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24/04/2017

Por que não podemos adotar crianças indesejadas?


O caso é simples, e infelizmente corriqueiro. A moça foi presa por abandonar o recém-nascido na rua. Já é mãe, não podia ter outro filho. Empregada doméstica no rico bairro de Higienópolis, em São Paulo, ela escondeu a gravidez e deixou o bebê na calçada, com medo de perder o emprego. A patroa conviveu nove meses com a moça, sendo servida por ela diariamente, e não percebeu a gravidez. (Não é fantástico?!).

Claro que no momento que a polícia prendeu a moça, não faltaram comentários pedindo a desgraça da mãe. Caso o Brasil tivesse o apedrejamento público, certamente não haveria escassez de campeões de misoginia para comprar estoques de pedaços de mármore. É aquele velho time, que conhecemos desde o tempo de Jesus, da historieta do “atire a primeira pedra quem não tem pecado”. Esse time não descansa há séculos. Tem mais torcedores que o Flamengo e o Corinthians juntos.

As feministas, por outro lado, trataram de inverter a seta, dizendo que a sociedade se preocupou com o bebê, mas não com a mãe. Afinal, abandonada pela sociedade foi ela, antes do bebê. A sugestão aí, a respeito da descriminalização do aborto, se não aparece explicitamente em algumas declarações, noutras está nas entrelinhas. É a compra de pedaços de mármore por parte do time de Herodes. Ou pedra do chão mesmo, distribuída aos justiceiros de sempre, mas agora, de esquerda. Não sabem que o fim do infanticídio e´uma conquista moderna, que a possibilidade do não-aborto é um ato moderno. As sociedades antigas precisaram oficializar o aborto, fomos nós, modernos, que oferecemos condições para colocar no horizonte o fim da punição dos indefesos.

Mas, será que a esquerda só pode ter uma única ideia? Ou parte da esquerda só tem uma única ideia mesmo? (ou duas: taxar ricos e abortar, parece que é isso, de uns tempos para cá, as duas únicas coisas que uma mentalidade de esquerda pode oferecer! Que limitação de sinapse! Que pobreza neurônica!).

Há uma diferença, além das de classe e gênero, que é a do adulto diante do não-adulto. Mas um certo feminismo não consegue compreender isso e faz da mulher o que a sociedade realmente já fez: a mantém como a criança da relação mãe-filho. Quando um sem-teto está na rua e acolhe um cachorro e o alimenta, isso é perceber-se adulto diante do indefeso. É isso que se espera dos adultos, inclusive das mães. Se por um lado há uma sociedade em que esse peso é horrível, um lugar que eu já chamei de ditadura do amor (a direita ficou puta comigo), há também o lado, ainda correto, consagrado entre as democracias liberais, sobre a responsabilidade para com os mais fracos, os indefesos.

O Brasil não precisa pensar apenas na questão do aborto, ou seja, do que é, para muitos, mero assassinato. Pode e deve pensar também em como criar leis de fácil adoção de bebês recém nascidos. Há mulheres que querem entregar filhos. Não são monstras, mas se apavoram diante da solidão, agravado pela chamada “depressão pós-parto”. Ma, sabemos, os indefesos possuem pais potenciais na fila de espera. Há como fazer isso, inclusive com um tratamento de acompanhamento conjunto entre os que vão adotar e os que vão doar. Há países em que isso é feito. No Brasil há casos de mães que adotam a filha menina do casal cigano, com acompanhamento prévio, de nove meses. Podemos e devemos desburocratizar esse processo, pois há mais gente na fila para adotar do que se imagina.

Já passou da hora de ficarmos entre o aborto e o “deixar na roda” para então culpar a mãe. Não há mais “a roda”, o lugar do qual vinha o som noturno para as freiras que, enfim, se aprontavam então para a missão de buscar os enjeitados. A roda agora é mais perversa, é o lixo, a sarjeta. E para a mãe, a prisão. Vivemos isso, a apoteose do completamente irracional, pois temos essa solução da adoção. Ter à mão uma outra solução, fácil e cumpridora dos nossos deveres para com a democracia liberal, nosso ethos, é algo mais correto e já deveria ter resolvido em boa parte esse drama.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS. Não posso remeter o debate do aborto para o campo da decisão sobre o “início da vida”, encontrando a data em que há “ser vivo” com direitos ou não. Essa discussão é metafísica. Boa para aula de filosofia, péssima para o bebê a a mãe, que precisam de solução política. A metafísica discute e discute. Precisamos dela para pensar. Mas, nesse assunto, ela não tem como fornecer solução. Ela apenas mostra que a solução é política, uma vez que a filosofia chega sempre no impasse. É uma tolice acreditar que é possível fixar uma “data para o aborto” ou “data para o assassinato”. Uma boa parte dos médicos que são contra o aborto, não o são por questões religiosas, mas por ensinamento científico: datas de admissão da vida e de saída da vida são históricas, mudam.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo