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22/09/2017

Amor de Freud e Foucault


Freud e Foucault são desenhistas do amor. Cada qual com o seu quadro. 

A metafísica do amor criada por Freud implica na luta entre dois princípios, um que ele chamou de pulsão libidinal e o outro que ele viu como pulsão de morte. As energias libidinais que investem na vida pedem união e crescimento, ao mesmo tempo, junto delas, caminha a força para a dissolução, a desagregação e a morte. O gozo sexual resume ambos, ele dá união e prazer, mas também se encontra no ato sexual o prazer como volta à quietude do não sensível. Todos nós sabemos como o gozo sexual, o cume do processo erótico, gera prazer pela vida e pela morte num só ato. O máximo de doação ao outro é também um egoísmo profundo de escapar do outro e derreter-se.

A filosofia do amor elaborada por Foucault implica na utopia. O corpo não é a negação da utopia, mas também sua afirmação. O corpo negação da utopia é o que mostra claramente que utopia, sendo o lugar que é o lugar-nenhum, não pode conter o corpo, pois este sempre está no aqui ou no acolá. Diferentemente, o corpo utópico aponta para três situações: o pensamento que está na cabeça mas joga para o sem-lugar, que é o conceito e a imaginação; o corpo que se projeta no espelho, que o lugar em que se está sem se estar; e o cadáver, que é lugar que se está sem se sentir que está, ou seja, não se está. A síntese de Foucault se dá no amor: quando um outro toca o seu corpo, ele o leva para o lugar nenhum que o faz estar na utopia, ao mesmo tempo mantendo-o no lugar existente, o aqui, o lugar da ponta dos dedos do outro. Por nos levar para a utopia realizada, gostamos tanto de fazer amor.

Seria tolo para pós-modernos como nós, leitores de Davidson, Rorty e Derrida, acharmos correto tomar uma descrição e não outra. Podemos aceitar ambas. Aliás, podemos encontrar ambas na prática erótico-sexual das pessoas outras e de nós mesmos. Com certos parceiros amorosos, somos apreciadores do desenho do artista Freud, mas com outros parceiros, somos amigos do artista Foucault. Há mulheres e homens que possuem a sorte de encontrar em um só parceiro, facilitando bem a vida, aqueles que sabem entrar num quadro de Freud e sair por um de Foucault, ou vice versa.

Amor e energia, amor e utopia. Quando conseguimos notar que nem Freud e nem Foucault mentem,  porque a mentira do vivido pelo filósofo não é possível, começaremos a dar algum passo na compreensão do amor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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3 Responses “Amor de Freud e Foucault”

  1. 30/06/2016 at 13:29

    Interessante seu texto. Aproveitando, vou deixar meu blog tbm, com reflexões da vida humana, casa alguém tenha interesse.

    http://www.profundezahumana.com.br

  2. Luana
    07/06/2016 at 12:29

    Bela visão do amor em relação a esses dois , gosto, não conhecia a visão de Foucault, maravilhosa ?

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    07/06/2016 at 10:50

    Prof. PAULO
    Penso que bem ilustra seus interessantes comentários acerca da metafísica do amor, a metáfora do cineasta japonês Nagisa Oshima em o Império dos Sentidos, na cena (entre outras) do momento do orgasmo dos parceiros sexuais, ao som da marcha militar do exército nipônico a caminho front.
    Com admiração.
    Valmi Pessanha.

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