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23/04/2017

Adorno, um conservador – uma visão a partir de Rorty e Sloterdijk


Theodor Adorno nunca foi outra coisa senão um conservador. Não só em matéria de música ou quanto a outros elementos culturais, mas filosófica e sociologicamente falando. Ele foi conservador em um sentido muito especial e específico.

Sou um admirador de Adorno e, por isso mesmo, entendo perfeitamente o que Peter Sloterdijk diz, no Sphären III (cap. 3) (2006). A velha Teoria Crítica exerceu um “conservadorismo esclarecido” ou, então, um “pessimismo de quem se salvou”. Para dizer algo assim, Sloterdijk cuida, previamente, de também afirmar que é necessário antes deixar de lado algum impacto utópico do trabalho de Adorno, e também desconsiderar um pouco sua sempre lembrança, nitidamente romântica, da infância mimada, talvez recuperável. Mas, no grosso, fora isso, Adorno sempre rodeou a tese do homo pauper. Ou seja, o homem está na miséria e a ela sempre voltará, isso quase lhe é, mesmo, uma situação natural, ou então, o retrato correto da condição humana.

Essa visão de Sloterdijk me faz entender melhor uma avaliação, a respeito de Adorno e de seu amigo mais velho Horkheimer, vinda de Richard Rorty. Este, por sua vez, avaliou que o trajeto da “Dialética do Iluminismo” estava correto ao mostrar como que a positivização sempre funciona como uma escada rolante, com degrau que engole degrau, na declaração típica da Teoria Crítica: o antecessor é que ainda está ligado ao mito, e que é mais recente, e que lhe faz a crítica, também será acusado de ser um mito, e eis aí a história da cultura ou “dialética do Iluminismo” ou, ainda, “dialética do Esclarecimento”. Assim, num processo sem fim de desmitologização, todo o Iluminismo acaba por não ter fundamento último. Ele se faz crítico como ironicamente crítico, digamos assim. Nisso, Rorty não tinha nada a objetar. A objeção de Rorty era quanto ao pessimismo de Adorno e, portanto, quanto ao seu lado conservador. No seu Contingency, irony and solidarity (1989), que se distancia do Sphären em 17 anos, Rorty afirma que Adorno e Horkheimer não precisavam ter abandonado a política liberal, associada ao Iluminismo, só porque este, em termos filosóficos, havia deixado de poder se apresentar como legítima base fundacional daquela. Em outras palavras, Rorty solicita, nesse seu livro, que os adeptos da Teoria Crítica atuais viessem junto com ele no projeto de se tornarem intelectuais liberais ironistas, aqueles que podem defender causas liberais justificando-as, mas sem nenhum gosto em fundamentá-las metafisicamente ou por meio de um grande metanarrativa. De modo grosseiro: é possível ser liberal, ainda, mesmo que a tese que diz que a natureza humana é disposta à política liberal tenha se deslegitimado.

A noção fornecida por Sloterdijk é complementar a essa crítica de Rorty à Teoria Crítica. São coisas distintas, mas elas traçam o recorte do Adorno conservador. Rorty dá os sintomas, Sloterdijk indica as causas, nessa clínica em que o paciente é o velho filósofo alemão. Adorno podia até se desgarrar dos fundamentos. Caso estivesse vivo nos anos oitenta, talvez pudesse aderir ao chamamento de Rorty – bem mais do que Habermas que, enfim, nunca aderiu por completo, ainda que tenha mudado após certas leituras de Dewey (tornando-se quase um pragmatismo peirceano-deweyano). Todavia, isso não nos daria muitos intrumentos para entender Adorno, como é o caso se observamos o que diz dele Sloterdijk.

Penso que a argumentação de Sloterdijk pode nos conduzir a dizer que Adorno, talvez como o conservador Arnold Gehlen, foi um homem da “Internacional Miserabilista”. Talvez Adorno nunca tenha visto no homem outra coisa que não aquilo que Herder deu para Gehlen, a tese da condição humana como sendo a condição miserável, mas numa versão laica, e não na velha e conquistadora versão da releitura cristã do episódio do Pecado Original e da Queda. Para muitos intelectuais, diz Sloterdijk, a questão é sempre a mesma, a do relato bíblico: se estamos onde estamos, aqui no mundo, e não estamos em lugar melhor, só pode ser porque decaímos. A miséria humana é antes de tudo mais humana que miséria. Fora Lúcifer e seus comparsas, sempre ciumentos de Deus, há o homem, aquele que decaiu, que vive na miséria, que nasce e reproduz o pecado original, e que por mais que faça, nunca será rico e próspero por natureza. Ao homem cabe riquezas aqui e ali, prosperidades fugazes, mas sua condição é de pecador, decaído, reiterador do pecado e de sua miséria. Miséria antropológica, homo pauper, e então também miséria espiritual, cultural, erótica etc.

Gehlen viu algo de maravilhoso que incorporou na sua teoria antropológico-filosófica. Ele agarrou para si a tese biológica, dos anos vinte, da neotecnia. O homem veio de um hominídeo que trouxe, pela evolução, traços infantis morfológicos e psicológicos, para o indivíduo adulto da espécie. O homem é sempre o não pronto, não acabado. Mas, nesse caso, faz diferente de Sloterdijk, que apanha a neotecnia associada à tese do isolamento de grupos, condição esta que deu às progenitoras uma invernada, uma estufa de tranquilidade para cuidar da prole, inclusive dos nascidos mais jovens (o homem é sempre um aborto), para fazer da cria uma uma infância. Em Sloterdijk é assim que neotecnia funcionou. Não para Gehlen. Com ele, a neotecnia vem sem essa conversa e, então, ele endossa a tese do homem como o que nasce pobre, sem recursos, aquele que perto dos outros animais é o menos preparado, e tem então, por apoio sucessivo de aspectos culturais (e não na sequência biológica e simbólica da invernada) e, por isso, de trabalho duro na vida miserável, sair da condição de ser-de-carências. Nunca sairá. Mas, de vez quando, deixará todos os males maiores do pecado original, e poderá viver bem alguns momentos. Poderá se desonerar em forma de comunidades subversivas de artistas livres, mas isso nunca deverá ser o comportamento dos “muitos”. Estes, sempre serão conduzidos pela disciplina, pelo trabalho, pela labuta diária para suprir a condição de ser de carência.

Sloterdijk vê  o homem não como ser-de-carência, mas ser rico. A neotecnia produz o hominídeo rico e o homo sapiens mais rico ainda. Nada como ser alguém que vai eternamente poder aprender, que irá manter traços jovens até mesmo na sua condição adulta. Ora, notando isso, é fácil perceber como o homem é o mais dotado da natureza. A tese do homo pauper se esvai diante da argumentação que se aproveita da neotecnia de Gehlen, mas alterada pelos elementos que explicam a evolução no isolamento e na invernada. O conservador Adorno jamais endossaria tal tese. Ele poderia endossar o modo da neotecnia de Gehlen, jamais o de Sloterdijk.

Sendo assim, Adorno não tem um teoria para a sociedade da abundância. Quando ele, junto com Horkheimer, produziu os textos relativos à interpretação da “Dialética do Iluminismo”, a sociedade da abundância e o individualismo que hoje conhecemos não estavam em voga. Ao contrário, o individualismo se apresentava para ele, então, como uma perda, algo que a “sociedade administrada” e o “capitalismo tardio” haviam destruído, ou então eliminado a possibilidade. Adorno tinha uma utopia de regresso. Seu mundo correto era o mundo ideal de um tempo da sociedade capitalista em que a sociedade de massas não havia aparecido. O mundo de hoje é de uma sociedade de massas, sem dúvida, mas, como Sloterdijk coloca, também estamos naquela sociedade que põe o indivíduo como se vendo como mais real que tudo o que está ao seu redor. Sociedade de massas e individualismo se casam hoje em dia.

O indivíduo hoje é absoluto. E resta a ele, mesmo se vive em lugares mais pobres, a cultivo do modo de vida da sociedade da abundância, que lhe dá pelas horas de folga o imperativo de divertir-se, consigo mesmo ou com outros. Se há mais horas livres e mais tempo para ser jovem nos países ricos, isso não quer dizer que, nos países pobres, a febre dos ricos não esteja presente como o querer de todos. Assim é que muitos aprendem a se divertir no trabalho. Assim é que a sociedade dos jogos e da ludicidade vazia se insere no próprio trabalho. Assim é que a gincana (Big Brother) e o programa de Show de auditório se tornam formas de treinamento de mão de obra em empresas. Aquilo que antes, no Senac, se chamava “curso de melhoria das relações no trabalho”, hoje é o próprio curso de treinamento do trabalho. Tudo que fazemos no trabalho tem que ser mais ou menos parecido com o que fazemos em casa. As empresas ligadas à Internet não nos deixam mentir. Elas são o trabalho incrustado no que seria o lúdico e vice-versa. Ninguém quer sofrer. Ninguém quer sair do útero para reconstruí-lo melhor, todos querem viver de imediato nele reconstruído. Ninguém que viver fora do conforto, que é vendável em graus. A escola é também atrativa ou não é escola. Mas, ao mesmo tempo, análises sobre essa situação, continuam hegemonicamente sendo as de Adorno, Gehlen e de do sofrimento necessário cristão. Não se pode admitir que é rico e analisar a riqueza, a opulência e o problema da riqueza. Ninguém pode admitir novos paradigmas que digam que somos ricos, que há uma grande classe média no mundo que é muito parecida entre si e muito grande, que o conforto pedido existe realmente ou então se faz como estilo e prática de quem não o tem, e que tudo isso é sim problema, e que tais situações não dizem respeito ao que se resolve com o tal “fome zero”, com “o mínimo”, porque as coisas do mundo atual são mais complexas.

Nesse sentido, Adorno é um conservador. Muito do discurso sociológico que ele endossou pertence à verve conservadora. Muito do sociologismo militante é lamuriento. E outros que poderiam sair disso, não saem com medo de que, admitindo não existir o homo pauper, possam vir a ser tomados como cínicos. Ora, admitir que a abundância, a riqueza, o individualismo merecem novas formas de analisar o mundo e que, tais novas teorias, são para analisar essas mesmas situações da opulência, parece não entrar de modo algum na pauta dos intelectuais, que continuam sempre acreditando em formas laicas de ver o homem no Pecado Original e na Queda.

Adorno nunca foi capaz de admitir uma sociedade leve. Viveu na “insustentável leveza do ser”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Escrevi Para ler o Dialética do Iluminismo de Horkheimer e Adorno (Manole, 2010).

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6 Responses “Adorno, um conservador – uma visão a partir de Rorty e Sloterdijk”

  1. 12/11/2015 at 10:38

    Texto muito interessante e enriquecedor, gostei muito da ideia de que “Adorno tinha uma utopia de regresso”, mas fico com minhas dúvidas se o termo ‘conservador’ faz algum sentindo frente ao todo da obra deste pensador alemão e não só frente a questão do homo pauper. Até porque o termo ‘conservador’ seria adequado para se opor ao termo ‘liberal’, de fato Theodor Adorno nunca simpatizou com o liberalismo, mas se quiséssemos colocar um rótulo político nele não ficaria longe de algo do tipo ‘marxismo crítico’. Além disso, a semântica da palavra ‘conservador’ nos aponta para alguém que quer conservar algo, daí eu pergunto, o que exatamente Adorno queria conservar? A decadência? A miséria? A Semicultura? Definitivamente não, creio que toda visão negativa a adorniana não nos permitem colocá-lo na prateleira dos conservadores. Porém creio que a Adorno cai no erro do culturalismo eurocêntrico que fica claro em muitos de seus textos, onde além da crítica à indústria cultural ele contrapõe cultura (no sentido clássico) e halbbildung, também sua crítica à Verflachung e as diferenças entre aquilo que ele considera esteticamente com arte autônoma e heterônoma. Adorno talvez tenha criado um asco ao leve, uma insensibilidade frente aquilo que você chama de “sociedade da abundância”, ou até mesmo uma incapacidade de ver a importância da lúdico, do ócio e até mesmo do entretenimento asséptico no novo modelo de vida que se configurava após a Segunda Guerra mundial, mas lhe considerar um conservador? Preciso ler mais, pois ainda não estou pronto para isso.

    • 12/11/2015 at 11:18

      O texto dá o serviço sobre o termo conservador. Não é necessário ir além do texto. Adorno é um passadista e, diante do novo, um conservador. Claro, o que seria, um adepto do progresso?

  2. Micaías Souza
    11/11/2015 at 22:29

    Entendi. Obrigado Paulo.

  3. Micaías Souza
    11/11/2015 at 19:56

    A questão do homem como indivíduo que é fruto do ” aborto” e não do nascimento, de Sloterdijk, teria relação com a questão da queda, na Bíblia, e na mitologia grega, principalmente sobre o mito de Prometeu? Em que sentido a questão de Sloterdijk não é a mesma nostalgia da consciência que aparece no mito judaico-cristão e na mitologia grega?

    • 11/11/2015 at 20:29

      Não, aborto é no sentido que nascemos muito antes de estarmos prontos.

  4. Matheus
    11/11/2015 at 18:50

    Esse tema merece um hora da coruja…

    Tentarei reler esse texto, não conheço Gehlen ou as opiniões de Peter S. e Rorty, então precisarei reler com bastante cautela…

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo