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23/03/2017

Aborto com perguntas que incomodam os não pensantes


A TESE FEMINISTA DO ABORTO se põe como algo do âmbito da esquerda. Mas será que a esquerda pode arcar com isso? Será que a esquerda, ao ser “o partido dos pobres” (historicamente) e da liberdade que não despreza a igualdade e que quer a solidariedade (conceitualmente), pode endossar o aborto hoje em dia?

Podemos matar o feto ou o bebê ou seja lá o que for por que ele “não sente”, ou então, em termos de outros parâmetros, por que não tem cérebro ou, enfim, “não sabe” que vai ser morto? Essa mesma tese legitima a morte dos animais. Essa mesma tese legitima a nossa diminuição de crueldade e, portanto, admissão de crueldade, na aplicação da injeção letal ao invés do enforcamento de rua ou cadeira elétrica.

Morrer dormindo é a boa morte. Todos morrem, então, que possamos morrer dormindo. Todo assassinato feito para promover a liberdade de alguém pode ser legítimo? Se quem vai viver sabe que vai viver e quem vai morrer não sabe que vai morrer, está “praticamente dormindo”, então, para dar liberdade à mulher, é tranquilo matar? Ou vamos falar em “eliminação de resíduos” ou “optar pela extração” ou “decidir por tirar”? Eufemismo elimina culpa? Diminui responsabilidade?

Quem vai morrer, já que não nasceu, não sabe que vai morrer? Quem disse? Vamos mensurar a adrenalina do boi e só então, se repararmos sinais de nervosismo, vamos poupá-lo. Vamos mensurar sinais de adrenalina no feto e então, só então, vamos poupá-lo. Essa é a regra? Maldita regra para o boi.

A adrenalina é a medida de todos as coisas, diz o médico fantasiado de sofista? Afinal, a mãe que não quer cuidar do bebê tem ataques adrenalínicos maiores que o bebê, não?

Ah não, vamos arrancar o feto quando ele não é feto? Mas qual a razão disso? Ganha dinheiro? Pois, afinal, já não existe pílula até da semana seguinte?

Se o nazismo não queria a mulher-objeto da passarela e sim a mulher-mãe do lar, falsamente mulher-sujeito, então o melhor para negar o nazismo e ir à esquerda é matar bebês ou eliminar quem nós achamos que “não sente”? E quem “não sente”, de novo pergunto, deve estar aberto à morte mais que quem “sente”?

Ninguém de nós sabe de seu nascimento e de sua vida uterina e, por não saber, então advoga saber tudo e poder decidir sobre o que se passa nesse ambiente. Tese interessante essa de deve passar na cabeça das feministas!

Nenhuma dessa minha perguntas são religiosas, todas elas se encaixam em narrativas filosóficas e científicas. Portanto, que a esquerda “progressista” não me venha dizer que minhas perguntas são fundamentalistas etc. Não! Apenas estou colocando questões que a esquerda não quer fazer e quer se manter como esquerda mesmo abdicando de algo que era um pressuposto da esquerda: refletir.

Podemos mesmo argumentar que a desgraça de mulheres morrerem hoje em dia fazendo o aborto ilegal é a base pela qual podemos legitimar o aborto e tomá-lo como um não assassinato?

Podemos continuar a ser de esquerda e proteger crianças, velhos, animais, ou seja, todos os que podem se atacados pelos mais fortes, e ao mesmo tempo deixar a descoberto todos aqueles que estiverem da porta da vulva para dentro? Da porta da vulva para dentro ou mandamos nós, limpando o que quisermos limpar, ou o diabo manda. É assim então?

Podemos achar que em uma época de transmissão de informação como a nossa e numa época em que as pílulas anticoncepcionais atravessaram limites de validade temporal estreitos nada muda na doutrina feminista, que se quer de esquerda, a favor do aborto? Será mesmo que hoje ser a favor do aborto é ser menos cabeça dura de quem está com dúvidas sobre a legitimidade disso? Será que em uma época em que o Bispo Macedo vira defensor do aborto, ser alguém de esquerda é estar junto com ele? As feministas, não raro, têm se tornado uma força reacionária em muitos detalhes da vida atual. Têm arrastado a esquerda para isso. Isso deveria ser pensado. Precisa ser pensado.

A direita adora advogar o realismo contra toda pessoa de esquerda, chamada por ela de utopista, sonhador, desvairado etc. Mas, nesse caso, quando se diz que mulheres morrem por abortar “na clandestinidade” (!) e, então, nada se pode fazer senão legalizando o aborto, não se está abandonando de fato toda utopia para advogar a tese do realismo, a postura básica da direita? Não seria condizente com a esquerda construir uma sociedade onde os mais fracos continuassem a ser protegidos e, inclusive, vulva adentro?

Não podemos fazer tais perguntas, não é? Pois a patrulha feminista nos atacará, nos jogará para a direita, e colocará terror em todos os que, sendo de esquerda, no passado tiveram dúvidas sobre uma legitimidade tão fácil do aborto. Duvidam? É assim que funciona na direita e na esquerda. A tese petrificada virar arma na mão vanguardeira e oprime os internos. Vence o belecismo e os argumentos não argumentáveis. Vence a força. Faz tempo que a esquerda vem funcionando como direita. Repare.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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17 Responses “Aborto com perguntas que incomodam os não pensantes”

  1. Antonio S
    11/03/2015 at 05:39

    O corpo pertence à mulher.50% dos zigotos não aderem ao útero e são evacuados.As pílulas anticoncepcionais possuem o seu efeito.são inúmeros casos onde a esquerda funciona como direita e vice-versa. Basta ver como muitos da esquerda ( varia muito , mas , digamos , parte da esquerda das Américas ) defendem os árabes contra os judeus , sendo que a cultura que mais oprime as mulheres , de longe , é a árabe e a a africana.A cultura onde os gays são demônios completos é a árabe ….

    A direita, que em tese possui argumentos calcados na realidade econômica , num racionalismo maior , parece estar sempre ligada ao pior fundamentalismo religioso cristão , irracional, defensor de dogmas da idade do bronze .Fundamentalismo esse totalmente contrário ao aborto ( com raras exceções ) , ao ponto de cristãos terem matado médicos nos EUA que fizeram abortos legais .

    Se a mulher tem um filho de 2 anos que está precisando de um órgão vital que só ela , mãe , pode doar , tal pessoa NÃO é obrigada a doar .A situação é : doa e salva o filho ou não doa , continua viva mas o filho morre .

    O ilustre professor fala em “matar”. O que seria matar para o senhor ? Não se “mata” fetos , se matam pessoas nascidas com vida .Quando começa a vida ? Ninguém sabe.A sua , a minha , a nossa ignorância não pode servir para dizer que o feto ( de algumas semanas , ou quem sabe , meses ) tem “adrenalina” a mais ou a menos , que sente algo e tem consciência disso .E os dilemas nunca acabam , porém, entre a questão objetiva de saúde pública e o desejo da mulher – dona do corpo e da vontade de ser ou não mãe – X avaliação sem provas da qualidade/quantidade de sofrimento do ser em formação ( mero detentor de expectativa de direitos na sociedade , inclusive pq só vem a óbito, detendo direitos , se nascer com vida , de acordo com a teoria natalista ) , fico com a saúde pública , com a liberdade da mulher .

    Boa parte dos abortos são chamados “espontâneos” , onde a mulher fica isenta – na sociedade , perante si mesma , e se for religiosa perante a “autoridade” celestial – de pena , de culpa , de espiação .O que não retira o insondável “sofrimento” do feto .

    Alguém tem o direito de usar o corpo da mulher ( com morte cerebral , como ocorreu no Texas-EUA ) como mera incubadora enquanto o feto vinga ou nasce ? E se ela deixar claro ( juntamente com o marido ) ainda em vida que não queria tal situação ? Se tivesse uma criança de 4 ou 5 anos estiver precisando do coração dela para sobreviver , se ela deixou claro que não queria doar , podem tirar o coração dela ? Claro que não , em qualquer lugar do mundo a resposta é não !

    É uma questão tormentosa a do aborto .Nunca é isenta de mácula , seja qual for a racionalidade utilizada .Duvido que alguma mulher sinta prazer em abortar .Pode-se não achar motivos muito “nobres” , porém há inúmeros exemplos de situações limites onde também as escolhas são difíceis e todas possuem suas máculas e efeitos colaterais .

    E o aborto de anencéfalo ? Difícil situação também…

    Independente da fundamentação , todas levam a um certo paradoxo .

    • 11/03/2015 at 08:31

      Antonio, um trecho só do seu discurso é que é triste: que a direita tem um programa econômico racional! Nessa hora, você fez uma piada, de resto, é por aí, ou seja, tentar equacionar a questão sem ter de gritar “quero plebiscito”, para se livrar do drama.

  2. Pedro Santos
    05/01/2015 at 15:15

    Paulo, a Esquerda sempre foi beligerante e se baseou em argumentos não argumentáveis e na força do poder, não é de hoje que ela tenta monopolizar a verdade com base em perspectivas dogmáticas, calando qualquer um que pense de outro modo, acusando-o de reacionário ou coisa parecida. Isso vem desde os jacobinos, passando pela forma que o titio Stalin tratava os dissidentes e chegando aos nossos dias, quando movimentos sociais pautam a discussão de problemas importantes, como o aborto, e limitam o diálogo com a eterna dicotomia esquerda-direita.

    • 05/01/2015 at 19:25

      Pedro Santos você não faz a menor ideia sobre o que é a esquerda ao dizer isso que disse. É justamente o oposto disso. As forças pela paz, no mundo todo, sempre foram as forças de esquerda. Aliás, você confunde revolução com beligerância, e não sabe sobre a social democracia e toda a participação da esquerda mundial nos movimentos contra I e II Guerra Mundial.

    • Pedro Santos
      06/01/2015 at 15:09

      Paulo, movimentos de esquerda são caracteristicamente dominados pela vontade de mudar a sociedade, romper o status quo, e para isso ser feito, só vejo uma maneira: Revolução ( teve o Allende no Chile que rompeu com esse paradigma, mas deu no que deu ). Com isso, infere-se que, ao contrário do que você disse, a esquerda não é essa força ” boazinha “, que luta pela paz através dos tempos, mas sim, quase sempre, fonte de conflitos. Quanto a sua menção aos movimentos pacifiscistas contra as 1 e 2 Guerras, foram movimentos em sua maioria cristãos, nada tendo a ver com movimentos de esquerda, que naquele tempo estavam empenhados em levar o ideal comunistas aonde pudessem. Quanto a social democracia, implementada nos países da europa ocidental, você está redondamente enganado que isso teve algo a ver com a esquerda. Os benefícios estendidos à classe trabalhadora foi obra das elites desses países que, com o temor de que os partidos comunistas europeus tomassem o poder, viram que a única solução era trazer benefícios, tais como educação, saúde, direitos trabalhistas, etc.( o chamado estado de bem-estar social ), com o intuito de cooptar a classe trabalhadora e dussuadi-la de tentar contestar o sistema de divisão de classes.

    • 06/01/2015 at 15:45

      Pedro o que você escreveu reafirma o que eu disse, você precisa um dedicação à história, aquela do ensino médio. Agora, sobre política, sugiro a Filosofia política para educadores (Manole). Depois disso, volte e conversamos mais. Não volte antes disso. Com essa coisa meio desinformada sua aí, meu interesse pelo que você fala é zero. Não dá liga nenhuma, é mero Bolsonaro ilustrado.

    • LMC
      07/01/2015 at 10:39

      O Churchill não era
      nenhum socialista
      ou social-democrata
      mas se juntou aos
      EUA contra o
      nazismo na II
      Guerra Mundial.
      Interessante….

  3. Ferdnand
    03/01/2015 at 14:08

    Mais duas perguntas: se Nietzsche ainda vivesse seria contra o aborto? Em nome de que, da moral cristã?
    As perguntas nada têm a ver com o texto? Não é ambíguo um nietzschiano fazer esse tipo de defesa?

    • 04/01/2015 at 00:50

      Ferdnand!
      Resposta 1: se Nietzsche estivesse vivo ele continuaria inteligente. Infelizmente, muita gente viva não consegue ser inteligente porque só faz as perguntas que o seus chefinhos mandaram.
      Resposta 2: sou ghiraldelliano, não nietzschiano; Nietzsche não foi abortista, um filósofo que denunciou a “fuga da vida” jamais seria um incentivador do caminho mais cansado. Aconselho você é pegar os meus dois volumes de A aventura da filosofia (Manole), sua visão de Nietzsche está errada.

  4. 02/01/2015 at 12:42

    sim professor, mas Rosseau tbm disse: “é a família, portanto,o primeiro modelo das sociedades políticas…

    • 02/01/2015 at 15:02

      Anderson, eu deveria ter explicado mais. Eu falei no sentido de Sloterdijk: somos do útero, nossa esfera inicial é placentária. Que isso vire algo da polis, depois, é sempre depois.

  5. 02/01/2015 at 10:25

    Belo texto! Penso que dialogar sobre esse assunto requer maturidade e capacidade de saber ouvir. O que muitas vezes não encontro nos meus amig@s de esquerda.
    Qual deve ser o papel do Estado? Nem o moralismo dos religiosos, nem o extremismo dos defensores do aborto.
    Vulva adentro, quem defenderá o menor dos menores?
    Os argumentos dos religiosos que demonizam os que optam por essa prática também me causa profunda náusea. Hipócritas.
    Os argumentos das feministas, cegos e intolerantes, omitem a justa liberdade, acompanhada da responsabilidade. Medíocres.
    É fácil para o homem jogar essa dura responsabilidade sobre os ombros das mulheres. Mas, o homem também não engravida com? Ah sim, há homens e homens…
    Sim, o corpo é seu e vc faz o que quiser com ele. Mas o corpo do outro, a vida que pulsa vulva adentro, é única.
    Somente o saber filosófico pode lançar luz sobre esse tema para o debatermos com maturidade.
    Mas afinal, qual deve ser o papel do Estado?

    • 02/01/2015 at 12:13

      Anderson somos, Santo Agostinho disse, contra Aristóteles, seres de família, não seres políticos.

    • LMC
      05/01/2015 at 12:37

      Ih,Anderson,os religiosos aqui
      no Bananão dizem que
      o aborto é coisa de marxistas
      bolivarianos.Mas quando
      alguém diz pra eles que o
      aborto é legal nos EUA,
      ficam calados.Não estou
      pregando o aborto aqui,
      apenas citando o que
      pesquisei na Net.

    • Pedro Santos
      05/01/2015 at 15:19

      Em alguns estados dos EUA a pena de morte é institucionalizada, não por isso que devemos implementá-la aqui, não é ?

    • 05/01/2015 at 19:23

      Pedro Santos o meu texto não é sobre a pena de morte. Nem sobre os Estados Unidos.

    • LMC
      06/01/2015 at 10:40

      Pedro,o que tem a ver
      uma coisa com outra?
      Você conhece alguém
      que seja contra o
      aborto e a pena de
      morte ao mesmo
      tempo?É mais
      difícil que encontrar
      algum torcedor do
      Juventus da Mooca.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo