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23/11/2017

Além do pós-moderno: a sociedade gincanizada


Richard Rorty tinha um lema nada simples de entender: “Antes esperança que conhecimento”. Endossei tal lema. Mas, sabia bem, isso devia ser explicado. O que o filósofo americano, meu amigo, queria dizer é que o conhecimento teórico nos empurra para a ação como que munidos de verdade, e esta, não raro, pouco nos ajuda. Ao contrário! Essa munição mais nos encaminha para o dogmatismo e para a política da exclusão; enquanto que a esperança nos põe abertos para a sorte, para a contingência, para a mente disponível para o novo e, enfim, dispostos a viver o amanhã. Rorty nunca quis dizer com tal lema que deveríamos ser ignorantes de livros bons e desconhecedores de ocorridos importantes e, ao mesmo tempo, esperançosos como quem aguarda milagres.

Tendia a aceitar essa frase de Rorty porque, usando uma linguagem de Peter Sloterdijk, a desinibição para a ação, necessária ao homem que quer se por como sujeito moderno, é um consultar-se a si mesmo, mas nem por isso nos faz reflexivos em um sentido saudável. Quando encontramos em nós mesmos bons argumentos ou mesmo quando nada encontramos e requisitamos consultores externos para nossa desinibição, estamos já, de antemão, premidos pela necessidade da ação, de irmos da teoria à prática. Estarmos no mundo moderno é, de certo modo, ter de agir como sujeito, inclusive para poder ser um ego ou mesmo um ser um humano. Essa completa recusa do momento da indiferença, tão celebrado por Emil Cioran, parece não fazer sentido ao homem moderno. Ele quer decisões!

A democracia é uma prática moderna de vida política e social. Ela exige reflexão e conversação. Mas o terrível é que ela também funciona, ao menos segundo uma de suas aparições, com opiniões rápidas e ações tomadas a toque de caixa e completamente descabeladas. Fazer a democracia ser eficaz é, não raro, torna-la rápida. Na rapidez, perdemos a capacidade de ruminarmos mais tempo decisões, e vamos à prática de uma maneira que mais lembra a ação do fanático que a ação do planejador ponderado e capaz de ouvir admoestações populares e técnicas.

Essa ideia de que as coisas precisam exibir performances para se legitimarem faz de nossas vidas uma vida de competidores e, portanto, de vencedores e perdedores. É a forma pela qual, justamente em uma sociedade em que predomina a paz, que é a sociedade moderna, exista o culto do vencer, e não o culto da honra, que é o que predominava em sociedades guerreiras. Vencer é a virtude moderna par excellence. Vencer em uma situação onde não há muito a quem efetivamente derrotar, tende a se tornar, então, algo como mostrar performance, apresentar resultados de êxito. Colocam-se scores para inúmeras coisas e atividades e sobre tudo se pode ter, então, vencedores.

É dessa maneira que uma série de jogos da indústria do entretenimento, cujo conteúdo é regrado pela apresentação de performance, se torna importante e acaba impregnando toda a nossa vida. O reality show nada tem de realidade, ele é um jogo chato em que, de vez em quando, entre outras tarefas tenta mostrar o sexo como se fosse algo íntimo, algo que ninguém sabe como é. Ele não imita a realidade, mas ele dá padrão para que mais pessoas que não sabem o que é vencer, possam vencer. Vencer em uma sociedade com esse imperativo, e não ter a que ou a quem verdadeiramente derrotar, é vencer mostrando performances como as alcançadas no reality show. A vida toda é apressada e com scores no horizonte encurtado, de acordo com uma grande gincana. A gincana e similares dominam os modelos postos para o adolescente como simuladores da vida. Do futebol de Copa do Mundo ao Programa Aprendiz o que há são variações de gincanas. O lúdico pré-formatado comanda o entretenimento e a vida. Ele se põe como sendo a vida, e nem mais mais é o lúdico.

Na há competição real nisso tudo. Isso porque o próprio modo de produção capitalista, na atual circunstância, não vive mais da competição. Ele se desenvolve na base de grandes monopólios, e a tal da competição de mercado e sua benesses para a meritocracia em todos os níveis já se esvaiu faz tempo. Há então a falsa competição que é o entretenimento esportivo em formas de gincanas. Fica-se com a ideologia enquanto fantasma, quando o empreendimento real que lhe dava guarida desaparece. Ficamos com a gincana como ideologia da competição.

Saímos de vez da sociedade do homem como sujeito enquanto uma imitação do empreendedor ou empresário, que Weber via como o homem racional que se arrisca, para o pseudo sujeito que consulta outros sobre o que fazer, mas dentro de um fazer que nada é senão a vida como um enorme Play Center, um enorme parque de diversões que resulta na maratona de tarefas, a gincana máxima cercada de pequenas gincanas de todos os lados.  É nessa sociedade que o vencer adquire outro caráter. É nessa sociedade que há vencedores que vencem e vencedores que deverão entrar mais uma vez no jogo, deverão esperar a sua vez. A ginganização do mundo não tem parada. Os regradores da gincana universal ocupam os lugares dos consultores. Estes, por sua vez, se transportam rapidamente para o campo da auto-ajuda e, dependendo do momento, fazem críticos políticos e pseudo humoristas de Stand Up se igualarem a eles mesmos. Professores e filósofos, se não são dispensados, são convidados a imitar a performance do Stand Up (a Casa do Saber está aí) no contexto de uma sociedade que não admite qualquer admoestação, porque o próprio erro nunca é fatal. Posso me inscrever de novo na próxima temporada!

Compreender essa gincanização da sociedade e ver que os sistemas todos, inclusive os políticos, reproduzem a vida que emana dessa nova condição do sujeito moderno é apreender um dos desdobramentos da modernidade. Não é propriamente a vida em pós-modernidade, como há pouco tempo dizíamos, repetindo a fórmula de Jean-François Lyotard. Para ele, a pós modernidade tinha como característica central o fim da crença nas metanarrativas. Ora, isso não está mais em pauta. Tanto faz para as gerações atuais se há ou não metanarrativas ou narrativas. O que importa é que as narrativas se apresentem por meio de imagens e regras simples, de modo que cada um ganhe condição de humano ou de ser vivo à medida que está apto a participar da gincana da próxima esquina, seja ela a convocação para a faculdade ou para o serviço militar ou para um partido político ou para o casamento ou, enfim, para o próprio reality show do semestre, ou então a condição de torcedor oficial da Copa e coisas do gênero. É um mundo em que a política se dilui no entretenimento também, e condição de torcedor é praticamente a que lhe dá a nova carteirinha de cidadão.

Como denominaremos esse tempo? Devemos falar em pós-pós-modernidade? Seria tolo. Inconveniente. Talvez seja melhor não falarmos nada senão entendermos que estamos em mais uma fase da chamada modernidade tardia. Não batizar aqui isso tudo vai evitar perdermos a razão cedo. Mas, em todo caso, seria também tolo não perceber que estamos vivendo em uma época que podemos ver como a era do divertimento segundo a gincanização.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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5 Responses “Além do pós-moderno: a sociedade gincanizada”

  1. Adalberto Barreiros
    14/07/2014 at 21:01

    Viu a repressão? Absurdo! Eu não entendo como nosso judiciário pode ser complacente com isso. Por que o processo de desmilitarização é também tão difícil?

  2. Paulo Roberto
    11/07/2014 at 00:56

    Professor Paulo Ghiraldelli, seus textos são admiráveis, inteligentes, e nos leva a refletir sobre o nosso cotidiano. Parabéns! De fato, o título que ornei o seu nome é digno de honra, pois realmente o vejo como um grande professor dos tempos atuais; além, claro, de ser um grande filósofo. Como gostaria de ouvi-lo em um curso ou palestra ou algo desse tipo. Gratificante!

    Abs

    Paulo Roberto

    • 11/07/2014 at 01:54

      Paulo Roberto, estamos toda terça 22 horas no Hora da Coruja

  3. Daniel Lettieri
    10/07/2014 at 00:43

    Sr. Ghiraldelli,

    O Senhor é fantástico. parabéns pelas suas postagens.

    • 10/07/2014 at 10:54

      Daniel, se gostou, participe do Hora da Coruja!

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