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27/05/2017

Afinal, de onde vem os filósofos?


Deparei-me com a filosofia mais cedo do que o comum. Tudo empurrava para tal. Quando me dei por gente os anos sessenta (os Sixties!) estavam se iniciando e tudo que era sagrado estava se tornando profano. Tudo que não era regra estava pedindo para ser posto no mesmo status do que regrava o mundo. Não somente isso, mas também a enorme biblioteca do meu avô me abria as portas para o demônio. A desgraça do “ó proibido proibir” estava nos muros. Pior, estava nos livros!

Essa biblioteca foi a coadjuvante da minha boa escola pública – um presente para cada um dos da minha idade, dado por uma sociedade que tinha como objetivo integrar todos na educação de qualidade para construir uma grande democracia. Este era o ideal dos anos cinquenta que sobrou para os anos sessenta, ainda que meio chamuscado por uma ditadura imbecilizante.

Envolto na sensualidade dos seios da negra Berenice e diante de mudanças tecnológicas que faziam até nós (a classe média tida como elite intelectual no local que vivíamos) passar a não beber mais água de poço de quintal, eu vi a filosofia cair não em minhas mãos, mas na minha cabeça. Mas eu sabia bem que quanto mais se santificava na minha frente, mais esta tal senhora, a Dona Filosofia, mostrava a ponta da cauda na barra da saia comprida. Fugi disso.

Afinal, se a filosofia, como disseram Platão e Aristóteles, começa com algo um tanto maravilhoso, que causa espanto, eu fiquei logo espantado. Espantei-me. O espantalho colocou o passarinho para correr.

Filósofos que fogem da filosofia são os mais perseguidos. A filosofia os persegue e se vinga. Não deu outra. Então, fiz o caminho da filosofia com andando de lado, como caranguejo, e também de cima para baixo, como sonda que busca petróleo. Quando ela acha, sai banhada em ouro negro. Fiz filosofia no ensino médio, num curso de “ciências humanas” que “inventei” para a minha escola, que acolheu a ideia. Depois, comecei-a de modo mais sério por mestrados e doutorados para, enfim, bem mais velho, fazer a graduação – nisso percorri tudo de bom como estudante: UFSCar, PUC-SP, USP, Uerj e Mackenzie. Cada diploma representou para mim um ganho intelectual sério, não um papel. Tornei-me filósofo pela formação escolar e ao mesmo tempo por conta do daimon interior. Sim, essa voz nunca foi outra coisa que o diabinho maluco que acabou vencendo a parada. O gênio da própria filosofia, talvez a mulher esfarrapada de que nos falou Boécio, que lhe apareceu na prisão.

Esquerda e direita para mim sempre foram posições políticas, nunca filosofia. Mesmo quando o filósofo posa como filósofo político ou mesmo quando circunstâncias o obrigam a se por como pretensa e pretensiosa consciência de seu tempo e lugar, ainda assim, isso é da sua tarefa e não da sua missão. Política é política, filosofia é filosofia. A vida é maior que a política. A frase “tudo é político” é uma bobagem e o filósofo sabe disso. Qualquer moça ajuizada sabe disso. E que se saiba das moças: perder a virgindade, mesmo no passado, nunca criou juízo.

Mas a filosofia dos filósofos atuais tem alta consideração pela polis transformada em cidade e local de poder, e não mais comunidade grega. Não raro, portanto, se põe também como alguma coisa que diz algo sobre esquerda e direita. Prefiro dizer assim, às vezes: falamos sobre conservadores e não-conservadores. E nisso, tenho de afirmar: não existe filósofo conservador, em sentido estrito. Ou melhor dizendo: um filósofo conservador é o mesmo que um cometa sem cauda. É cometa, mas ninguém pode levar a sério. Mas isso não significa que deva existir filósofo progressista!

Os filósofos que dizem que são conservadores ou que posam assim estão apenas dizendo que não sabem pensar. Um conservador pode brincar de filosofia, mas não a faz, e se a faz, suas melhores teses só vão adiante quando reconstruídas pelo não-conservador. O pensamento é movimento de lançamento de pseudópodes gulosos que tornam cada alimento buscado a isca para que o faminto vá além e, então, se imagine capaz de aportar no impensável. Esse tipo de atividade não tem como ser conservadora. Ela é mudancista por natureza. Por causa disso os filósofos conservadores acabam por enterrar a filosofia, deles não sai nada senão a confissão de que fracassaram e estão requebrando para dizer que não. Volto a dizer: se o antídoto disso é o dito filósofo progressista, então, por esse caminho, teremos de falar que não há filósofos.

Sempre fui um filósofo não-conservador porque não havia como ser filósofo senão sendo um pensador.

Percorrer o caminho do aprendizado da filosofia dependeu, para mim, do que ocorreu com outros, os grandes do passado. Tornar-me filósofo: isso foi participar de confrarias filosóficas, do movimento social e das práticas sociais além de poder ler e me familiarizar – com disciplina e técnica ensinada por bons mestres – com todos que participaram da invenção de Platão, esse gênero literário chamado filosofia. Investigação conjunta, em especial aquela que desbanaliza o banal. Assim fiz meu modo de filosofar. Foi ele que me fez ir de Sócrates aos frankfurtianos e a Rorty e Davidson e deste a Sloterdijk, isso sem desconsiderar todos os outros grandes, principalmente os “mestres da suspeita”: Marx, Nietzsche e Freud, na consagração dada a eles contemporaneamente por Paul Ricouer. Afinal, estudar filosofia é deixar-se apaixonar por cada pensador de modo a, depois de uns tempos, pular uma cerca noturna aqui e ali, buscando amantes proibidas, isto é, outros filósofos, que se tornarão esposas, e assim sucessivamente.

A filosofia é um casar e um descasar quase contínuo. Por isso os conservadores não conseguem fazer filosofia. Eles nunca descasam, nem para isso possuem coragem! Os conservadores criam barriga. Banha. Como podem pensar com excesso de carboidrato e proteína demais atrapalhando sinapses? Não dá.  Hitler e Stalin como suas SS e Burocracias foram mostras modelares desse impeachment de sinapses. Mas não é necessário chegar ao nível deles para já se mostrar incapaz para a filosofia.

A regra básica disso tudo, para a formação do filósofo, é nunca deixar de aprender. E o aprendizado se mostra por mudança de linguagem, hábitos, atitudes e, enfim, pensamento. Isso me foi dado como instinto. Fiz dois mestrados e dois doutorados, livre docência e tese de professor titular para só então fazer a graduação em filosofia. Ao fazer a graduação em filosofia aprendi com os então meus colegas, tornado meus professores, por que eu não havia me feito, como os jovens e sabichões fazem de si mesmos, um conhecedor do que não se conhece. Sempre quis ser um conhecedor do que eu ainda não conhecia. Sempre gargalhei ao ver as mulinhas que diante de um novo pensamento, após algum tempo, o absorviam torto para reiterar o que já haviam reiterado antes de ter o novo em mãos. O novo não é sagrado por ser novo, mas é profano por ser profanável, por obrigar-nos à profanação.

Redescrever é a atividade do filósofo e para tal ele precisa investigar abertamente e levar adiante as “experiências com o pensamento”, o que não se faz sozinho. Investigar o que todos veem e também enxergam é a atividade divina do filósofo. O filósofo não busca o escondido muito menos desvenda coisas nas sombras. O filósofo investiga no campo do mais iluminado, práticas já iluminadas e vistas, pois são práticas da rotina, do cotidiano, do banal.  Parte do investigar é, não raro, criar mais e mais narrativas e fazer experiências com o pensamento e com a linguagem ao adotá-las por um tempo. Ora, os conservadores possuem enorme dificuldade nisso tudo, pois uma tal atividade está sempre bem longe da direita política, que se define por já saber tudo e sempre apresentar a mesma solução para tudo, quase que imitando uma esquerda carcomida pela militância.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Revisto com 59.

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12 Responses “Afinal, de onde vem os filósofos?”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    08/12/2014 at 15:34

    PAULO
    Diante de sua bela declaração de amor à Filosofia, permita-me observar que, de acordo com seus argumentos, todo verdadeiro filósofo seria heraclitiano. Já os conservadores, sem o mais leve aroma político, seriam todos apenas parmenidianos.
    Ou não?
    Valmi Pessanha.

    • 08/12/2014 at 16:12

      Valmi não tem nada a ver, acho que você não pegou bem o que Parmênides falou. “O que é é” – ou seja, é pelo caminho “do que é” que caminham nossas pesquisas, não pelo que “não é”. Com pesquisar (pensar) um … nada? Sacou? O pensamento não para de se movimentar seja no logos heraclitiano seja no parmenídico. Meu Deus! Por favor Valmi!!!

  2. Roberto William
    08/12/2014 at 11:32

    Paulo, não entendi. Como é possível vc começar pelo doutorado? Pelo jeito vc tinha graduação em outro curso certo? Vc fez “pos doc” também, neh? Mas em fim, não entendo muito sobre essas escalas acadêmicas, por isso achei estranho vc dizer que começou por cima. Não estou duvidando do que disse, só não me ficou claro isso.

    • 08/12/2014 at 13:54

      Roberto, existe no meu blog e em no Lattes o meu currículo!

  3. Kleber
    06/12/2014 at 21:29

    Paulo, tudo bem. É sempre um prazer ler os seus textos aqui e nas redes sociais. Tenho uma pergunta. Já tenho duas graduações, mas quero me graduar em filosofia também (amo esta área) e para isso vou prestar a Fuvest o ano que vem. Você tem mais alguma sugestão de universidade que seja boa e gratuita? Obrigado.

    • 07/12/2014 at 00:29

      As universidades públicas sempre possuem alguns professores bons, que seguram as pontas. Meu filho está terminando a Unesp de Marília. Em São Paulo há duas públicas.

  4. Lucas
    06/12/2014 at 19:54

    Paulo, o que recomendas em relação à bibliografia para iniciarmos na filosofia?

    Estou com a obra A consolação da Filosofia , de Boécio. O que pensas a respeito?

    Grato.

    • 07/12/2014 at 00:28

      Lucas filosofia se inicia com participação em uma confraria de filósofos. Na falta de uma, como é caso atual, fazemos a universidade. É o certo. Para começar a conversar sobre o assunto pegue meus dois volumes de A aventura da filosofia (Manole). Venha para as atividades do CEFA

  5. Henrique
    06/12/2014 at 17:16

    Paulo, é possível dar educação de qualidade para uma população muito maior hoje do que na sua época de criança ou jovem?

    • 06/12/2014 at 18:42

      Henrique não entendi sua pergunta. Você acha que orçamento brasileiro da minha época de criança era igual ao de hoje? Que o PIB era o mesmo? Você acha que o Brasil cresceu de problemas sem crescer os recursos?

    • Henrique
      06/12/2014 at 23:05

      Os governos falam que não há dinheiro para gastar com tanta gente. Tem a lei de responsabilidade fiscal.

      Eu gostaria de viver num país com Estado social forte, com boas escolas públicas, mas a verdade é que não temos essa escola inclusiva para dar conta de todas as demandas sociais. O Brasil é um país de poucos.

    • 07/12/2014 at 00:26

      Henrique você está errado. Temos sim, há escola para todo mundo. Construída. Funcionando. No Brasil NÃO falta escola. Falta salário para o professor.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo