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26/09/2017

Amós Oz e seu conceito de fanatismo


Se a definição de Amós Oz for correta a respeito do que são os fanáticos, e do que somos nós em comparação com eles, certos livros do filósofo Giorgio Agamben (e de Foucault e outros), deverão ser postos de lado.

Segundo Amós, em seu livro Como curar um fanático (Companhia das Letras, 2015), a luta contra o fanatismo se dá “entre aqueles que acreditam que o fim, qualquer fim, justifica os meios e nós, os demais, que acreditam que a vida é um fim em si, não apenas um significado.” Trata-se de “uma luta entre os que acham que a justiça – ou o que quer que se queira dizer com a palavra justiça – é mais importante do que a vida e aqueles para quem a vida tem prioridade sobre os outros valores, convicções ou crenças”. Entre Oz e os filósofos, fico com os segundos, é claro.

Não acho que escritores de ficção ou coisa semelhante devam tentar dar palestras teóricas. Poucos acertam. Saramago errava quando queria falar algo de política ou sociologia (embora também quando escrevia literatura, dado que era um chato). Amós Oz começa errando pelo título “Como curar um fanático”. Essa metáfora não ajuda. A ideia de transformar qualquer comportamento em patologia não é boa. Propor que para solucionar problemas devamos hospitalizar o mundo? Nunca é bom, para falar de fanatismo em termos teóricos, colocar uma linha divisória nítida como é a linha entre doentes e sadios. Afinal, nós sabemos bem que houve uma chacina de cães cocker nos Estados Unidos, feita por pessoas ditas normais e que de fato até então não tinham apresentado nenhum comportamento estranho, quando se ficou sabendo que Hitler teria predileção por essa raça de cães. Aliás, foi daí em diante que o labrador e outros ocuparam o gosto dos americanos, até então vidrados em cockers!

Além do mais, se há algo realmente pouco sustentável nessa história de Amós Oz sobre a importância da vida, é que pelo seu critério, uma vez à luz de Agamben, todos nós modernos somos anti-fanáticos. Ora, então, os fanáticos viriam de uma sobra fantasmagórica do passado? Muitos acreditam nisso, falando em fanáticos como os da Idade Média etc. Isso não se sustenta.

Agamben e Foucault nos dizem que a vida política antiga é que é, efetivamente, a vida antiga. Ninguém apostava na vida biológica como sendo a vida. Aliás, uma decisão sábia: vivia-se menos e também a probabilidade de morrer a qualquer momento nas mãos de inimigos e doenças não era um número baixo. A vida era, então, a vida de títulos, honrarias, prestígio, a vida política ou, como dizemos hoje, a vida social. Viver era ter honra e coragem, e ser capaz de heroísmo. Só nós modernos, como explica Agamben, falamos de vida como vida biológica, ou seja, a vida do coração batendo, ou o que é contrário à morte cerebral. Atualmente a política acolhe a biologia. A vida política acolhe a “vida nua” como vida par excellence. Então, hoje, o valor vida (a vida biológica) é nosso maior valor. Mas isso é algo de hoje, moderno, e assim mesmo não significa que tenhamos que nos agarrar a essa visão geral de qualquer maneira, esquecendo o que se fez no passado. Pensamos nisso quando nos imaginamos em situações em que só restaria a vida biológica, a vida nua, quando é claro que não vale a pena mantê-la diante de sofrimento moral. Consideramos de verdade a retirada da vida uma solução válida se for para ter que se comprometer com uma humilhação ou dor moral ou trocas impossíveis de suportar (por exemplo, ter de fazer um mal a um ente querido ou a inocentes etc). Pensamos claramente em tirar vida não só nossa, mas de outros, em inúmeras situações em que o que está em jogo é valor moral. Assim, não é verdade que nós, os ditos não fanáticos, lutamos pelo valor vida como acima de tudo. Podemos muito bem termos isso como algo do campo moderno em geral e, no entanto, compormos grupos que podem, sim, morrer e matar, e sem vínculos com a justiça.

Nessa hora, já não estamos mais no campo de Agamben somente, mas avançamos para a seara de Sloterdijk. Para ele, temos de considerar a opção da modernidade também pelo cinismo. Quando voltarão a valer os Mandamentos? É o que pergunta a garota para a avó, durante a Guerra. Podemos morrer e matar e sair disso tudo (uma guerra ou uma situação complicada qualquer) sem que tenhamos que arcar com qualquer traço de fanatismo. Não somos os heróis do mundo, contra os tais fanáticos, como Amós Oz acaba por assumir, mesmo dizendo, contraditoriamente, que são os fanáticos os que olham para o mundo como um mundo de “corretos” e “errados”, “mocinhos e bandidos”. Podemos acreditar em tal coisa ou não e, enfim, não sermos fanáticos. Podemos simplesmente ser soldados comuns ou cidadãos comuns que durante um tempo adquiriram a capacidade de matar, de serem assassinos. Nessa hora, é preciso sempre lembrar Hannah Arendt e a razão pela qual ela não foi entendida na análise sobre Eichmann. Ela nunca disse que ele era um bom sujeito, o que ele disse é que ele era um tipo medíocre, incapaz de reflexão, um seguidor de jargões e frases feitas, um energúmeno que não conseguia colocar sua consciência em funcionamento. Arendt jamais aceitou chamar os nazistas de “monstros” ou de “doentes”. Fazer isso seria ceder ao não analítico e participar da estupidez de raciocínio típica do próprio nazismo.

Voltando a Sloterdijk, podemos também pensar nossa época não só como acolhedora do cinismo, mas também da “insustentável leveza do ser”, ou seja, uma época em que tudo é frívolo (a sociedade da leveza) e, então, para se adquirir alguma sensação de que há ainda a realidade e o sério (sério e real são sinônimos para nós, muitas vezes), o melhor seria engajar-se em movimentos fanáticos. Esses movimentos devolvem a muitos o que lhes falta, ou seja, responsabilidade, sentido da vida, sensação de estar fazendo algo que “vale a pena”. Muitos hoje em dia carecem de acreditar que há alguma ontologia. (veja artigo Como surgem os terroristas, neste blog).

Agamben, Arendt e Sloterdijk podem desmentir Amós Oz rapidamente. Todavia, há um ponto no livro em que Oz acerta, e que pode inclusive redimi-lo. Ao caracterizar o fanático como alguém sem senso de humor, ou com humor limitado, aí sim Oz envereda por algo que vale a pena continuar a investigar. Sabemos disso quando vemos que o humor é, não raro, o que mais revolta gente de seitas ou gente com capacidade grande de seguir um líder irracional (ou racional demais!). Por essa via, talvez, possamos notar mesmo um traço do fanatismo.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo

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6 Responses “Amós Oz e seu conceito de fanatismo”

  1. Afonso
    01/09/2016 at 12:05

    Não foi Aristóteles quem disse que “o homem é o único animal que ri”? Umberto Eco em “O nome da Rosa” explora aspectos interessantes sobre o riso. Vladimir Propp trata do riso em “Comicidade e Riso” (passando por muitos exemplos literários). Aponta, por exemplo, num trecho que “a incapacidade de rir, às vezes, pode ser explicada como sinal de obtusidade e de insensibilidade”. Mas pode ser não apenas sinal de obtusidade, mas também de devassidão (a exemplo do Mozart e Salieri, de Púchkin). Por outro lado, há uma categoria de pessoas que não riem, não por insensibilidade, mas devido à natureza elevada de seu espírito e pensamentos. Há, portanto, uma boa discussão nisso tudo. Envolve toda a psicologia do riso, e seria preciso explorar não apenas o que estimula o riso, mas os processos psicológicos envolvidos. Também como isso está ligado às religiões. Nem todas excluem de seu âmbito o riso.

    • 01/09/2016 at 12:19

      Sim, Afonso, eis aí um temas que não é para plebiscito.

  2. Bárbara
    24/01/2016 at 18:07

    Boa tarde.Gosto muito de Saramago. Vc não perguntou, eu sei.E, tb não é necessário resposta. Obrigada.

    • 24/01/2016 at 18:15

      Bárbara leia o meu A filosofia como crítica da cultura (Cortez)

  3. Felipe
    21/01/2016 at 21:54

    A liberdade de um individuo é diretamente proporcional a sua capacidade de rir

    • 22/01/2016 at 07:21

      Talvez até mais coisas sejam proporcionais ao humor.

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