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16/08/2017

Alzheimer não é para qualquer um


Dizem os que estão em terapia psicanalítica que não é fácil conviver consigo mesmo. Sim, é certo isso! O inferno somos nós – não é raro que tenhamos tal pressentimento. Mas as pessoas que dizem isso, talvez a maior parte, não sabem nem metade da verdade. O inferno pessoal é apenas o purgatório. A fase realmente diabólica da descida é quando lemos no calendário que nosso eu fará a proeza de respirar no vácuo, sem a armadura do astronauta. Mas de modo assustador: sem mais sentir a própria respiração.

“Os amigos desaparecem e antes mesmo do encontro com o limbo, ainda com um restinho de eu, conhecemos a solidão, a sombra gélida das asas de Lúcifer”. Posso escrever entre aspas os dizeres talvez não ditos de minha tia Jacy, que não vejo há mais de vinte anos. Sim, mais de vinte anos!

Nosso encontro último foi quando meus pais a trouxeram do interior para São Paulo, para uma clínica que iria tentar nos dizer alguma coisa sobre um estado relativamente já avançado de seu Alzheimer. Passeamos pela cidade grande e jantamos em uma cantina do Bexiga, sob música italiana ao vivo. Minha única tia pelo lado materno, estava aparentemente quase que normal, mas ela precisou de minha mãe para a maquiagem e para se vestir. Seu estilo de princesa estava intacto, mas seu rosto preanunciava que ela não receberia o beijo do acordar, vindo do Príncipe, mas o beijo de uma mosca Tsé Tsé abestalhada. Não demorou muito para que a janela da alma se abrisse de vez, deixando seu prisioneiro escapar para uma terra na qual não há como irmos em visita, e que tememos que nem ela, Jacy, tenha chegado.

Jacy entrou consciente nesse processo e se manteve assim até que o túnel a conduzisse para o paradeiro de hoje, na condição de uma criança grande, de uma criança grande e deficiente. Sei desses seus passos porque minha mãe teve uma pequena rixa com meu tio e eles andaram se estranhando, e nessa situação ela encontrou o casal Haroldo e Jacy. Ele passou reto, sem conversa. Jacy então fez gestos desesperados, arregalou os olhos, como que querendo informar meu tio o quanto havia de bobagem naquele comportamento. Ela reconheceu minha mãe e estava compreendendo o processo de rusgas familiares. Mas não tinha mais como articular uma comunicação que pudesse ser levada a sério. Aquilo comoveu até a minha mãe, uma mulher que é muito doce, mas alegre demais para chorar quando se espera que ela chore. Aquela manifestação de Jacy foi o canto do cisne do seu eu, ou do que restava dele. Foi o final do afogamento daquilo que imaginamos que só perderíamos, ainda que de modo não fatal, na loucura, e que alguns acham, porque já estão loucos, que nem a morte nos tiraria.

O que é o eu? Quando Descartes fundou filosoficamente a existência no Cogito, no pensamento, sendo este de propriedade de um eu, na contramão Pascal o desautorizou. Descartes disse “(Eu) penso, logo sou”, enquanto que Pascal despiu o eu de seus atributos para mostrar algo que eu escreveria assim: “posso pensar à vontade, disso não tiro o eu como um algo”.

Pascal não eliminou completamente o eu de Descartes, mas o dessubstancializou. Um eu é um eu como aquele do Alferes do conto de Machado de Assis, “O espelho”. Um eu precisa de dotes, honrarias, roupas que distingam tal honraria. Ou seja, filosoficamente falando, um eu precisa de sua figura moral e social, a pessoa. Necessita de identidade social que o carregue de adjetivos, pois fora disso terá de ser batizado como algo metafísico, do tipo “res cogitans”, em oposição ao que é “res extensa”. Um eu precisa ter atributos e saber que os tem, ser uma consciência. Mas não uma consciência qualquer, uma consciência de atributos embutidos, e de certo modo colocados sobre a cabeça. É importante que algum espelho veja o eu linguístico vestido de carne e ossos e que tal coisa esteja com algum uniforme de alferes ou de rei momo ou com faixa presidencial ou, enfim, de cuecas. Mas, fundamentalmente, é necessário saber como vestir as próprias cuecas ao mesmo tempo em que se sabe proprietário delas. Em outras palavras: devemos saber que reconhecer-se só é possível para quem antes de ter dotes é o conjunto desses dotes e nada mais. Fora disso, pode ser o dia de sol eterno, Alzheimer, o beijo sarcástico de Lúcifer. Para os otimistas: a canonização em vida como mendigo, como santo.

Ao saber que estava com o mal de Alzheimer, Ronald Reagan, o homem que praticamente refundou a existência do sistema partidário americano, pediu à esposa que preparasse sua despedida. E assim ocorreu a festa. É extremamente chocante ver alguém morrer e ao invés de notá-lo sendo levado para cemitério, fitá-lo de braços dados com a esposa, voltando-se para a casa, deixando convidados no jardim. É muito estranho ver o morto acenar para os que lhe jogam flores e, depois, ficar esperando os que assim fizeram irem caindo, um a um, em suas covas, mas sem muito notá-los.

Minha tia lá está. Como dizem alguns, “Jacy está com saúde”. Jacy tinha um carinho especial por mim, o sobrinho para quem ela fazia questão de sempre confeccionar o bolo de aniversário, o fantástico “bolo de creme com maçã”, até que um determinado ano, isso parou. Em um 23 de agosto qualquer isso parou.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Post Scriptum: fiz questão de escrever este texto sem ver o filme Para sempre Alice. E mesmo sem vê-lo, posso contestar Ignácio de Araújo que escreveu na Folha de S. Paulo, de modo pueril, que “o esquecimento não é um problema filosófico, mas dolorosamente físico” (Crítica aqui). Não existe algo “dolorosamente físico” que não seja profundamente filosófico.

Gravura: “Reprodução proibida”, de Magritte.

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16 Responses “Alzheimer não é para qualquer um”

  1. Jean Carlos Håndlykken-Luz
    27/05/2016 at 15:25

    Olá Professor Paulo.
    Estava a navegar pelo Google a procurar algum texto (de filosofia) que pusesse em questão o Alzheimer. A minha afetação com este problema é muito pessoal: minha mãe recebeu o diagnóstico de Alzheimer aos 59 anos de idade. Descobri a doença pelo “acaso”. Sou residente na Noruega e para não me alongar na história, percebi que algo estava a andar errado com a minha mãe devido ao fato de ela esquecer-se de tudo que dissesse respeito à memória temporária e a não conseguir desencadear mais raciocínios coerentes. Foi quando tomei a iniciativa de busca-la para fazer exames médicos aqui e…
    Tocando em miúdos com o que pretendo pôr para o debate, segundo a minha experiência cotidiana como filho de demente (sei que a palavra ainda envolve tabus), é, mesmo com Alzheimer, ainda é possível viver com alegria na relação eu-ele (no caso ela). O eu do Alzheimer é crônico, isto é, irreversível e evolutivo. Na medida em que aquele eu se apaga, ainda há o ele para dizer o que ele (ela) é. Indo direto no que percebo a partir daqui da Noruega é este o fato: o trágico do Alzheimer tem o peso que a brasilidade conhece devido ao fato dolorosamente humano do familiar cuidador ficar abandonado e sem recursos públicos para cuidar do portador de Alzheimer. Na Noruega a responsabilidade dos cuidados é do Estado e, logo, a relação do portador de Alzheimer e do seu familiar é a da estrita e voluntária ação do encontro dos viventes para viver o instante daquela memória que ainda resiste com os parcos recursos que tem em afirmar a sua potência de vida. Ainda memória, ainda um outro para amar e cuidar quando aquela memória tiver esvaído-se por completo. Afirmo, em síntese, que o que falta no Brasil para que o trágico possa ser administrado (eu não disse solucionado) é a criação de políticas públicas afirmativas da vontade de vida para permitir aos usuários da cidade a liberdade do encontro, da alegria e do instante que se eterniza na memória de quem fica para dizer quem aquele eu foi.
    Cumprimentos,
    Jean Carlos Håndlykken-Luz

  2. Victor Barbosa
    28/03/2015 at 18:03

    Olá Paulo Ghiraldelli. Grande prazer levar novamente algumas questões sobre o seu texto.
    Diante de memórias afetadas, irreversivelmente, pelo mal de Alzheimer algumas inquietações vieram à tona. Segundo Sartre “o homem nada é além do que ele se faz”, sendo a subjetividade o princípio primeiro de sua filosofia existencialista. Destarte, sem a memória o homem jamais estaria condenado à liberdade?! Quem não está em condições cognitivas de buscar a sua essência pode existir no sentido sartriano? Ao nosso sentir, o Estado Democrático de Direito concebe a essência de um modo absolutamente distinto de Sartre, inclusive em face de tal enfermidade, pois constrói direitos para além do “sujeito”; esses direitos seriam uma essência antes do nascimento (existência)?

    • 28/03/2015 at 19:48

      Vitor! Nada, nadinha de essência em Sartre, só existência. Não há busca de essência.

    • Victor Barbosa
      28/03/2015 at 20:11

      Caso tivesse a oportunidade de editar, mudaria.
      Quem não está em condições cognitivas de buscar a sua definição pode existir no sentido sartriano?

      E agradeço pela correção, Paulo Ghiraldelli.

    • 28/03/2015 at 20:19

      Vitor, a existência é a existência. A palavra se opõe à essência. Só isso. Você está com um pensamento essencialista.Você está pondo condições para falar em existência, e isso é uma essencialismo. Sartre parte da existência. Quem está com Alzheimer não fala “eu”, mas ainda recebe o “ela”. Não fez um “puf” e sumiu.

  3. Maximiliano Paim
    12/03/2015 at 21:08

    Associei com o tema o (fim do) instinto de relação. É possível?

    • 12/03/2015 at 23:31

      Sim, Maximiliano, é possível pensar as coisas por essa via sim. Sloterdijk estudou o autismo, mas não o Alzheimer.

  4. Andrei
    12/03/2015 at 10:11

    Paulo, fizestes um belíssimo texto. No post scriptum a filosofia é realocada em seu modelo grego e, porque não, nietzscheano: “Não existe algo ‘dolorosamente físico’ que não seja profundamente filosófico”. Como conceber a concretude de um homem sem o corpo? É como desconsiderar este problema como filosófico? Penso que você acertou no alvo.

    • 12/03/2015 at 10:27

      Andrei! Talvez Sade tenha tentado isso na “filosofia NA alcova”.

  5. Natalia
    11/03/2015 at 22:55

    Olá Paulo, seu texto é ótimo, quando fico a imaginar a situação de minha avó hoje, penso que para ela o alzheimer tenha sido uma cura, é um esvaziar-se de si mesmo, triste mais hoje ela é mais feliz do que a anos passados.
    Obrigada pelo texto!

    • 12/03/2015 at 08:12

      Natalia nunca saberemos se ela é mais feliz.

  6. Ronilson Teles
    11/03/2015 at 10:04

    Professor e Filósofo Paulo Guiraldelli, não sei se serve de explicação para o silêncio a respeito do texto em pauta sobre o MAL DE ALZHEIMER, mas o sentimento de total impotência é angustiante para nós, “pobres mortais”. Temos sérias dificuldades de falar sobre tudo que revele nossa condição de seres impotentes, como a morte por exemplo. Veja as postagens nas redes sociais. Nada, absolutamente nada que possa atingir nosso eu inflado está lá! É por isso que a Filosofia incomoda, porque se aventura por regiões ermas e inóspitas! Suas linhas são emocionantes, meu caro professor e filósofo. A questáo é que abordar temas cruciais desse quilate causa incômodo, náusea e vertigem em quem está mais interessado em curtir a vida e desfrutar de seus prazeres! Sobre isso, NIETZSCHE já disse: “NOSSAS VIVÊNCIAS MAIS ÍNTIMAS NÃO SÃO NADA TAGARELAS” !

    • 11/03/2015 at 10:09

      Ronilson vamos fazer o Hora da Coruja da próxima segunda, 22 horas ao vivo, sobre o “sumiço do eu e Alzheimer”. Participe.Obrigado por ler minhas coisas.

  7. 10/03/2015 at 23:07

    Muito bom o texto!

    Realmente o Alzheimar não é para qualquer um.

    Traz muitas perguntas a quem observa o processo ocorrendo com alguém que você estima. Acompanhar esse processo de perda de memória leva a questionar todo o conceito de subjetividade de uma maneira bem radical.

    Tudo de bom e obrigado pelo texto!

  8. Egisto
    10/03/2015 at 17:45

    Sabe Paulo seu texto muito me emocionou. Tambem tenho e tive familares com a mesma doença. Antes de ler o teu artigo, estava eu a refletir sobre esta doença, meio que fitando a minha avó, que tambem a possui: a perda da memoria , não somente no sentido do termo medico, mas, no plano da propria historia do individuo, que envolve o social, o cultural, etc. é algo realmente chocante. Esse “morrer para si e para os outros sem ir ao cemiterio”, em que nos transformamos em um recipiente, porem, vazio, me deixou com muitas perguntas. Obrigado, meu caro, pelas palavras.

    • 10/03/2015 at 17:50

      Egisto, eu esperava mais comentários nesse texto. Mas as pessoas estão realmente insensíveis para o que se deve ser sensível. Por isso os ricos batem panelas né? Acho que os pais deles negaram uma bateria, uns instrumentos de bandinha. Então, ser sensível ao que interessa não mais interessa.

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