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23/09/2017

Professoras de filosofia e evangélicos querem solucionar o problema do aborto?


Escutei de uma moça professora de filosofia (creio que por uma revista popular) que é o “machismo” que sustenta a criminalização do aborto. Caso eu escutasse isso de outra pessoa, talvez até desse ouvido, mas como veio de uma professora de filosofia, isso me fez estranhar. Ou seja: quem tem um diploma de filosofia na mão tem o direito de emitir uma frase ideológica, que diz pouco ou nada, assim, na boa?

Usar da palavra “machismo” para que esta substitua a palavra “demônio”, que até já foi substituída por “capitalismo” e, mais recentemente por “neoliberalismo”, é alguma coisa que, se é permitido ao senso comum, não poderia passar pela boca de alguém que gastou quatro anos na faculdade. Aliás, vale o mesmo para a palavra “comunismo”, que um dia também substituiu, para outros, a palavra “demônio”.

O aborto não-legal e o aborto legal, ambos, não têm nada a ver com o demônio e, por isso, pouco a ver com palavras que querem substituir a palavra demônio. Dizer que machismo faz isso e aquilo, pinta e borda, é não explicar nada e, não raro, até deixar os mais inteligentes indispostos contra quem usa tal expediente. Professoras de filosofia deveriam parar com isso. Deixem tais coisas para militantes, sociólogas e sociólogos, mais aptos a se pavonearem em passeatas, revistas e TV.

Aborto é coisa séria. Há dois erros básicos na argumentação dos militantes a favor da legalização do aborto. Primeiro: “meu corpo minhas regras” não é uma verdade em nenhuma sociedade ocidental moderna. O Ocidente desencantou o corpo no processo geral de desencantamento do mundo (Weber), mas, justamente por isso, teve de criar leis de proteção e respeito ao corpo vivo e ao corpo cadáver. Se o corpo pode ser devassado, se é possível, com a ciência avançada, criar o comércio de órgãos, se é perfeitamente possível se criar uma maquinaria de ganhar dinheiro através da indústria abortiva, então, a ética entra aí e a lei com ela. Segundo: “aborto legal é algo das sociedades modernas e emancipadas” também não é uma verdade. O aborto era a regra da antiguidade. Só nos nossos dias, principalmente com o Welfare State no horizonte, pudemos nos dar ao luxo de pensar em ter mais filhos, quantos quisermos, sem nos preocupar, como antes, com a sobrevivência deles. Só a nossa era trouxe o problema do aborto como problema, pois antes, simplesmente fazíamos como Herodes ou como freiras de conventos, ou então, como os que usavam a instituição da Roda.

Dizer que essas verdades histórico-filosóficas que mostrei são por conta de uma ideologia machista que está na minha cabeça e que eu divulgo é simplesmente não entender que essas verdades que disse são, de fato, verdades. São de simples confirmação. Escolarizados, ou melhor, os bem escolarizados sabem confirmá-las.

Mas, se é assim, então o lado dos contrários à legalização do aborto, já pode comemorar? Tudo que dizem é correto? Em geral, o argumento dos que são favoráveis à criminalização apelam também para dois postulados errôneos. Primeiro: dizem saber quando é que se começa a vida e a morte, e que isso é um absoluto, de modo que podem, então, para todo o sempre, se portar como o “deus das mulheres”, regrando o corpo de todo mundo. Ora, vida e morte são conceitos definidos historicamente, e mesmo agora, que a ciência põe o bico, não muda nada. Também ela define e redefine isso. Aliás, hoje em dia a entrada na vida e a saída dela não são simétricas. A definição de vida, da ciência, está sempre em cheque. Vírus é algo vivo? Tais critérios são iguais aos que colocam Plutão como planeta para, no ano seguinte, serem alterados e, então, destituí-lo novamente do cargo. Segundo: dizem que não precisam apelar para a ciência, que o que define a vida é Deus. Mas o deus ocidental, o nosso Deus judaico-cristão, fala aos homens pela Bíblia, e os evangelhos não dão detalhes sobre o que é vivo e o que não é vivo. Não a ponto de se poder dar aval ao não aborto em um sentido prático. O que há na Bíblia é uma indistinção ontológica entre o que está no ventre e o que não está no ventre, ou seja, feto e criança, mas isso num grau genérico e não operacional. O fato de Deus considerar que se pode dar nome e considerar crianças ainda não nascidas sem distinção as já nascidas, não garante nenhum postulado tão forte que diga que uma mulher recém fecundada não posso perder o feto. Imagine então a questão de fetos gerados por estupro etc.

Como se pode ver, em termos de argumento, a única verdade nesse caso é que “errar é humano”. Então, legalizar o aborto entra para o plano não mais do racional, mas do razoável. Sendo liberais, isto é, pessoas que querem evitar que o mais fraco seja humilhado ou maltratado pelo mais forte, e isso parece ser o que nos distingue dos conservadores (em termos americanos, mas, cada vez mais, em termos gerais), não queremos que animais sofram, por isso mesmo temos leis para protegê-los. Eles são indefesos. O mesmo fazemos com crianças, velhos e mulheres. O bebê na barriga, a partir de certa idade, é identificável como “um de nós”, e como um ser indefeso, e tentamos protege-lo com temos feito com os velhos, os cães, os cavalos, as mulheres, as crianças, as minorias (étnicas e outras) mais agredidas pela cultura hegemônica, a natureza, o clima etc.  Assim, nós liberais, que podemos ficar favoráveis à descriminalização do aborto, pesamos duas coisas na balança: a agressão à mulher, que pode não conseguir ter como criar mais filhos, e a agressão à criança, que podemos dizer,  a partir de uma data relativamente falsa, que não se trata ainda de uma criança. É o que temos na mão. Os conservadores tem até menos.

Assim, a decisão sobre descriminalização do aborto não tem como ser uma decisão filosófica e muito menos uma decisão a partir de militância feminista, puramente ideológica. Ela só tem uma saída: ser uma decisão política a partir da razoabilidade. Em outras palavras: temos de conversar e conversar e conversar.

A descriminalização é atrativa para nós, os liberais, porque convivemos, na prática, com a terrível circunstância de ver a mulher (a mulher pobre, claro) sendo presa após um aborto, isso quando escapa dele com vida. Além disso, todos se afastam dela e, pior ainda, uma vez presa, é fichada e, assim, ao sair, já não arruma emprego etc. A desgraça é grande. Mas nós, liberais, sabemos muito bem que há mais elementos alternativos para isso, que vão além da camisinha, pílula, assistência médica pública e coisas do tipo. Uma boa saída seria facilitar a adoção do bebê ainda na barriga. Já participei de perto de caso assim. Dá certo.

Não me venham com a questão da indústria da barriga de aluguel. Bobagem. O Brasil tem controle sobre a vida das pessoas para várias questões, cria acompanhamentos para menores maltratados de modo satisfatório (bem mais do que se imagina), através de conselhos tutelares associados ao aparato judiciário. Busca pais que não pagaram pensão até na selva amazônica! Portanto, o Brasil tem condições de desburocratizar a adoção e incentivar um programa de adoção no útero. Claro que isso, na base, depende da descriminalização do aborto. Ou seja, a descriminalização viria sem que se pudesse, paralelamente, oficializar qualquer tipo de coisa que viesse a ser considerado assassinato, uma vez que o programa de adoção no útero estaria atento, vigilante, prestativo e, principalmente, bem fácil. Há muita gente no Brasil na fila de adoção. Muita! Mais do que há crianças. Sabiam?

Todavia, garanto que essa minha ideia não vai pegar. Há grupos militantes que não querem resolver o problema. De um lado, há as professoras que gritam que tudo é machismo, e elas não raro se escondem em bandeiras partidárias e casas editorais que geram dinheiro, de outro lado, há os evangélicos de igrejas caça-níqueis, que estão interessados em vender pecado para depois vender perdão. Esse pessoal não quer conversar, quer debater e sobreviver na praça por meio da euforia e propaganda gerada pelo debate.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “Professoras de filosofia e evangélicos querem solucionar o problema do aborto?”

  1. 26/10/2015 at 11:49

    a digressão é otima, professor e eu ouso tentar entender a sua colega. generalizando bastante, a criminalização do aborto é uma consequencia do machismo, visto que estamos em uma sociedade patriarcal. dentro dessa organização social, a mulher ainda é vista como posse/propridade do homem [dai a ousadia em dizer “meu corpo, minhas regras], assim como o controle sobre os direitos reprodutivos vigora a influencia da Igreja.
    objetivamente falando sobre aborto, eu devo lembrar que falamos de um feto, não de um bebê. existem diversas circunstâncias [médicas, clinicas e policiais] que escaparam desta análise. o assunto em si mesmo mistura a esfera do publico e do privado, então eu prefiro uma objetividade clínica, médica e juridica quanto ao aborto.

    • 26/10/2015 at 11:51

      Roberto, você não entendeu meu texto e acho que não vai adiantar eu escrever mais. Cansei.

  2. Julio
    24/10/2015 at 22:41

    Paulo, parabens pela clareza do texto.
    Este argumento “meu corpo, minhas regras”, reclama para o corpo da mulher o estatuto de propriedade privada, sobre a qual ela exerceria direito de posse, mas omite o fato de que o estado impõe limites ao exercício do direito sobre todos os outros bens.
    Do ponto de vista do feminismo não seria este um ponto de partida muito pobre, construído sobre uma argumentação pouco competente, além de não considerar questões éticas com respeito a terceiros, como o pai e os avós da futura criança, por exemplo? Um abraço. Julio

    • 24/10/2015 at 22:54

      Júlio essa parte que você tocou não é a principal. Acho que o artigo tem criatividade no seu todo, essa é a parte repetida já. Mas, mesmo assim, agradeço a leitura.

  3. LENI SENA
    24/10/2015 at 21:52

    Por que é tão difícil para os que estão a frente das decisões desse assunto tomarem uma atitude? As correntes contra e favor da legalização estão tão envolvidas em criarem argumentos idiotas para se atacarem que de repente, sei lá, sequer notariam o efeito bom de uma solução simples e inteligente agindo. Tá mais do que na hora do cara com a solução política emergir, custo a acreditar que no meio dessa confusão toda não exista ninguém sensato ou pior com saco para aturar tudo isso.

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