetividade moderna


Uma mulher sem brincos é como uma mulher sem saltos, não há como ter desejo sexual por ela. Isso é uma ordem de Freud. Uma mulher sem anéis é como uma mulher bonita, mas com uma barriguinha. Dá para ter desejo, é claro, mas se perder a pancinha fica bem melhor. Isso nada tem a ver com Freud.

Fran, minha esposa, não tem barriga, sabe usar saltos e não perde a oportunidade de usar de brincos e de anéis. Ontem comprei um anel para ela. Adorou. É tão ou mais importante para ela que um vestido noturno. Lindo mesmo. Todavia, é como a barriguinha, ela ficaria sexy mesmo com barriguinha e, portanto, o anel não faria tanta falta aos meus olhos.

Há peças no vestuário de adorno de uma mulher (há algo que não seja adorno em uma mulher?) que são de uma delicadeza e de um detalhe que, com certeza, não são usadas para nossos olhos, os do macho. Não somos animais do detalhe. A mulher é um bicho do pequeno. Saímos da caverna em companhia de nosso irmão e amigo lobo, que começou a nos domesticar, e fomos para a caça. Enquanto ele cheirava o perto, nós olhávamos o longe. Boa combinação para a caça. A mulher não saiu para a caça, ficou na caverna, restringiu seu olhar e, por isso mesmo, especializou-se nas pequenas coisas e no detalhe. Sabemos bem disso porque uma mulher olha pouco a paisagem em uma viagem, e em casa, tanto esposas quanto mães são ouvidos inchados que sobrevivem aos nossos pedidos para que achem coisas que estão na nossa frente.

Sendo assim, fica fácil entender que ao contrário do brinco, que a mulher sabe que faz diferença para um homem-homem (tanto quanto a maquiagem e o salto), o anel pode ser dispensável. Então, o anel é um adorno da mulher para com a mulher. No eco dos velhos estudos de Christopher Lasch, chamaríamos isso de pinceladas de narcisismo de nossos tempos. Pode ser. Mas também pode ser algo muito mais saudável: amor próprio. Afinal, não é interessante que a mulher, um especial “segundo sexo”, mas, ainda um segundo sexo, possa adornar-se para si mesma? Não é fantástico que um animal criado única e exclusivamente para ser visto, sem qualquer função para si mesma, gerada única e exclusivamente para servir o homem, ainda assim possa adornar-se para si mesma? Que disfunção é essa no plano da criação? Que trança pés é esse preparado por Deus e Darwin?

O anel dos casados não significa elo, nem como sinal de amor e nem como sinal de prisão. O anel dos noivos e casados é um sinal para o outro: “não se aproxime”. Ou então: “aproxime-se, não tenho doenças e não enrolarei ninguém com compromisso”. Ou mais: “aproxime-se, vamos ver se arranca esse anel!” Todavia, o anel de adorno, é uma peça da mulher para a mulher. Não é um elemento da mulher para as mulheres. Bobagem isso. Poucos anéis em uma sociedade de império da classe média podem ser caros o suficiente para nascerem com a função de causar inveja. O anel é efetivamente um adorno da mulher para ela mesma. Ela põe e olha com certa distância a mão espalmada – lá está ele, a joia dela, para ela! Forma-se um interessante ângulo entre o olho da mulher e as costas de sua mão. Ela entorta um pouco a cabeça para vê-lo, como fazem os cães no esforço de nos entender.

Talvez tenhamos de começar a prestar mais atenção nessa antropologia das pequenas coisas. Talvez elas nos revelem elementos de busca de salvação diante do esvaziamento do eu e dos fracassos do sujeito.

Não será o anel algo bem mais importante que a tatuagem? A tatuagem, apesar de ser marca do corpo, é para o outro. Mesmo que algumas pessoas tatuem coisas significativas para elas, ainda assim é para o cultivo da identidade social, ou simplesmente moda. Mas o anel não. O anel é como aquela planta que a mulher cultiva em um jardim reservado, para o seu próprio prazer estético. Em geral, anéis desse tipo, aparentemente sem função, cumprem a função de marcadores do fluxo da memória, buscando incessantemente, na forma de adorno, pontuar a vida. Pontos na vida que são de uma incrível intimidade. O anel talvez seja o último elemento com o qual nós podemos nos apegar e que não é tão degradante, considerando então o tempo em que estamos vivendo, em que o eu ainda capenga pode andar, mas o si mesmo, o self, parece ter ficado definitivamente manco, andando com perna postiça.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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7 Responses “Do anel da mulher – questões da subjetividade moderna”

  1. Mario Luis
    04/07/2014 at 12:37

    Por outro lado, as discussões relativas ao que é público são relegadas a segundo plano, enquanto a individualidade, a intimidade e a privacidade são objetos de intenso debate e exploração. Esse é um sintoma pós-moderno, essa exacerbação do individualismo em detrimento do coletivo. Paradoxalmente, não há como pensar em coletividade sem individualidade.

    • 04/07/2014 at 13:53

      Luís preste atenção nisso: As pessoas precisam ler meus artigos entendendo que público se opõe a privado, e que coletivo se opõe a individual, mas isso não faz público ser sinônimo de coletivo e privado ser sinônimo de individual.

    • Mario Luis
      05/07/2014 at 01:27

      Entendo. Mas, como sintoma, a intimidade se torna assunto público e prevalece sobre o que diz respeito ao que, por definição, seria interesse público, ou seja, o concernente ao coletivo.
      É mais fácil hoje encontrarmos na mídia e nas redes sociais a exposição da vida privada das pessoas do que o contexto no qual ela está inserida. Esse contexto está sendo relegado a segundo plano, ele opera sem que seja inteligido. Uma análise mais profunda revela que há uma fratura no agenciamento do indivíduo com o seu meio, gerando uma imagem distorcida da pessoa para consigo mesma.

    • 05/07/2014 at 10:51

      Mário, você ainda está confundindo: público é uma coisa e interesse público é outra etc etc etc.

  2. 03/07/2014 at 12:37

    Ghiraldelli, o prazer estético não seria sempre um sentimento externo, ou seja, não precisaria sempre do outro para existir?

    Encaro particularmente a estética como uma comunicação, de modo que anéis, com seu papel estético, estão sempre a se comunicar com a sociedade. Mesmo que o prazer seja próprio, que “ela se ache bonita”, é necessária toda uma interação social para que seja possível esse sentimento.

    • 03/07/2014 at 15:48

      Daniel! Que somos seres sociais, isso não é ponto de chegada, mas ponto de partida. Somos sociais, mas a INTENÇÃO de vestir um anel, faz o bem estar de usuário com ele mesmo, a curtição e marca dele para ele mesmo, ao passo que a INTENÇÃO de usar um batom é a de mostrar sua boca sensual para o outro. Isso não exclui que o anel seja mostrado para outro e não exclui que a boca seja apreciada no próprio espelho. Ou seja, tudo que estamos falando só para mamíferos sociais que desenvolveram um sentimento de eu, de íntimo, de privacidade. E esse sentimento de eu é um sentimento em sociedade. A privacidade burguesa depende da separação do público e do privado, e do cultivo do privado. A maior parte dos mamíferos não humanos, talvez todos, curtem as coisas em função do outro. Só nós, sendo sociais, podemos curtir as coisas que não são para os outros. Sacou?

    • 04/07/2014 at 22:03

      Saquei!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo