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30/04/2017

Adorno, o filósofo que não ria


Para Adorno o sorriso podia não ser complicado, mas o riso, a gargalhada, sem dúvida era algo vindo de quem humilha e cultiva o escárnio. No seu sensacional livro Mínima Moralia, para o qual ele mesmo deu o nome de “ciência triste” ao oferecê-lo para Horkheimer, a observação sobre o riso nazista diante do judeu humilhado é bem precisa. Faz-nos sentir calafrios.

A Teoria Crítica como um todo, principalmente a velha Teoria Crítica, até mesmo quando, com Marcuse, quis lembrar as benesses do hedonismo, nunca ultrapassou o muro do pessimismo, e, por conta deste, o de certo conservadorismo. Quem lê Adorno e acha “lindo”, talvez não tenha entendido bem. A beleza deveria trazer alegria. Em Adorno há inteligência cirúrgica, mas beleza, é difícil ver. Há um mundo tenebroso descrito como “sociedade administrada” e modernidade sob “capitalismo tardio” numa narrativa que nos coloca no chão. Às vezes, impotentes.

Aliás, sejamos francos, Richard Rorty foi um escritor que certamente nos fez rir. Sua leveza ao utilizar o assunto do outro sob o seu jargão e vice-versa nos fez não saber que ele, pessoalmente, era calado, praticamente depressivo. Rorty na vida pessoal era como Adorno na vida teórica.

Os filósofos precisam ser tristes? Há alguma vantagem no pessimismo, ou ele pode ser visto como fruto de ideologia e de um antropologia com pegada velha?

Em uma nota de rodapé no terceiro volume de sua Esferologia, Peter Sloterdijk lembra o quanto não há como, para muitos intelectuais, não desconfiar de quem propõe a alegria, torcer o nariz para quem vive louvando a alegria e mostrando sorrisos. Afinal, Stalin havia dito: “a alegria é a característica mais chamativa da União Soviética”. Na Alemanha, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores suponha que sua força vinha da alegria. O rótulo nazista era “Kraft durch Freude”. Quando olhamos os filmes das grandes comemorações nazistas e soviéticas, regadas por jogos, danças e desfiles com crianças, temos a clara sensação de que não se trata só de “mera” propaganda. Há sim a esperança e a alegria nos rostos das crianças. No rosto dos jovens, um frescor de uma eterna pré-adolescência feminina. Tudo é motivo de riso. Mas sabemos muito bem no que deu isso. Quando vemos os resultados, desconfiamos da alegria, voltamo-nos para Adorno.

Todavia, não é esse fato datado – o império soviético e o mundo hitlerista – que nos dá desconfiança para com a alegria. Há algo mais profundo. Trata-se, sim, da sensação de que a leveza da vida não pode ser assumida, que talvez nem exista, que é um engodo. A vida é dura. Se há leveza no ser trata-se, então, da “insustentável leveza do ser”. Para Peter Sloterdijk há aí, nessa sensação, um elemento doutrinário espraiado que une cristãos e burgueses laicos, que acopla filosofia medieval e sociologia moderna: somos tanto frutos da Queda e do Pecado Original e, portanto, miseráveis, quanto nossa miséria também tem que ser descrita por uma antropologia guiada pela noção de carência. Sloterdijk vê na antropologia de Arnold Gehlen um bom exemplo disso. Gehlen adota a neotecnia, o que é correto, mas não a vê como o que aponta para o inverso do que ele defendeu. O que é a neotecnia?

Trata-se da tese de que a morfologia, a fisiologia e mesmo a psicologia do homo sapiens, vindo do hominídeo, mostra a incorporação de traços infantis, juvenis. Isso faz do homem aquele que, diferente de todos os animais, nunca está terminado, mantém-se infantil, e sempre aprende até o final de sua vida. “Não nascemos prontos” é um velho cliché. O que há para se desvendar nele, além de sua mera reiteração na imprensa fácil?

Gehlen toma a informação científica dos anos vinte e trinta a respeito da neotecnia, e a expõe em tese onto-antropológica de que o homem é o homo pauper, o ser que nasce pobre de recursos e, então, sempre a duras penas, sobrevive. Aparece aí a velha história que funciona como prostituta pobre à noite, rodando de bar em bar: o homem não possui garras e nem o força, então, pela cultura, conseguiu sobreviver. Todavia, sempre será, em essência, um ser de carências.

Ora, Sloterdijk toma a neotecnnia, em crítica a Gehlen, em função de uma tese oposta: o homem não surgiu pobre, o homem é rico de recursos, seus traços de juventude incorporados na espécie é fruto do luxo e do conforto, e apareceu não de estalo, mas de longa evolução em uma situação articulada entre o endo-útero (útero mesmo) e exo-útero (os braços da mãe – na civilização posterior, a paideia, a escola etc.). Não houve, portanto, um gap entre o ser de cultura e o ser da natureza. Essa situação de evolução e continuidade foi a proporcionada pela invernada, a esfera de proteção que aconteceu pelo fortuito isolamento de um grupo que, enfim, deve ter ficado distante de predadores, e que então ganhou tempo para que as progenitoras virassem mães e as crias virassem crianças. A infância passou a existir nessa situação bem primitiva, na evolução do hominídeo para o homo sapiens. As crianças puderam deixar de serem filhos meramente biológicos, e se tornarem então seres adotados por mulheres que, enfim, e só então, se tornaram mães. (Essa evolução, em certo estágio muito primitivo, trouxe para o fluxo genético os traços do filhote frágil, que nasceu de nove meses, como aborto, quando deveria nascer de 21 meses no mínimo. Mas, enfim, do modo como sua cabeça vinha crescendo, ou saia dali aos nove meses ou não mais sairia!). O homem foi mais propenso que outros mamíferos no sentido de adotar o filho do outro e adotar seu próprio filho. Esse é o serviço das mães. Elas puderam não matar mais as crias, deixar de lado o aborto, entrar para a situação na qual se faz o que entendemos por civilização. Sloterdijk chega a dizer que “a civilização é a capacidade de adoção”. Essa segunda metade do desenvolvimento de cada criança, que é a parte vivida no exo-útero, o colo da mãe, deu condições para vermos surgir o homo sapiens. Esse ser, por sua juventude incorporada geneticamente, é rico e se sobrecarrega de informações exatamente pela sua riqueza, pela sua capacidade de recursos intelectuais e sensíveis. Desse modo, sobrecarregado de informações, às vezes se imagina pesado e, então, adota o peso como a sua natureza. Teme a leveza. Mas tende a buscar a leveza por meio de desonerações. Uma coisa é a desoneração, outra coisa é libertação. O homem trabalha com as duas.

A desoneração pode vir ao se fazer simples, seguir rotinas, agir e falar roboticamente, deixar-ser previsível. Mas o homem, diz Sloterdijk, não é pesado no sentido de pobre, ao contrário. Ele é como um milionário que tem serviços demais justamente porque não pode não administrar sua fortuna. A fragilidade aparente do homem é sua fortaleza, sua riqueza. E ele procura a leveza não só pelo subterfúgio da desoneração vinda do automatismo, mas pela própria liberação. A ascetismo entra aí. O homem como o acrobata, que faz exercício em ascensão e sempre pratica mais para melhorar. O homem quer subir. Quer alcançar sua condição leve, pois é um ser da leveza. A aparente fragilidade é seu caminho para a verticalização. Quer atingir patamares que vão contra a gravidade, para ser leve como é leve. Comunidades de sacerdotes, intelectuais e práticas anarquistas dos artistas e outros homens ricos e livres são também saída para isso. São o cume de um ser que veio do luxo, da invernada, da capacitação para absorver informações e sensibilizações mais que qualquer outro.

Todavia, pensar assim, fazer o retrato do homem como Sloterdijk faz, é já adotar um novo paradigma que não é o utilizado por inúmeros intelectuais, especialmente os da Teoria Crítica, em especial Adorno.

Se pensamos assim, sem a tristeza e o pessimismo, mas com um tipo de alegria crítica, vemos essa condição antropológica do homem como não sendo a do homo pauper, e também podemos transformar nossa sociologia de modo a fazê-la notar problemas de uma sociedade como a nossa, a sociedade de fluxos e de superabundância. Essa sociedade possui dramas que não são mais os postos pela “Internacional Miserabilista”, comandante das forças de interpretação da direita e da esquerda, nos moldes do século XX.

Mas, para tomar pé nos problemas que vivemos hoje, em que a classe média do mundo todo cresce e, mesmo que não esteja esbanjando, está sob o domínio da prática da sociedade da abundância, é preciso então deixar de lado as teorias que fizeram do homem o homo pauper. Faz-se necessário admitir que não somos os seres a viver no “vale de lágrimas”, muito menos temos que cultiva os pobres como os que nos salvarão! Afinal, podemos entender, não há pobres. Podemos falar isso sem ser cínicos e deixar de lado os que ainda estão presos ao retrato de antropologia do Pecado Original.

Deixar de lado o pessimismo e a tristeza de Adorno, pode ser um passo adiante, e não a perda da capacidade crítica. Não teria estado Adorno preso ao pessimismo de seu amigo conservador, Gehlen? Não é difícil notar isso. Não é difícil notar o quanto tememos ser chamados de cínicos se tivermos a coragem de ver que a sociedade da abundância rege a prática do mundo, tanto dos ricos quanto dos não ricos. Parece que se assim afirmarmos, sairemos da filosofia social e da sociologia, e até mesmo da psicologia política, que nos diz que temos que pensar o homem como sem direito à leveza, sem o direito de voar em balões, sem o direito de uma Gaia Ciência. Teríamos apenas a alternativa de sermos falsários cínicos que não querem assumir que o homem tem que padecer no paraíso porque ele é em essência carente, um ser miserável. Titubeamos. Não queremos abandonar as ordens militarizadas da direita, as ordens carcomidas de apologia do pobre como herói vindo das esquerdas, das ordens da doutrina da Queda e do Pecado Original.

Adorno não ria. Mas não deveríamos tomar isso como bom sinal. Deveríamos notar nossa atitude que rechaça as descrições que nos impede de sermos leves não de forma do autômato, mas da forma da subversão que parece não dar muita bola para a reprodução da simbologia social. Parece que Sloterdijk é uma brecha para começarmos a entrar no século XXI com instrumentos narrativos do século XXI. Uma antropologia como ciência da frivolidade é o que precisamos para poder captar os afazeres do homem corretamente, e entender como ele se meteu nessa situação paradisíaca do sociedade da abundância.

Os problemas da sociedade da abundância, da  riqueza do mundo, do modo com que ampliamos a expectativa de vida e do modo que ampliamos a própria faixa do que é ser criança e jovem, da maneira como descartamos coisas, do modo como nos fazemos indivíduos como o que é mais real do que o entorno – tudo isso só pode ser realmente notados por uma filosofia social e de uma sociologia não mais presas à “Internacional Miserabilista”. Isso passou. Isso é restolho de grupelhos de direita e esquerda que se perderam no “túnel do tempo”. Esses grupelhos ainda estarão falando por décadas, mas não ultrapassarão o meio do século XXI com alguma voz que não seja a da esclerose.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

atiradoras

Atiradoras soviéticas da II Guerra Mundial

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8 Responses “Adorno, o filósofo que não ria”

  1. 17/11/2015 at 13:55

    Ghiraldelli: onde Stálin disse isso que você citou?

    Porque há frases que ele disse que vc nem imagina. Ele dizia que o leninismo é o ímpeto revolucionário russo mais o espírito prático americano.

    Mas o espírito prático americano tem todas as probabilidades de degenerar num utilitarismo mesquinho e sem princípios, se não se unir ao ímpeto revolucionário russo. Quem não conhece a enfermidade do praticismo mesquinho e do utilitarismo sem princípios que costuma levar certos, “bolcheviques” à degeneração e ao abandono da causa da revolução? Esta doença peculiar é descrita num conto de Pilniak, “A Fome”, em que são representados tipos “bolcheviques” russos, cheios de vontade e de decisão prática, que “funcionam” de modo muito “enérgico”, mas não têm perspectivas, ignoram “o porquê e o como” e em conseqüência se desviam do caminho do trabalho revolucionário. Ninguém escarneceu de modo mais causticante do que Lênin a doença do utilitarismo. “Praticismo mesquinho” e “utilitarismo estúpido”, assim Lênin qualificava essa doença, à qual costumava opor a atividade revolucionária viva e a necessidade de uma perspectiva revolucionária em todos os aspectos do nosso trabalho cotidiano, sublinhando desse modo que o utilitarismo sem princípios é tão contrário ao verdadeiro leninismo quanto o arbítrio “revolucionário”.

    União do ímpeto revolucionário russo com o espírito prático americano: eis a essência do leninismo no trabalho do Partido e do Estado.

    • 17/11/2015 at 14:08

      Lúcio para se desfazer dessa incultura sobre os americanos, primeiro comece a ler sobre pragmatismo no meu Richard Rorty, da Vozes (1999), depois leia sobre socialismo e liberalismo inglês, em Mill (pegue os Pensadores). Esqueça tudo que aprendeu. Leia isso, com espírito aberto, mente aberta, e aí você poderá estar no meu jogo de linguagem, além de poder estar também no amplo jogo de linguagem da filosofia. Vai ganhar muito com isso. Acredite.

  2. MARCO ANTONIO COELHO DE MORAES
    16/11/2015 at 16:31

    Distanciando-se da Natureza – sendo científico, nunca sapiens, mas sempre faber – o ser humano interfere na natureza, constrói a civilização como elemento compensatórios da besteira que fez e daquilo – essencial e necessário – que não terá mais. Deverá se contentar com o artificial que nada mais será do que prótese.

    • 16/11/2015 at 16:47

      NOPE! Não na perspectiva desse texto. O texto é construído na acepção contrária a essa.

  3. Wagner
    13/11/2015 at 20:59

    Não seria o excesso de recursos um convite ao descarte?

  4. Maximiliano Paim
    13/11/2015 at 18:29

    Se pode dizer também que o filósofo está condenado ao pessimismo de um mundo sem ilusões e ao otimismo sustentado por uma utopia?

    • 13/11/2015 at 19:17

      Paim, por que você precisa tanto de uma fórmula?

    • Maximiliano Paim
      13/11/2015 at 19:30

      Não sei. São tentativas. Vou ficar mais alerta quanto a isso. Gracias!

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Filósofo