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20/11/2017

O que ocorre na alma do assassino? Estoicismo versus neoplatonismo


“Sim, eu a matei, mas eu estava fora de mim, aquele não era eu”. Quantas e quantas vezes não lemos ou escutamos isso na imprensa do Ocidente? Quantas e quantas vezes não nos colocamos no lugar do acusado e, pensando profundamente, não achamos que ele está realmente falando a verdade? Não poucas. Mas, enfim, o que devemos pensar de situações assim?

A filosofia tem uma longa trajetória sobre a questão das atitudes que, não raro, chamamos de intempestivas ou irracionais. Oscilamos entre duas posições básicas, que não são nada novas. Uma delas é platônica, muito popular, a outra, que também utilizamos às vezes, é estoica. Lidamos com explicações que remontam a cem anos antes de Cristo é a cem anos depois.

A posição platônica depende da ideia que está na República e no Fedro, da alma tripartite: há a parte racional, há a parte do thymos ou que abriga raiva, coragem, orgulho e sentimentos desse tipo (mais tarde transformados em “paixões”), e existe também a  parte apetitiva (a da fome, sede, sexo etc.). Sendo assim, admitimos claramente o descontrole da razão diante da preponderância da parte timótica, ou das emoções, e então executamos um ato que prejudica outros, e mais ainda a nós mesmos. É por essa via que Galeno, um neoplatônico, explica o comportamento de Medea, a assassina de seus próprios filhos, na clássica peça de Eurípedes. Mas essa mesma peça é citada por Chrysippus, um filósofo de mão cheia e o terceiro na linhagem da escola estoica, e ele interpreta as coisas por outra via. Para ele, Medea não estava dividida ao cometer o assassinato. Estava determinada, consciente, e, enfim, sabendo bem pesar o que seria o ato racional e o que seria o ato por vingança (contra o marido que a havia deixado), optou claramente por uma racionalidade própria: foi contra o que seria o razoável, jogando fora o “instinto materno” e levando a cabo o projeto de revanche. Medea se pôs assim inteira no ato. Não se poderia pensar aí, pela via estoica, em um eu dilacerado empenhando-se no assassinato, mas um eu como um todo, inteiro.

A explicação do impulso para a ação, pelos estoicos, é peculiar. Eles avaliam que um impulso é emoção, mas é também julgamento, ou seja, é um ato racional. A comparação é com o homem que corre, um corredor. Por um impulso interno, da alma, o corredor move suas pernas, e assim as suas pernas entram em ação; elas seguem um curso e, então, ganham passo próprio. Uma decisão de mudar de direção, por parte do centro de decisões (o hegemonikon que fica no coração, e que faz o papel da nossa mente, na psicologia atual), não consegue se realizar, pois as pernas não mudam o passo facilmente. Mutatis mutandis essa é a situação de Medea. Assim, se houvesse por parte de Medea uma segunda decisão (mudar de direção), ou seja, a de não seguir adiante com a vingança, uma tal coisa não conseguiria êxito. O impulso inicial já tinha um plus, chamado de emoção, e impediria qualquer alteração de rota. Medea é o corredor que, se no momento da ação viesse a agir diferente do que planejou e ordenou, já não conseguiria. Ela fala, aparentemente, como quem está dividida. Mas, pela leitura estoica, não é o caso; está por inteira no assassinato, como era para estar quando desencadeou o primeiro plano para o feito terrível.

A via platônica, sabemos bem, conquistou boa parte do Ocidente. O thymos caiu fora da psicologia humana, ficou então somente a dupla razão e paixão. E a ideia de que a paixão atrapalha a razão e nos leva para o campo do irracional, é sempre a explicação mais fácil. Freud se aproveitou do esquema platônico, jogou as paixões para o campo menos visível ainda, o do inconsciente, e criou uma teoria forte da irracionalidade humana. Esta, então, virou algo existente no plano do sorrateiro, algo pronto para agir pelas nossas costas, e ao mesmo tempo capaz de nos desresponsabilizar. Por essa teoria assumimos a ideia de que agimos como agimos não pelo ego, mas a despeito do ego. Mas, em vários momentos quando queremos explicar situações assim, somos obrigados a chamar de volta a teoria estoica e dizer: você, Medea, não esteve dividida, dilacerada, você esteve é acelerada segundo seu impulso com racionalidade própria, o seu impulso que também foi um juízo e uma deliberação. Nada dentro de seu eu, nenhuma uma parte isolada dele a fez agir assim, no atropelo de outra. Você agiu por um impulso que é o seu eu agindo, de modo inteiro. Você é inteiramente responsável. Não há qualquer patologia nisso.

Hoje em dia temos a tendência de, mesmo se usamos os estoicos, deixando de lado a versão platônica da “besta dentro de nós”, criarmos uma medicalização sobre o ato. Dizemos: sim, ele agiu por inteiro, sem se dilacerar, mas isso então, se é um desmentido diante do platonismo, acaba por não ser uma saída completamente estoica, pois junto disso enfiamos a ideia de patologia; um assassino “frio e cruel” é um caso doentio. Ora, Medea dá indicações de que não. Ela está chocada com ela mesma, sabe o que faz, mas faz por inteira, seu eu está disposto a pagar sua dor e seguir com o que vê como uma necessária vingança. Não há nenhuma patologia aí. Nesse caso, se somos quase estoicos para explicar o ato, nos traímos no final e voltamos ao platonismo ao darmos ao assassino o benefício de julgá-lo como um caso de “frieza doentia”. Não conseguimos admitir o mal.

Em todas as novelas atuais o mal é posto como patológico. Bastou uma pessoa começar a ficar má, e ela começa a rir como louca, o esteriótipo domina o personagem. Esse modelo novelesco não capta muito do que fazemos, ele parece ser antes uma construção realmente ficcional demais. Má ficção, ainda que exista aqui e ali no folhetim nacional grandes peças.

Platão e o estoicos tinham de explicar a ação contrária a uma racionalidade que seria própria, mas não o mal; nós não, nós da era cristã e moderna temos de explicar o mal. Não conseguimos, e então medicalizamos. O mal assim é punido com a morte ou com a prisão em manicômio ou coisa parecida. Nisso, nossas novelas tem perdido muito.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 05/10/2016

Foto: Pasolini e Callas no set de Medea, 1969.

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3 Responses “O que ocorre na alma do assassino? Estoicismo versus neoplatonismo”

  1. Raimundo Marinho
    06/10/2016 at 09:17

    Mestre Ghi, obrigado por mais um EXCELENTE e oportuno texto.

    Mestre:
    Há de se falar em auto-engano na peça de Eurípedes ?!

  2. 05/10/2016 at 18:13

    Insisto na questão do poder…a maioria das pessoas possui um natural medo da morte…se você achar que eu posso te matar em uma briga, provavelmente você vai arredar, sair correndo deste confronto…é assim que regimes opressores conduzem as pessoas: pelo medo, o medo da morte….pois bem, percebi que não vai muito com a cara do Freud, mas vamos pensar no Id ante a ausência de Superego, e, portanto, sem Ego…puro Id…melhor: esqueça Freud…vamos simplificar: vamos conceber que, embora diferentes, somos humanos e podemos dizer que todos temos uma estrutura em comum…Agora pegue Nietzsche e coloque nesta estrutura comum a vontade de potência…eis ai a gênese do assassino…talvez, para filosofar sobre o tema, pudéssemos começando a diferenciar entre o homicida que cometeu o crime pela violenta emoção (como se costuma dizer no Direito) e o assassino em série…

    • 05/10/2016 at 18:46

      Não há nenhuma preocupação no texto em explicar o motivo de assassinatos. Por favor, veja lá, leia de novo. O que se está discutindo é sobre ACRASIA.

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