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27/06/2017

A vida (in)suportável contemporânea


“Os homens gastam seu tempo perseguindo uma bola ou uma lebre, é o esporte próprio dos reis.” Pascal é o autor dessa célebre frase, que está em seus Pensamentos. Por essa via, talvez seja mais fácil reconhecer nele o espírito dos tempos contemporâneos, os nossos tempos, deixando assim Bacon e Descartes, preocupados com domínio da natureza e as diabruras do método, o mérito de “pais do pensamento moderno”.

O que Pascal notou em seu tempo foi o surgimento do “homem do divertimento”, aquele que não pode deixar de estar fazendo algo, se objetivando, se entretendo seja com o trabalho seja com o divertimento mesmo, uma vez que está vazio e, se solitário e pensativo, entraria em desespero ao encontrar o nada. Aliás, Pascal chegou a enunciar o “eu” como o que depende só de predicados, não tendo nada de substancial ou não sendo nada em si mesmo. Com isso, ele deu um salto em séculos da modernidade. Ele chegou a nos ver hoje, bem além das promessas e derrotas modernas. Mais do que nunca estamos, hoje, envoltos no “divertimento” como uma tábua de salvação. Tábua furada, o resto de um barco que fez água.

Mas como chegamos nisso? Como nos transformamos nos adeptos da religião do divertimento, ou seja, do entretenimento. Como elegemos o deus “reality show” como o melhor dos nossos espetáculos ou como o suprassumo de nossa condenação ao voyeurismo da “sociedade do espetáculo”? Como que chegamos ao ponto de só poder fazer alguma coisa se temos a ilusão de que ela é prazerosa, que ela é “animante”, que ela pode nos livrar de ter de pensar nela própria? Como que chegamos a isso, hoje, a sociedade do sexo sem erotismo, da gourmetização sem saborear a comida, da academia que não nos deixa forte e que nada vale porque conseguiremos a “forma” através da “bomba”? De que modo se tornou verdade a ideia de que a escola só é boa se for “atrativa”, ou seja, um brinquedo? Por que temos de ter bola e coelho em tudo, para nos divertir, distrair, assistir, participar? Por que o comprometimento com gincanização de tudo, logo após um mundo que prometia ser exatamente o contrário, o mundo do trabalho duro?

Marx, Durkheim e Weber falaram da modernidade justamente quando ela estava em passos decisivos. Quando da instauração do “mundo do trabalho”. Marx falou da libertação do trabalhador e sua entrada no mundo do trabalho como mais uma mercadoria nas mãos, as suas próprias mãos, ou seja, a sua força de trabalho. Durkheim falou da civilização alcançada de maneira a evitar a anomia se pudesse dividir corretamente o trabalho, a divisão orgânica, moderna, dispensando a divisão mecânica, comunitária e arcaica. Weber falou do trabalho e do risco empresariam como valor moral, como o elemento de comando de uma nova ética a azeitar melhor uma sociedade que não tinha mais como capa a religião. Mas, em um prazo de menos de um século, todas as “utopias da sociedade do trabalho” que poderiam vir acopladas, criticamente ou não, a esses teóricos, perdeu o sentido. Liberalismo, socialdemocracia, comunismo, trabalhismo populista, nazismo, fascismo, democracia cristã etc. – tudo isso perdeu o sentido uma vez que todas essas correntes estavam presas a algum elemento de realidade que coube na análise desses três grandes pensadores do mundo moderno. As energizações vindas disso deixaram de mover-nos.

Continuamos trabalhando e procurando trabalho. O mundo capitalista está intacto no que pode estar intacto. Mas nossa vida não mais é empurrada por motivos e por uma moralidade advinda do trabalho. Não, não voltamos aos tempos aristocráticos de uma moral sem trabalho. Não vamos perseguir a bola e o coelho como nobres, aristocratas ou burgueses de primeira viagem. Vamos perseguir coelho e bola como trabalhadores. Mas de que maneira ainda somos mesmo trabalhadores? Não somos. Vamos fazer isso fora de classes sociais e de minorias sociais, adotando então nosso lugar na criação de tribos de entretenimento.

Saem de cena o pobre e o rico, o operário e o burguês, o gay e o não-gay, a mulher feminista e o homem tradicional, os negros e os racistas, os anões e os não-anões etc. As distinções tradicionais, ou melhor, tipicamente modernas, dadas pela “sociedade de direitos”, geradas pela via europeia (social democracia) ou pela via americana (minorias), perdem sua legitimidade ou ficam à margem, dando espaço para tribos regidas cada uma por um tipo de entretenimento. Os gourmets, as lésbicas só de modinha, os frequentadores de academia sem saúde, os neofascistas sem doutrina fascista, os do skate, os da maconha sem ritual, a “galera da facul”, os “youtubers”, os da torcida organizada “neohooligan”, os “da balada”, os “do selfies” etc. Todo mundo está como o “homem do divertimento” de Pascal, mas agora sem qualquer perspectiva que não seja a não-perspectiva. O entretenimento atual é o reality show banal, pequeno, sensual sem sensação, desespiritualizado, mas que possa garantir os efeitos da bola e do coelho, ou seja, que ninguém venha para casa, para si mesmo. Que ninguém ouse orar, pois rezar é voltar de fato para casa, e pedir proteção dos pais não como criança, mas na lembrança da criança. Isso seria uma retomada de um eu não vazio. Por isso, a religiosidade autêntica é tão proibida quanto a filosofia autêntica, nessas circunstâncias.

Nessa nova “sociedade do espetáculo”, ainda vale alguma coisa da “análise da mercadoria”? Bem, claro. Se fôssemos marxistas diríamos – e acertaríamos bem – que na base dessa diversificação há uma democratização igualitária de tudo e de todos por meio da abstração. Se tudo passa pela lógica do mercado, então tudo ganha valor de troca e não mais de uso, se tornando então o que se eleva ao que é abstrato, o elemento que cria a equivalência do desigual, o dinheiro. Desse modo, é visível que tudo fica sem rosto. E a vida sem rosto é triste. Mas insuportável mesmo é a perda do próprio rosto. Uma vez que nem mais as identidades de classes e de grupos minoritários é possível, que venha então, para fazer os humanos recuperarem algo que parece ser propriamente humano – a diversidade do rosto –, o que é a universalização do entretenimento, de modo que cada um ganhe sua identidade social, agora, a partir do reality show que participa. Há os entretenimentos novos – a gourmetização; há os velhos, que é a transformação de antigos espaços em espaços de entretenimento: a escola atrativa, o trabalho em forma de jogo na empresa, o sexo lúdico capaz de se utilizar de mil e um apetrechos de brinquedo e de remédios. Ninguém pode parar. Só se pode pegar o novo rosto e usar. Pensar pode trazer o vazio, se entreter traz a completude pois, uma vez no espelho, dá o rosto e este é que dá o sentido de cada um na vida, na sociedade atual. Não se trata mais da máscara da sociedade de corte, como ensinou Elias, se trata do rosto mesmo como máscara de uma sociedade em que há quantas cortes quanto forem necessários os coelhos e as bolas.

Nesse ambiente, sai a TV e entra a TV particular, ou seja, a Internet. E com isso os joguinhos móveis. Enquanto não chego ao trabalho ou na casa da namorada para integrar o reality show do dia, o novo entretenimento, então eu vou já me entretendo no carro, no ônibus, no avião ou no ponto de ônibus, no aeroporto etc. por meio das mil e uma formas de ludicidade falsa do meu celular. “O mundo em suas mãos” – me prometeram e cumpriram! Não me fizeram grande para abraçar o mundo, mas o diminuíram em tudo para que eu pudesse pô-lo no bolso. Bastou fazer dele o lugar par excellence da bola e do coelho.

Ao mesmo tempo, ponho tudo isso no facebook e outras redes sociais, para que a “sociedade do espetáculo” se faça como resultado indireto da mercadorização, e dê a todos mais um jogo. Trata-se do melhor jogo, que é o do voyeurismo. Que a bola e o coelho se façam de alguma forma presentes. Ninguém vai ficar de fora. Todos vão ficar dentro. Dentro do que? De tudo que for o não-pensamento e a não decisão da vontade, mas somente a domesticação do desejo.

Não nos suportamos mais como seres que lidam com a liberdade, a verdade e o significado, ou seja, os elementos relativos, respectivamente, às faculdades da vontade, intelecto e razão. Isso nos daria de volta nossa imagem de homens e mulheres. Ora, não acreditamos mais nisso, que podemos ser homens e mulheres como já fomos. Aquilo tudo, agora, nos parece muito chato. Humanismo? Bah! Argh!. Queremos rostos novos, mais divertidos, rostos que não cansem ninguém, que sejam os do momento. No momento estou posando no facebook como um homem sem pênis. Mostro a “mangina”. É meu novo rosto, minha nova transgressão e aventura, e assim estou me divertimento e minha criação de mini espetáculo garante o voyeurismo e o divertimento do outro. Minha bola e coelho, de um reizinho que sou eu, estão no centro de atenções de meu palco. Não é egoísmo ou egocentrismo ou narcisismo. Eu deveria ter um eu para que fosse tal coisa. Mas não tenho, tenho apena a bola e o coelho. Mas, na verdade, não sei o que é bola e coelho, apenas ouvi dizer que são coisas que um filósofo falou. Ora, um filósofo? Então nada de importante. Nada que possa competir com uma sociedade esfuziante que exibe mil rostos lindos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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17 Responses “A vida (in)suportável contemporânea”

  1. Matheus Kortz
    15/08/2015 at 11:23

    La boetie já nos indicava tambem que a liberdade é o mais dificil, ter de lidar com as próprias escolhas, os próprios desejos que consistem em um encontro com esse vazio. Se para ele, no paasado, nos subordinariamos a um tirano, para nao termos a dor da liberdade, agora temos que a tirania nao tem corpo, nem forma, nem nome, o tirânico é o proprio fenomeno, o jogo, o espetáculo, a rede que concentra o mundo na palma da mão. Lutar contra um ente invisivel deve ser mais difícil, e se poderiamos apenas contestar e nao obedecer, também agora é mais dificil, pq teriamos de passar cada açao a um crivo de pensamento para nao se enredar nessa despiritualizaçao generalizada. Talvez mais dificil para quem nao pensa, ou nao tem por habito o pensar. Quem pensa ou lê o Sr nao escapa desses “problemas” , mas tem a total certeza de que eles existem. E isso é o que importa, podermos entender um pouquinho nelhor esse mundo maluco, e tentarmos na medida do possivel sermos.melhores a despeito de qlqr pondezinho que ri de um “mundo melhor”. Sempre grato, ghiraldelli!

  2. Clodoaldo Manduca Januário
    31/05/2015 at 14:15

    Ler este texto do senhor me trouxe um certo alívio…eu venho falando há muito tempo sobre o fato de que vivemos, mais do que nunca, a era da “idiotização” do ser humano…e aí leio este texto num dia de profunda tristeza e crise existencial e vejo que não estou sozinho, há quem pense como eu…talvez eu não esteja louco como muitos acham que o sou. Obrigado. Um abraço.

    • ghiraldelli
      31/05/2015 at 15:41

      Clodoaldo a “era do descarte” está aí, estamos participando dela.

  3. Patrick E Rô Davies
    28/05/2015 at 16:26

    Ao autor cabe-me questionar se ele sabe a diferença q há entre a realidade atual e aquela da década de 70??? Se Lula falou q hj o filho de pode estudar é pq hj as faculdades pagas são acessíveis!!! Um pouco mais de aprofundamento para mais este ‘filósofo brasileiro’!!!

    • ghiraldelli
      29/05/2015 at 12:30

      É sim Patrick, eu sou jovem, inexperiente e, em matéria de história da educação, estou no começo, completo em 2015 só 30 anos como autor na área. De fato, sou um filósofo que precisa de mais aprofundamento. Mas, por enquanto, não posso mudar a realidade que descrevi. O meu aprofundamento pequeno dá conta dela, principalmente diante daquele que nem sabe o que foi o “problema do excedente” e como se organizaram as reformas universitárias. Bem, mas o petismo é assim mesmo, tornou-se tão ignorante quanto o discurso da direita. Não à toa Lobão era do PT.

    • Patrick E Rô Davies
      01/06/2015 at 09:32

      Prezado, ser doutor ou ainda viver de publicar não o faz diferente ou superior a qq um. Vc tem seus méritos e reconheço-os. Ao realizar meu comentário, referia-me não ao seu texto, mas a uma parcela lateral do post q citava o ex-Presidente. Vossa reação demonstrou a aversão àqueles q reconhecem valor no ex-Presidente ou no sistema implantado por ele. Na década de 70 era muito difícil ‘bancar’ uma faculdade. Na gestão Lula esta hipótese ficou mais simples e barata. Mas como V.Sa. está blindado às inovações ou contribuições do ‘petismo ou lulismo’, fique! Abraços,

      Em Sexta-feira, 29 de Maio de 2015 12:30, Disqus escreveu:

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      ghiraldelli
      É sim Patrick, eu sou jovem, inexperiente e, em matéria de história da educação, estou no começo, completo em 2015 só 30 anos como autor na área. De fato, sou um filósofo que precisa de mais aprofundamento. Mas, por enquanto, não posso mudar a realidade que descrevi. O meu aprofundamento pequeno dá conta dela, principalmente diante daquele que nem sabe o que foi o “problema do excedente” e como se organizaram as reformas universitárias. Bem, mas o petismo é assim mesmo, tornou-se tão ignorante quanto o discurso da direita. Não à toa Lobão era do PT. 11:30 a.m., Friday May 29 | Other comments by ghiraldelli |   |
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    • ghiraldelli
      01/06/2015 at 18:02

      Patrick! O Lula recita um populismo desgastado, velho. Pode enganar alguns com isso. Mas não a mim. O populismo tem um segredinho básico: ele fala a verdade, porém sua verdade não funcionário da verdade, mas da mentira. Meu texto mostra isso. O Brasil tinha uma escola para trabalhadores sim, não para miseráveis, mas para trabalhadores. Tanto é verdade que Lula FEZ escola. A expansão que Lula fez no ensino, e que foi a maior que um presidente já fez, esconde baixos salários, descuido com a qualidade, quebra de hierarquias. O Brasil investe em educação, e muito, e não melhora seus índices. O populismo quer números e maquiagem. Agora, você não lê meus artigos, leu um só, ficou com raivinha porque um “doutô” falou algo do seu amado, e ficou já requebrando. Você pode ler mais e verá que sou dos poucos que reconheço benefícios do PT. Mas daí eu virar trouxe, me desculpe, não dá. Existiu um Brasil antes do PT. E não era o lixo que Lula fala. Ele sabe disso, quando ele lembra como eles estudou, ele finge não estar lembrando de nada.

    • bony
      02/06/2015 at 09:02

      Patrick, no mundo civilizado universidade é pra quem pode, não quem quer. O Brasil tem muita gente em faculdade paga, mas essas faculdades pagas não são estabelecimentos de ensino superior de qualidade. Nós todos sabemos que isso tudo serve pra beneficiar empresário, dono de escola, e não o pobre (ou o rico burro que não passa no vestibular, se é que vestibular ainda existe) que sai da universidade tão intelectualmente e profissionalmente despreparado quanto quando entrou. Estudar não é para todos. Nunca será. É preciso vocação e estamina mental, nem todo mundo tem.

    • Matheus Kortz
      15/08/2015 at 11:10

      Patrick, isso nao tem nada a ver com o assunto. Veio querer se divertir aqui minino? Acho que a esse tipo de diversão (e nao divertimento) nao es capaz de aceder

  4. Douglas Torres
    28/05/2015 at 16:08

    Professor, esse texto complementa o papo do vídeo “Filosofia e gourmetização” que assisti ontem e que já tinha me feito refletir bastante. Muito bom! Essa ideia da atual busca constante por divertimento como tábua de salvação é algo que o senhor começou a trabalhar nesse texto ou já a aprofundou em algum de seus livros? Quero ler mais. Grato.

    • ghiraldelli
      29/05/2015 at 12:31

      Douglas, acompanhe meus livros e meu blog, esto cercando galinha no quintal, é assim que trabalho os temas.

  5. Maria Cecilia Mansur Oliveira
    28/05/2015 at 13:28

    Olá Paulo!
    Seu texto é uma excelente referência para o trabalho que estou desenvolvendo. Estou começando a montar um blog mas minha ideia é que seja uma revista on line tb … Gostaria muito de poder trocar mais figurinhas contigo a respeito desse texto . Como faço?
    http://gostosa171.blogspot.com.br/

    https://www.facebook.com/pages/GOSTOSA/1493987077480679?ref=hl

    MC²=maria cecília mansur !

  6. barbara.teles
    28/05/2015 at 10:01

    Leio e releio o blog sempre! acompanho todos os comentários que, muitas vezes, me ajudam no entendimento…
    Engraçado que estou grávida e esses dias vinha pensando: “Será que saberei explicar para o meu filho que nem tudo na vida é divertido ou diversão? Que existem tarefas árduas, porém extremamente gratificantes e indispensáveis, como o “torna- te aquilo que és” que só podem ser realizadas por gente brava?
    Este texto mexeu ainda mais com minhas estruturas que já vem passando por abissais reboliços … Excelente, Paulo! Parabéns e obrigada!

    • ghiraldelli
      28/05/2015 at 12:34

      Bárbara escrevo para gente como você, inteligente e que pode ter reboliços. A coisa mais dura é lidar com gente que é incapaz de ter reboliços. Agradeço por ler minhas coisas. Sabe que tenho lançamento de livro dia 6, não?

  7. Milena Marques
    27/05/2015 at 23:04

    Infelizmente não o conhecia, porém a leitura desse seu texto nessa minha madrugada insólita veio mesmo a calhar, excelente abordagem da nossa geração que não gera ação, que é objeto para contemplação do outro, outro cujo qual nem sei, pretendo seguir lendo seu blog e assistir seus videos, desde já parabéns!

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 23:49

      Milena obrigado! Veja no meu blog, na capa, que tenho lançamento dia 6 na Martins Fontes!

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