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22/10/2017

A vida leve como imperativo


“Quero o café com açúcar, de amargo chega a vida!”. Ouvia-se muito uma tal expressão. De uns tempos para cá ela desapareceu, e se ressurge, vem invertida: “Sem açúcar, por favor, de doce já basta a vida”. Hoje em dia a vida deve ser doce. Temos de professar isso. As inúmeras revistas em que moças jornalistas, psicólogas e até filósofas escrevem para outras moças, diz tudo: a vida tem que ser “simples”, “leve”, “sem culpa”. Principalmente sem culpa. É necessário “viver bem” e isso significa viver sem fardos, sem preocupações e, confessemos, sem responsabilidades que não sejam estritamente aquelas pelas quais somos pagos.

Em uma sociedade assim, é claro que o mal não pode ser encarado. O mal não existe.  Segundo Hannah Arendt, nem mesmo os filósofos souberam enfrentá-lo, uma vez que evitaram conversar sobre a liberdade e a faculdade por ela responsável, a vontade. Aliás, só Santo Agostinho e Nietzsche trataram da vontade considerando-a uma faculdade, analisando-a psicologicamente. Os demais, de uma forma de outra, fugiram dela ou lhe deram um tratamento ameno. Nada que possa ter que lidar com decisões e criações, o que envolve responsabilidades e fazer o bem e evitar o mal, ou lutar contra ele, é encarado. A TV expressa bem isso. A Rede Globo nunca consegue enfrentar o mal como mal nas suas novelas. Uma personagem má deve chegar ao final como boa, ou morta ou louca. Como má, ela não termina. O mal não pode ser visto senão como transitório, contingente, nada realmente com que tenhamos que nos preocupar. Encarar o mal? Não! Podemos admitir a existência de gente bem má? Caso admitamos, não teremos que pensar que também somos como tais pessoas? Sim! Ora, não temos essa coragem.

Inauguramos assim a sociedade da fuga e da solução fácil para tudo. Cada uma dessas posturas acarreta seu próprio movimento social. A primeira leva adiante a vida do entretenimento, em especial o entretenimento que não envolva pensamento ou reflexão. Trata-se do advento da época dos consultores associado à gincanização da sociedade. A segunda leva ao imperativo ético do momento: o descarte.

Pelo primeiro movimento, se somos sujeitos e temos então de nos desinibir, procuramos razões não mais em nós para a ação desta ou daquela forma. Contratamos consultores. O consultor nos dirige ou faz o que teria que ser feito por nós. Ele tem as razões, as justificativas, os elementos teóricos para fazer a ação, antes por nós desempenhada, uma vez que éramos o sujeito. Do consultor de empresas ao personal trainer ou do professor de computação particular ao professor de coisas como “Casa do Saber”, o mundo faz da regra “faça você mesmo” algo substituído por “pago alguém para fazer e eu até penso estar aprendendo junto”. Dizem alguns que gostariam de apenas ter de fazer sexo com suas mulheres, cedendo-as logo a um amigo gay que iria sair com elas para as compras e até mesmo dormir de conchinha com elas, de modo a não atrapalhar no futebol na sala com os amigos e cervejas. Tudo que envolve vontade, deliberação, criação, responsabilidade deve ser abolido. “A vida tem de ser vivida!” Inclusive o trabalho tem se der feito de gincana em gincana, dessas que existem em diversos tipos de reality show. E a escola, então, só vale se fora “atrativa”. Os passeios só fazem sentido se carregados pela gourmetização. O cuidado com consigo mesmo só recebe aval se for algo sem sacrifício, como o feito naquela academia em que em um mês você consegue um corpo do Capitão América ou a beleza de alguma mulher de jogador de futebol famoso (a academia, nessa caso, é mero pretexto para outras práticas). Além disso, devemos produzir imagens com isso, representações, para garantir mesmo que estamos tendo essa vida leve, e o aval do olhar de todos é que nos garante isso. Então, haja selfies para sustentar isso. Eis o real e atual “império dos sentidos”.

O segundo movimento está perfeitamente coadunado com o primeiro: tudo que vier nos tirar desse falso paraíso da banalidade e do não pensamento, não tem que ser enfrentado, equacionado e solucionado. Muito menos se tiver que envolver emoções, pois isso pode nos dar parâmetros para ver se nossa ação foi boa ou não. Então, descartar de pronto o incômodo é o melhor. Descartamos fetos (como se o bebê nascido fosse diferente de um feto), descartamos cães (como se até ontem o cãozinho não fosse nosso amigo), descartamos amigos (como se amigo tivesse de ser só para horas boas), descartamos os mais velhos (como se eles não tivesse cuidado de nós ou se não tivessem sabedoria para nos dar), descartamos presidentes (queremos dar golpes de estado, como se o nosso candidato fosse melhor e fosse entrar após o golpe, ou como se quem ganhou não fosse com o nosso voto) e assim por diante. Antes que o problema vire problema, e que então nos faça deixar a atividade meramente sensorial da gincana e do selfie, movimentamos a máquina do descarte. Nada de responsabilidade. Menos ainda culpa. Lembra-se daquela música “Tô nem aí,Tô nem aí… Não vem falar dos seus problemas que eu não vou ouvir”? Pois é, sua verdadeira época chegou agora.

“Viver bem” é isso. Há até uma tal de “filosofia pop” se passando por filosofia ensinando isso. E há também nos jornais filósofos num blá-blá-blá medonho, que parece invocar responsabilidades, mas se olharmos bem, lá estão eles também comprometidos com a prática do descarte, essa prática denunciada pelo professor de filosofia argentino Mário Jorge Bergoglio.

Nessa prática, no fundo o que está em jogo é não vermos como funciona a vontade, mas só notarmos como se manifesta o desejo.

Paulo Ghiraldelli 57, filósofo.

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4 Responses “A vida leve como imperativo”

  1. Leni Sena
    29/05/2015 at 12:21

    Paulo, isso é terrível. Essa indiferença com as situações provocadas pelo mal não deixa de ser uma manifestação de vontade do sujeito através de uma procuração em branco. Como vc mesmo falou, falta coragem para admitir isso. O que nos leva a um estado de desespero com a situação. Como o sujeito vai se sensibilizar e quem sabe remir o mal que causa se está anos luz longe do que ele provoca, simplesmente, lava as mãos a tudo? Como que ele vai encarar o outro se o mesmo já despiu de si?

    • ghiraldelli
      29/05/2015 at 12:25

      Somos santos se somos indiferentes, é algo mais ou menos assim que Cioran diz.

  2. bony
    29/05/2015 at 04:45

    Já que você tocou no assunto do mal. O que é o mal? Qual a relação do dinheiro com o mal?

    • ghiraldelli
      29/05/2015 at 12:30

      O artigo de hoje, comentando Calligaris, talvez dê indicativos.

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