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17/08/2018

Caça ao abusador de incapazes


Linda é o nome da garota. Ela é autista. Mas autismo não coloca as pessoas necessariamente na condição de incapazes. É isso que Rafael irá ter de fazer para provar sua inocência: mais do que a autorização do pai de Linda para que ele saísse com ela, deverá expor um exame médico de especialistas para que o autismo de Linda se revele como algo semelhante ao do filho de Jô Soares (um gênio musical) ou do jogador Messi (um gênio futebolístico).

Tudo vai dar certo para a dupla Rafael e Linda, na novela Amor à vida? Ainda não sabemos. Todavia, uma coisa já deu certo. A história do casal está sendo tratada com uma boa dose de bom senso pela Globo. Por enquanto, não houve didatismo exagerado, e ainda por cima o modo como Rafael foi denunciado (por ter dado um beijo na garota) é extremamente factível em nossa sociedade, onde várias pessoas bem intencionadas são expostas às leis por gente que, posando de justiceiros, são na verdade pessoas más, mas resolvidas.

Não há coisa pior na sociedade que os que denunciam outros sem qualquer ponderação. Quando eu era criança, a Seleções do Reader’s Digest nos convencia fácil de que a delação era mesmo uma deterioração, pois contava sempre a história do quanto as crianças soviéticas eram educadas para apontar faltas dos próprios pais diante dos deveres para com o Estado.  Delação, para muita gente, não é coisa que possamos aplaudir. Denunciar alguém por qualquer tipo de suposto crime, mesmo que se tenha certeza de que se trata de um crime, é antes de tudo estar a um passo do pecado. O crime é a falta legal, o pecado a falta moral. “Não julgueis para não ser julgado”, disse Jesus. Mas se há alguém que os cristãos odeiam é esse tal de Jesus. Ele falou coisas que os cristãos não gostam de fazer, pois lhes tira o prazer – às vezes o único prazer que lhes restou dentro de uma vida mesquinha. Colocar uma figura honesta, jovem e com um futuro pela frente, como Rafael, na cadeia, de modo que sua carreira como advogado fique manchada, é o que mais dá prazer aos fracassados e recalcados de todos os tempos.

Toda vez que somos incentivados a delatar alguém por ter estuprado ou abusado de gente incapaz ou criança ou jovem etc., deveríamos pensar muito. A primeira coisa que deveríamos pensar é o seguinte: será que houve mesmo o abuso? Não estarei sendo precipitado? Não estarei sendo induzido pela cultura de meu país e de meu tempo de modo exagerado? Não estarei destruindo a vida de uma pessoa? Será que não estou denunciando antes por problemas psicológicos meus, que não tenho coragem de enfrentar, do que por senso de justiça?

O delator, o julgador que se acha juiz do mundo, tem logo uma resposta para se justificar: “ah, mas ele não pensou na hora do abuso!”. Claro que pode então delatar. Fará isso.

A desgraça é essa mesma: o delator nem sempre está disposto a refletir. Pois o modo como ele se livra de seus próprios fantasmas – que não raro pode ser a existência de um demônio dentro de si mesmo, um potencial causador da barbárie que irá delatar – é delatando o outro o mais rápido possível. É preciso punir o suposto malfeitor para calar dentro de si um malfeitor muito mais monstruoso.

O delator não é aquele que sofreu o abuso no passado e, agora, está buscando em todos os seus concidadãos o culpado. Não raro, ele é isso e, também, alguém que justamente pelo abuso sofrido no passado, desenvolveu um terrível desejo de repetir o ato de abuso infinitamente contra outros. Muitas vezes o delator é um potencial abusador de crianças. Não é um abusador de fato, mas sabe bem, ao menos nas noites mais sombrias, do que é capaz. Chama o delatado de covarde, mas é mais covarde que o delatado. O delatado pode ser inocente, o delator nunca é. Ele apenas é mais covarde que qualquer um, e por isso o máximo que consegue fazer é ficar de tocaia delatando outros, culpados ou não. Aliás, ele nunca pondera realmente se o delatado é culpado.

Poder ser o xerife do mundo, às vezes nas trevas, é o melhor modo não de expiar seus próprios pecados, mas de dizer para seu monstro interno que, apesar de poder fazer o pior, está se resguardando de compensar maus pensamentos caçando os que efetivamente fazem o pior – mesmo que esse “efetivamente” seja só uma conjectura.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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2 Responses “Caça ao abusador de incapazes”

  1. Valdério
    13/01/2014 at 09:08

    Última linha do segundo parágrafo. Acho que você quis dizer “mal resolvidas” ao invés de “mas resolvidas”.

    Abç.

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