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15/08/2018

A visão do baile a partir do senhor Karl Marx


[Artigo preferencialmente para o público acadêmico]

Em uma nota de rodapé de O Capital, Marx escreve: “Quando o mundo parecia estar tranquilo, recorde-se, a China e as mesas começaram a bailar, pour encourager les autres” (1). Na época desse escrito, havia rebeliões anti-feudais na China e, na Europa, uma febre de misticismo do “Espiritismo”, nas sessões onde mesas tremiam etc. Marx usa ironicamente dessas imagens, agrupadas, para falar de algo que só hoje podemos realmente enxergar. Só hoje sabemos que mesas dançam – sem “espíritos” e já sem necessidade de revoluções anti-feudais.

Se somos letrados em Marx, sabemos as razões pelas quais a mesas bailam e, por conta de suas cabeças de madeira, possuem ideias terríveis que as colocam incentivando outros tantos objetos, e não só mesas, a dançarem e tentarem fazer muito mais coisas. Há uma animação constante no mundo das coisas. Uma animação de tal ordem que elas se põe diante de nós como sujeitos e, por isso mesmo, nos transformam em objetos. O primeiro passo é seu fetichismo, o segundo, ou praticamente concomitante, é a nossa reificação. Na sociedade de mercado capitalista, no paraíso do Palácio de Cristal, as coisas são postas à mostra, mas o que ocorre é justamente o contrário: nós somos postos desfilando diante das coisas, sendo que elas, confortavelmente em seus lugares, passam a nos escolher, como num mercado de compra de mulheres escravas ou como num bordel comum. O desfile nosso diante nos shoppings são exatamente isso.

Cada um de nós possui um número, que não é do RG ou do CPF ou algo vindo do código genético. O nosso nome é posto em número que é um senha de nosso cartão de débito e crédito. As mercadorias vivas sabem disso e nos chamam exatamente por esse nome. Nossa digital não é corporal, é bancária.

Essa visão de Marx, elaborada nessa forma mais no estilo comics por Lukács, é tão importante quanto a sua teorização sobre a mais-valia e sobre a globalização do mercado capitalista. Depois de conhecida, é difícil se desfazer dela e olhar o capitalismo como se ele fosse algo “só da economia”, sem essa sua característica tão afeita à filosofia. Daí o sucesso das análises posteriores da Escola de Frankfurt e, mais tarde ainda, de Debord, com o seu conceito de “sociedade do espetáculo”. É difícil não ver o mundo contemporâneo, agora que o mercado capitalista realmente se universalizou, tanto em prática quanto em informação, não notar que não são só as mesas que bailam, mas que também nós bailamos, mas não como antes, e sim como mesas. Bailamos sim, mas como os objetos bailam ao deixarem a condição de produtos para serem mercadorias, aquilo que tem valor e não mais valor de uso, se põe nas vitrines como que se separado dos produtores, ordenando que as levemos para casa. E isso, inclusive, literalmente.

Sim! Literalmente! Seria tolice não ver que os movimentos da dança atual são movimentos feitos por objetos. Os movimentos harmoniosos e arrendondados desapareceram em função dos movimentos maquinais, que só as coisas podem fazer. Aliás, todo o nosso universo visual e, por isso mesmo, também o acústico, se modificou radicalmente nos últimos anos. Ou nos fazemos de objetos, máquinas, robôs e, por isso mesmo, adeptos de velocidade e frenesi robótico, ou não conseguimos conviver com ninguém.

Basta ver a velocidade de imagens e a histeria dos desenhos animados de hoje, na fábrica Disney, e os do passado. “Aladim” quebrou o padrão de “Branca de Neve e os sete anões” ou de “Aristogatas”. E “Rio” acelerou mais ainda a balbúrdia de personagens que não conseguem não ficar senão no estilo dos lêmures drogados de “Madagascar”. Também a ideia do que é sexy passou a imitar o que é feito por objetos. Antes o mexer os quadris seguia o padrão circular. Hoje os quadris não importam tanto quanto as nádegas, mas elas não são feitas para requebrar, mas sim para agir como pistões, e a própria pornografia é o auge desse empreendimento. Todas as cenas da pornografia se tornaram um tanto ridículas pela repetição igual. Muitos jovens fazem sexo imitando a pornografia, ou seja, imitando pessoas que imitam coisas e, então, se reificando por retro-alimentação.

Um dos fenômenos mais comuns no cinema é a utilização do slow motion, a nossa velha câmera lenta. Tudo é feito de maneira tão veloz que, enfim, se descobre que nada é entendido se não for introduzido o slow motion, como se quiséssemos curtir uma nostalgia do tempo que fazíamos coisas de máquinas mas ainda não éramos máquinas. Tarantino abusou disso em “Django”. A série do momento, “La Casa de Papel”, não deixa por menos. Cenas de tiros em slow motion se tornaram obrigatórias. Só se pode recuperar algo de humano no movimento de coisas e de robôs por artifício, pois a humanização se tornou, de fato, algo ultrapassado. Não é à toa que os cães são agora o alvo de amor das mães e pais, deixando as crianças em segundo lugar. Os cães são ainda os que fazem os movimentos que os humanos faziam: andam, correm, deitam, comem – e isso tudo num ritmo ainda próprio do vivo, não das coisas. É ótimo ter um cão em casa, como uma nostalgia curtida quase que inconscientemente.Ter um cão em casa é nossa última chance de sermos, ainda que só tenra lembrança, humanos. Muitas pessoas passeiam com seus cães e só nesse momento voltam a andar como humanos.

Talvez uma das maiores amostras de reificação, advindas do fetichismo, seja o selfie. É o tipo de foto que exige que as pessoas se mostrem sempre de modo pornográfico. Elas aparecem fazendo bicos ou então com a boca aberta ou mostrando a língua. Todos se transformam em indígenas do teatro maori, mas não para meter medo ou impor respeito ou lembrar um ato de bravura, e sim apenas para fazerem a caricatura do que é humano. Tentam mostrar “caras & bocas” para poderem lembrar que os humanos são os que possuem rosto, ou seja, os que possuem expressões. Mas, ao fazerem isso, criam apenas caricaturas, pois já não sabem posar para uma foto sem que sejam caricaturas. É como se todos nós, no selfie, quiséssemos aparecer como um instantâneo expressivo e, fazendo isso, poder dizer: “tá vendo como não sou uma coisa”. Ao fazer tal pose, aí sim a coisificação se revela.

Essa fenomenologia da reificação, que Marx apontou de modo claro antes que qualquer outro, não vai parar de ser alimentada. Ela vai se acentuar até o ponto de trocarmos efetivamente de lugar com os objetos. Não, não estou falando daquilo que os lundistas temiam! É outra coisa! Quando pudermos morrer e deixar os objetos com a nossa “consciência”, vivendo por nós.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response “A visão do baile a partir do senhor Karl Marx”

  1. Matheus
    05/06/2018 at 15:12

    Já te chamei de Paulo, professor, Ghiraldelli, agora vou te tratar pelo termo adequado: filósofo! Heheh

    Pois, esse negócio dias animais (cães, gatos) me lembrou que há pouco assistíamos os filmes de nossas infâncias e riamos de nossos atos tontos.

    Agora passamos horas vendo vídeos de animais, fazendo o que nós fazíamos (dificuldade de andar sobre uma escada, bisbilhotando…) Isso é o que nos faz rir agora, “olha esse jeitinho, essa carinha, parece até gente”

    De fato, nós já não somos mais humanos. Cogito, Machina sum

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