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18/11/2017

Agamben e Sloterdijk: homo sacer e mimologia


 

“Dasein ist design” 

Bruno Latour enunciando princípio de Sloterdijk

Em Esferas III Peter Sloterdijk faz um paralelo entre as Grandes Instalações (Ilya Kabakov), postas nas galerias de arte na atualidade, e os sistemas totalizadores. Cita então a ideia de Agamben de tratar a modernidade como um sistema totalizante cujo modelo é o “campo de concentração”. Põe na mesa também o seu próprio modo de falar de “invernadas”. Mas há mesmo um paralelo nesses casos?

Em Sloterdijk a “invernada” diz respeito a um espaço de mimo, sem o qual não teríamos o homem, quando olhamos pela perspectiva antropológica, e sem o qual não teríamos a modernidade como uma época em que o estado pode se colocar como uma espécie de mãe sobressalente, uma ama-seca. É nesse sentido que Sloterdijk vê a arquitetura se direcionando para a uterização, a construção de lugares de moradia que lembram o útero e que funcionam como ele. São espaços de imunização, cuidado, capacidade ampliada de mimo. Lugares da pós-história. Nenhum evento dentro deles, que pareça estranho, é mais que uma pequena disfunção doméstica, que pode ser tratada como a troca de uma lâmpada na habitação. A história fica do lado de fora. Ela ocorre no âmbito dos que batem à porta da invernada e que também querem ter lugar no espaço de mimo. A Europa e a América são espaços de mimo. A história do homem é a história da luta pelo mimo. É isso que está nas conclusões de O Palácio de Cristal e no Volume III das Esferas.

Sloterdijk tem razão em chamar a atenção para a obra de Agamben. O filósofo italiano é um continuador de Foucault, como ele próprio assinala, em Homo Sacer.

O que é a figura do homo sacer? Ele é aquele elemento sagrado que não é sacrificável, mas que pode ser matado. Quem o matar estará livre de ter cometido assassinato. A possibilidade dessa situação se baseia na distinção entre a vida como zoé e a vida como bios. O segundo termo diz respeito à vida social e política, o primeiro à vida nua, ou seja, a vida biológica. O homo sacer é aquele que é reduzido à vida nua, zoé, e que é como o bandido proscrito. Tudo lhe é tirado e ele cai fora da sociedade. Torna-se literal e metaforicamente um fora-da-lei. Assim, não tendo mais via como bios, só zoé, pode imaginar que está livre da lei já que está fora dela. Sim, está fora da lei, mas, portanto, pode ser morto, já que nada é como bios. O que lhe resta ser tirado é o que ele é enquanto o que lhe restou, zoé. O homo sacer é o homem moderno. Pois ele assim se mostra à medida que a modernidade é a época da biopolítica, ou seja, a época, mostrada por Foucault, como aquela na qual nós todos passamos a contar não como elementos sociais e políticos, mas como quem tem vida com não política para, então, ter vida política. A modernidade nos conta como os que têm saúde e doença, os que são tomados como os que possuem nascimento e morte, como os que podem trabalhar e os que não podem, no vê como os que têm corpo posto sob a disciplina para a produção e quem não tem esse corpo etc.

A vida nua entra em jogo para o melhor e pior. Desse modo, se nasce aí o Estado de Bem Estar, nasce também a vida posta como zoé como o que adentra também a política. A própria vida nua se transforma, então, no único valor, dado que é posta como último (ou primeiro) valor. A vida no campo de concentração é isso: ela é exclusivamente zoé, vida nua. Nela o que é vida é a ausência de relações sociais. Para o prisioneiro que apenas escuta seu coração bater, e que já não sente diferença entre a humilhação ou a dor causada pela SS ou pelo frio intenso. Não nos vemos assim no Estado de Bem Estar e, por isso, alguns leram o livro de Agamben de um modo inconveniente, como um livro “sensacionalista” (Marcelo Coelho, na Folha, assim fez). Mas estamos assim na modernidade, pois o que se deve entender é que o estado moderno nos toma só como vida nua.

A vida nua na modernidade é anunciada pela biopolítica como o que instaura o regime moderno. Mas, na linguagem de Sloterdijk, pode ser o espaço fechado, que busca a uterização, para qualificar um espaço de mimo. Aliás, no útero, também a vida ali existente é a vida nua. Zoé e não bios. Quando atentamos para isso, notamos então que Sloterdijk e Agamben, com exemplos extremos e aparentemente opostos, estão falando mais ou menos a mesma coisa. Tomemos Sloterdijk e Agamben fundidos: o campo de concentração funciona como um útero que repentinamente começa a perder líquido amniótico. É a modernidade nas suas formas duras. Uma visão aparentemente menos dura: o espaço de mimo funciona como um útero que possui líquido amniótico, mas que em alguns momentos é obrigado a receber mais um bebê inesperado.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo

Kabakov’s Moscow Conceptualism

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