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16/12/2017

Alan Turing sem castração


Um colega contou que presenciou a seguinte cena ao sair do cinema, após ver O jogo da imitação (Morten Tyldum, Estados Unidos, 2014). Era um garoto informando outro de quanto o filme era bom, que contava a história da invenção do computador durante a Guerra etc., no entanto, ao final, alertou: “mas o Alan Turing, o inventor, era viado!” O tom da conversa, no contexto, era este: “Fez uma grande coisa, o Turing, então dê um desconto no filme, já que ele era viado”. Ou ainda, para expor o contexto mais exatamente: “o filme é legal apesar do herói, porra, ser viado!”.

O jogo da imitação não é um “filme gay”. É um filme sobre matemática, guerra, intriga internacional, orgulho e “época”. Turing poderia ser mais um herói que, ao final da Guerra, teve um prêmio ingrato pelos serviços prestados: a destituição do emprego de professor em Cambridge. Com muitos aconteceu coisa parecida. No Brasil, por exemplo, os Pracinhas foram desarmados e a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi dissolvida, isso tudo antes mesmo deles chegarem ao país depois da vitória sangrenta na Itália. (Vargas os temia como uma nova força política formada de heróis). Em dezenas de outros países não foram poucos os grupos e pessoas que receberam só ingratidão ao mesmo tempo que viram os traidores, colaboracionistas e covardes ganharem postos. Mas a história de Turing não cai no lugar comum, não é exclusivamente mais uma história de ingratidão da pátria para com o indivíduo. É muito mais que isso. É a história de um problema cutâneo.

O filme é fiel ao romance (Andrew Hodges) que lhe dá origem e ambos fazem justiça à figura de Turing. Seu suicídio em 1954 não foi por ele ser gay ou solitário ou coisa parecida, mas por ele ser obrigado a se submeter à castração química. Se lidar com hormônios hoje é complicado, imagine nos anos cinquenta. Alan Turing foi “solicitado” a se submeter a processos experimentais que os países livres haviam condenado; processos não tão diferentes dos que haviam sido levados adiante pelos monstros dos campos de concentração nazistas. O estado britânico matou Turing, um de seus mais brilhantes homens. Não conseguiu compreender sua matemática, mas se utilizou dela, não conseguiu compreender sua forma de amor, e tentou exterminá-la. Não foi nenhum estado fascista ou um atual estado islâmico que fez isso. Foi a Inglaterra democrática, ou quase democrática. Nela, o homossexualismo era um delito, um crime.

Só em 2013 a Rainha Elizabeth deu o perdão a Turing, afinal, seu companheiro de luta na Guerra. Sim, a Rainha também esteve na II Guerra, é da mesma geração de Turing. Mas só agora, recentemente, Turing deixou oficialmente de ser criminoso por ter práticas homossexuais, embora os livros do mundo todo se refiram a ele e façam os estudantes estudarem seus modelos e aprender suas ideias sobre matemática e filosofia. Trata-se de um perdão esquisito, porque não é um simples perdão. Vem o ato de perdão e, em seguida, a canonização do herói. Esse tipo de duplo ato é um monumento não à hipocrisia, embora também seja, mas um testemunho de uma ideia que infelizmente, não raro, deixamos passar, e que o historicismo nos ensina: a história é reescrita e, por isso, quando a estamos vivendo, deveríamos saber pensar sobre ela. Uma sabedoria que não poderíamos perder: também a sensibilidade individual e social muda, não só a política, a economia e a tecnologia. Deveríamos ser mais atentos, no presente, a respeito de sensibilidades futuras.

Às vezes não compreendemos um gênio porque ele não é diferente de nós por ser gênio, mas simplesmente porque é diferente de nós. O colega de turma de Turing, por quem ele foi apaixonado, dizia isso para ele: os alunos provocam você não porque você é mais inteligente, mas porque você é diferente. O ódio ao mais inteligente é um ódio de alguns, o ódio ao diferente é um ódio de todos.

Diderot dizia: o talento é imperdoável. Ele tinha razão. Mas a utopia também é imperdoável. Pessoas sonhadoras que querem fazer grandes coisas para todos são diferentes. Pessoas abertas para novas práticas de carinho são diferentes. O mais ousado dos seres vivos é aquele que diz que a pele de cada um pode sentir de diversas formas. As pessoas medíocres não toleram isso. Querem que ao menos a pele seja um uniforme. Eis o imperativo da igualdade intolerante: que nenhuma glândula sebácea de alguém queira ser mais glândula sebácea que a minha. Esse socialismo da mediocridade aplicado à pele é o segredo que faz com que todos os que amam com a pele de um modo diferente sejam rechaçados. O diferente é duro de engolir. Se o diferente é inteligente, então, pior ainda. Contra a inteligência, em toda a sala de aula, sempre existe trinta ou mais medíocres, prontos para serem apoiados pelo professor medíocre, e que formam a cruz do professor inteligente.

Mas o filme sobre Turing também toca outros lados da diferença, que deveriam ser explorados. Um dos lados é o do feminismo, o papel da falsa noiva de Turing. Um terceiro assunto é próprio da filosofia de Turing, a ideia de que só uma máquina poderia combater outra máquina. São assuntos para outro artigo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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6 Responses “Alan Turing sem castração”

  1. 11/02/2015 at 14:38

    Excelente análise. Também tinha ficado alarmado com esta forma de distinguir heróis.

    Uma forma de colocar em perspectiva até que ponto e para quem os aliados foram bons moços.

  2. LENI SENA
    10/02/2015 at 22:23

    Sei bem como é isso, professor!…só não sei direito como reagir a esse tipo de situação. Fico com dúvida na hora entre murro na cara ou uma voadora. É crueldade desmerecer qualquer pessoa pelo o que ela é, mais ainda se essa pessoa faz coisas extraordinárias. É lamentável o que fizeram ao Turing e ainda fazem! Tá assim de débeis mentais que agem igual ao garoto que o senhor citou no início do texto, que vem aqui lhe xingar pelo seu trabalho quando deveriam tá aproveitando pra conviver e aprendendo com alguém fora de série, incrível!…
    O Hora da Coruja sobre Mimimi tá muito bom!
    Abração Paulo

    • 11/02/2015 at 09:33

      Leni o mimimi tá enchendo, não tá?

    • LENI SENA
      11/02/2015 at 12:19

      Ooh…muito!

  3. Marco Antonio
    10/02/2015 at 15:55

    Olá.

    Professor assisti ao seu vídeo a respeito da geração mimimi, algo ficou a dúvida e ambíguo para mim. Quanto a questão de atribuição do termo geração mimimi. O senhor define o portador do mimimi uma geração adulta que tem a intenção de proteger a seu filho sobre qualquer correção seja pedagógica ou moral. Que estar fechada ao crescimento pela tentativa e erro. E que este fato criou a geração atual de pessoas insensíveis que se compreendem de forma diferenciada. E obtêm vantagens sobre o discurso de direitos e legitimidades sociais.

    Mas quanto essa geração atual vítima da outra geração de pais que fomentou mimimi nestes seus filhos. Essa geração jovem que identifica como mimimi qualquer discurso legítimo de reclamação e posicionamento social por conta de injustiça histórica com a exemplo do racismo e a escravidão, a exploração da mulher, a questão ecológica. Que se sustenta sobre um discurso de extrema direita e cunho neoliberal de oportunidades e iniciativa da livre ação do mercado, que desaconselha qualquer reclamação calcado sobre coitadismo e vitimismo sem supostamente compreender a dimensão das questões e se ater a reflexão extensa.

    Para condenar e desautorizar qualquer iniciativa de correção estrutural da sociedade. Não seria esses acusadores o verdadeira geração mimimi., que se impõe de uma arrogância e inatingibilidade da imortalidade como senhor referiu para não se comprometer com problemas de grande complexidade e que tenciona a consciência assentada sobre uma zona de conforto de materialidades?

    Agradeço a inicitaiva.

    Att:

    Marco Antonio.

    • 10/02/2015 at 17:27

      Marco Antonio eu não tenho muita coisa a acrescentar, acho meus textos sobre esse assunto claros e repetitivos.

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