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24/04/2017

A sardinha assada de Desidério Murcho


Sociedade de ladrõesO professor Desidério Murcho levanta o argumento provocador de que vivemos em uma “sociedade de ladrões”. Qual a razão de julgamento tão negativo quanto a nós todos, no Ocidente, supondo que vivemos em estados mais ou menos ligados ao modelo do Welfare State?

Murcho diz que ele não gostaria de viver em uma sociedade que tivesse como modelo de justiça o que John Rawls nos convida a fazer. Qual o convite de Rawls?

Rawls nos convida a preparar uma sociedade mais ou menos como a nossa, democrática, liberal e de mercado, mas com regras de justiça bem claras. Faríamos isso sem saber em qual lugar social dessa sociedade iríamos cair, depois de regra-la.  Mas que, sem dúvida, seríamos nós mesmos que iríamos viver nessa sociedade. O filósofo norte-americano aposta que, assim propondo, agiríamos de “maneira racional”, não optando pelo liberalismo clássico, mas enveredando por um regime mais ou menos como o Welfare State. Ou seja, um regime em que os mais pobres teriam ajuda dos mais ricos, enquanto que os mais ricos poderiam se desenvolver tranquilamente, sempre, no entanto, lembrando que esse desenvolvimento não poderia se dar de modo completamente egoísta, mas segundo a responsabilidade de pagar os impostos para que a distância entre ricos e pobres não se tornasse cada vez maior.

Ora, por que Murcho chama essa sociedade de uma “sociedade de ladrões”? Por que ele considera essa sociedade imoral?

Ele diz que ela é imoral exatamente no sentido que Rawls diz que ela é racional. Qual a racionalidade envolvida aí? A racionalidade do interesse de cada um. Não sei que lugar irei cair na sociedade regrada, então, vou montá-la como sociedade de tipo social democrática, um Welfare State, pois se eu cair no campo dos mais pobres, ainda assim eu não estarei completamente desgraçado, terei uma ajuda estatal. Caso eu tivesse de regrar essa sociedade, mas não para eu próprio nela morar, será que eu escolheria uma sociedade baseada no Welfare State? Murcho faz essa pergunta exatamente para que se pondere o seguinte: regrar algo para nós mesmos nos faz colocar nossos interesses na jogada, defender nosso ponto de vista, “puxar a brasa para nossa sardinha”. “Puxar a brasa para a própria sardinha”, segundo Murcho, pode se racional, mas não é moral.

O raciocínio de Murcho me parece claro e creio que ele tem razão. Todavia, ele tem razão se concordarmos com ele que racionalidade vai para um lado e moralidade vai para o outro. Ou dizendo de um modo melhor: que a racionalidade invocada no caso, a que expressa “puxo a brasa para a minha sardinha”, guarda não só características racionais, mas guarda características egoísticas. Ora, como não admitir que, sendo egoísta, não se é, ao menos em um determinado nível, imoral?

Tudo resolvido então? Podemos dispensar Rawls como o campeão de justiça imoral, como Murcho parece querer decretar?

O que Murcho parece deixar de lado é a questão da “fundamentação da moral”. Ele não põe em questão o que ele entende como moral. Para ele, moral é desde o início incompatível com qualquer ação que não seja puramente altruísta. Ou se é completamente altruísta, para além de qualquer mudança histórica, ou não se é moral. Posso entender isso, mas não preciso achar que isso tem de ser tomado de maneira acrítica, como sendo uma verdade que em momento algum deva ser questionada.

Creio que um exemplo simples pode ser dado, no sentido de criticar isso. Trata-se de um exemplo utilizado por Mucho em sua fala. Ele diz que quando nós, professores, fazemos uma greve, nós dizemos que “a educação é importante”, e com isso queremos apenas “puxar a sardinha para a nossa brasa”, ou seja, queremos tirar do empregador, o estado, um salário maior. Concordo plenamente com ele. Mas, caso ele puder fazer uma reflexão menos objetivista e, então, levar em consideração a subjetividade de cada reivindicante, ele irá notar que vários dos professores, talvez espantosamente, não estão dizendo que “a educação é importante” sem acreditar realmente nisso. É difícil afirmar peremptoriamente que todo professor acredita que a educação é desimportante, que tanto faz termos uma sociedade educada ou não, e que estamos dizendo o que estamos dizendo, ao louvar a educação, apenas para tirar o dinheiro do estado, ou seja, para egoisticamente “puxar a brasa para a nossa sardinha”.

Caso pudéssemos realmente afirmar isso, que cada um de nós, professor, é alguém incapaz de ter um discernimento sobre prioridades sociais, e que a despeito de qualquer outra coisa na sociedade, iríamos bater na tecla que ou se paga o professor com o maior salário ou então é injustiça, então Murcho estaria correto. Agiríamos egoisticamente. Mas não agimos assim. Na prática não só não agimos assim como não falamos isso. Nossos sindicatos puxam a “sardinha para a nossa brasa” dentro do um comedimento que chega até a ser bem condescendente com outras prioridades sociais. A práxis social na qual nos inserimos não nos faz sermos turrões, sermos grevistas profissionais, nem sermos vingativos de modo a nunca mais votar naqueles que não aumentaram nossos salários a ponto de nos deixar no topo da escala salarial. Ora, se é assim, não podemos dizer que ao viver em uma sociedade livre, com sindicatos livres e com a capacidade de poder “puxar a sardinha para a nossa brasa”, somos necessariamente todos egoístas. É bem difícil aceitar que estamos em uma sociedade que poderia ser acusada de “uma sociedade de ladrões”, ou seja, uma sociedade em que cada um só tem o único interesse de roubar uma parte do outro para aumentar a sua.

Não temos que dizer que a natureza humana é boa, com Rousseau, nem temos que admitir que a natureza humana é má, com Hobbes. Nem mesmo precisamos admitir que a natureza humana é sociável-e-insociável, como Kant propôs. Podemos simplesmente deixar de lado a ideia de natureza humana e apelar para uma moralidade que venha a emergir da nossa práxis social, da nossa prática ou, melhor dizendo, da nossa pragmática. Nosso vocabulário moral diz que somos corporativistas ao negociar salário, mas diz que, no caso dos professores, o corporativismo não é completamente egoísta, uma vez que nosso corporativismo, não raro, está inserido em um vocabulário moral mais amplo, da sociedade toda, pois em uma sociedade liberal como a nossa, em alguns momentos, é possível encontrar muita gente defendendo a ideia de que os professores merecem bons salários. Há momentos, sim, que a ideia de “prioridade da educação” não é hipocrisia de político no palanque e mero corporativismo egoísta de professor vendo o comício.

Pela regra de Mucho, nessa hora, teríamos de dizer algo pouco razoável: “todos são morais, pois admitem a educação como um setor a ser beneficiado, mas ao mesmo tempo, pelo mesmo motivo, os professores são egoístas”. Ora, entraríamos por uma situação pouco razoável e empiricamente incapaz de traduzir alguma verdade.

Desse modo, não há como tirar do campo histórico a moral de maneira que ela não possa olhar momentos em que, por tudo que sabemos, seria duro não admitir uma ação de “puxar a sardinha para a nossa brasa” como tendo o mesmo sentido e a mesma motivação (sim, a mesma motivação!) que é a ideia de beneficio social geral.

O que quero dizer é que se deixarmos de lado a cobrança de Murcho, no sentido de que um princípio moral como “temos de ser altruístas” seja válido aprioristicamente e para sempre, como um imperativo moral saído da consciência de cada um, então poderemos ver que, em determinados momentos agiremos egoisticamente, e seremos criticados, e em outros momentos não, e ao mesmo tempo não seremos criticados. Há concordâncias sociais nossas, de professores reivindicantes, com as da sociedade como um todo, que nos faz todos, sinceramente, se colocar na condição de altruísmo para uns (eles) e ao menos neutralidade para outros (nós). Uma situação assim seria uma situação em que diríamos: eis um momento em que vinga alguma moralidade, eis um momento em que estamos concordando e, ao mesmo tempo, adquirindo uma vantagem – uma vantagem para todos. Uma situação assim seria ao mesmo tempo de justiça e de lealdade, se quisermos aqui, para terminar, usar um termo de Richard Rorty.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

  1.  O professor Desidério Murcho é um amigo de longa data. Somos dinossauros do uso da internet na filosofia, como ele mesmo disse. Amigos de longa data que nunca se viram, podem trocar presentes no primeiro encontro. Não pude dar nenhum presente a ele, dado a balbúrdia de alguns visigodos-do-analfabetismo-funcional que perturbaram o ambiente de debate. Mas, eu, ao contrário dele, pude receber o presente. A fala dele foi um presente, pois foi tão gostosa e provocativa que fez com que eu escrevesse esse texto de uma só tacada, mesmo cansado

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8 Responses “A sardinha assada de Desidério Murcho”

  1. 04/12/2013 at 01:27

    Isso me lembrou uma palestra do Homero Santigo em que ele contrapunha a ética kantiana à espinosana, mostrando como a segunda podia se construir como uma ética interessada, que levasse em consideração os desejos do sujeito, diferentemente da primeira.

  2. Jonata Silvestre
    29/11/2013 at 19:57

    Murcho na Hora da coruja!!!!!

  3. adriano de oliveira
    25/11/2013 at 19:27

    Muito Obrigado Professor. Gostei muito de acompanhar o pensamento, especialmente após a afirmação “moral é desde o início incompatível com qualquer ação que não seja puramente altruísta. Ou se é completamente altruísta, para além de qualquer mudança histórica, ou não se é moral” – muitos que detestam pagar impostos creem fervorosamente na meritocracia. Também acredito que nossa vida “vivida” nos leva a uma prática ético-moral que bem compreendida leva a descoberta que a “verdade” política humana está simplesmente na moeda amor-perdão.

  4. Daniel Haddad
    24/11/2013 at 22:40

    Muito bom o texto, Paulo! Fiquei com uma sensação de estranhamento para com esse altruísmo absoluto do Murcho. Me parece que se eu fosse um individuo um tanto isolado das outras pessoas, mesmo que minha vida não valesse tanto para elas, eu deveria defende-la com unhas e dentes em detrimento a algum ganho para a sociedade, e nós podemos pensar outros exemplos a favor de algum egoísmo. É claro que nesse exemplo entraria a lealdade do seu amigo Rorty como lealdade para consigo. Não sei se isso faz sentido.

    • 25/11/2013 at 01:36

      Murcho é um fundacionista, eu até acho que ele imagina que sem fundacionismo nem há moral.

    • Jessé
      25/11/2013 at 12:51

      É como certas pedagogas que não entendem a exclusão social/econômica. Para elas o mundo é todo certinho, todos tem tudo que querem, vivemos no Brasil maravilha. O desempregado é visto como alguém que voluntariamente não quer contribuir com a sociedade. No Brasil quase sempre os exploradores são vistos como bonzinhos, desde que tenham dinheiro. Quem não faz parte disso é visto ja a priori como a escória que não contribui com a sociedade. As pedagogas brasileiras atribuem o ladrão quem não faz parte da sociedade, ´ja esse pensador portugues parece atribuir de ladrão quem justamente faz parte do roubo(a sociedade)

  5. Jessé
    24/11/2013 at 04:32

    Talvez ele tenha percebido que predominantemente essa sociedade da ação racional leve a desajustes sociais mais amplos pouco notados (banalizados, para parafrasear o Ghiraldelli) ou mesmo negados pela ideologia mais aceita.
    Acho que o que ele diz se assemelha a uma crítica ao capitalismo. É uma perspectiva que, ao contrário talvez da visão dominante de racionalidade, mostra um outro vocabulário do conflito.
    Mas isso não definiria a totalidade, tal como o que ele critica não define. Mesmo nessa sociedade de ladrão temos certos tipos de locais e de encontros que produzem moral social.

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Filósofo