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20/11/2017

Agamben nos ajuda a entender o mau gosto na arte no momento atual brasileiro?


Não há dúvida que quadros de exposições protegidas podem ser ruins. Nem há dúvida sobre o mau gosto estampado em performances que urinam em outros ou que apresentam o nu no invólucro do erro gramatical ou criam crueldades e coisas abjetas gratuitamente (eu disse gratuitamente). Esses elementos da arte – e aqui a discussão não é sobre o que é arte ou não – são denunciados por gente que sabe apreciar a cultura e por gente que, enfim, são simplesmente desescolarizados conservadores, gente da direita política, sobra do neofascismo que vai e volta nas ondas da política mundial. Esses últimos nublam a conversa. Jogam os intelectuais para a defesa da liberdade de expressão de modo rápido, e com isso há um natural impedimento sobre a reflexão do fenômeno do mau gosto.

Podemos sair disso? Há espaço para um professor de filosofia reintroduzir a importante conversa sobre o gosto? Ou até mesmo nós, filósofos, nessa hora acabamos concordando com a bobagem do senso comum, que diz que “gosto não se discute”?

Uma discussão necessária no Brasil de hoje pode ser alimentada pela leitura do primeiro livro do filósofo Giorgio Agamben, de 1970, e que existe entre nós com o título de O homem sem conteúdo (Autêntica). Nesse texto, Agamben secundariza nossa tendência de culpar a democratização dos costumes e do acesso à cultura pela emergência da falta de qualidade que alimenta o mau gosto. Ele não se furta de dizer que o mau gosto data da modernidade, mas retira desse advento a carga excessivamente sociológica. Diz que antes mesmo da democratização o fenômeno do mau gosto, ou seja, a literatura de mero entretenimento, parecida ao que é hoje o que oscila entre o kitch, o pornográfico e o brega, foi um fenômeno presente nas elites aristocráticas, de alta educação. O filósofo italiano diz que “parece que a inteligência, superado um certo limite, tem necessidade da estupidez, do mesmo modo se pode dizer que o bom gosto, a partir de certo nível de refinamento, não pode mais se privar do mau gosto”. Ele fala isso no contexto de sua historicização do bom gosto, do surgimento deste na abertura dos tempos modernos, e então, evocando um certo desenvolvimento dessa situação, cita esse entrelaçamento entre mau gosto e bom gosto.

Ele assim disserta endossando a modernidade vista segundo a avaliação de Nietzsche-Heidegger, como o campo no qual tudo é abraçado pelo niilismo, ou seja, pela desvalorização de todos os grandes valores. Lembra que a ‘pura arte’, a arte tipicamente dos tempos modernos que, chamando pela cláusula do desinteresse, funda a estética (Kant à frente), passa a se justificar e se põe a ser apreciada sem qualquer ligação moral ou intelectual. Fazendo do homem uma apreciador de bom gosto pelo bom gosto, essa arte pode ser apreciada por alguém que é um crápula, e que ao olhar para si mesmo não encontra nada senão uma falta de conteúdo, e se ainda consegue alguma identidade para seu eu,  o faz por reconhecer-se como um homem de bom gosto. É justamente na emergência do bom gosto que se isola, que ele também se eleva ao limite e pede a companhia do mau gosto. Todos nós que somos educados de modo exagerado, inclusive educados no campo da apreciação artística, hoje podemos nos pegar acompanhando um clássico do teatro ao mesmo tempo que nos deleitamos com um programa de TV a la Chacrinha ou coisa pior. Só os não educados negam que gostam do que é de mau gosto. Os altamente educados não se envergonham nem um pouco de falarem que gostam do filme B ou de qualquer outro lixo. A ideia do “virou cult”, que nos anos de 1970 Agamben não podia invocar, é hoje uma regra. Pode-se recuperar Odair José em revival e dizer “virou cult”. Com isso, a pessoa amoral de ótimo bom gosto consegue conviver com o mau gosto que a atrai inexoravelmente.

Se olhamos as coisas pela análise de Agamben, podemos entender em que momento desaparece o arrependimento dos grandes artistas em defenderem a arte, seja lá se ela é arte ou não, ou seja a arte que é arte por nossa condescendência para com o mau gosto. A desculpa de se estar defendendo a liberdade de expressão, e não a arte ruim, nem precisa ser evocada. Pois o homem de bom gosto, realmente sofisticado, já se acostumou a ver no valor da arte algo que não nos toca tanto, e que portanto seu mau gosto, que o cativa, pode ser demonstrado. Estamos bem longe da cidade de Platão, que temia a arte. Hoje a arte nos impacta bem menos. Por isso, podemos cultivar o nosso bom gosto, se o temos, junto do mau gosto que se faz necessário em nossa época. Não sentimos nenhum perigo em ter de defender o lixo, pois de fato ele conta tão pouco quanto o não lixo. A arte não nos impacta como impactou a sociedade pré-platônica, platônica e, de certo modo, a de Agostinho.

Se pudemos pegar essa via de reflexão, talvez possamos entender, para além da discussão rasteira entre direita e esquerda na política, o quanto estamos em convívio com a modernidade nesses pequenos episódios que nos jogam para a questão de escutar aqui e ali pessoas que só tem mau gosto, e que são deseducadas, aparentemente defenderem o que seria de bom gosto na arte, e que nós os educados sabemos o que é. Isso explica, também, a tranquilidade com que no MASP, eu pude ver na exposição “Histórias da sexualidade”, quadros de Picasso junto com os quadrinhos de Carlos Zéfiro.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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