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28/02/2020

A prisão do Surfista Prateado


Quando era garoto me deparei com uma tragédia apavorante. No seu caminho pelo Universo, Galactus encontrou a Terra. Para ele, nada era senão mais um planetinha que deveria ser consumido, a fim de mantê-lo energizado para seguir seu caminho errante. No entanto, seu batedor, o Surfista Prateado, trabalhando para ele a contragosto, se opôs ao desaparecimento do nosso planeta. Motivo: nós. O argumento do surfista foi aquele que eu esperava: “eles, os terráqueos, possuem inteligência e sentimentos, você não pode destruí-los assim!”. Mas tremi da cabeça aos pés quando Galactus retrucou: “Surfista meu escravo, se sua vida dependesse de pisar em um formigueiro, você hesitaria?”

Fiquei num impasse. Não sabia se temia mais Galactus que eu mesmo, pois eu havia pisado em inúmeros formigueiros. Dali para diante, comecei a atentar para a vida ao meu lado, ao meu redor, de um modo cada vez mais diferente. Todavia, quando a nova revista do Surfista Prateado chegou às bancas, eu descobri então meu destino: para proteger a Terra o Surfista se insurgiu contra seu senhor; Galactus não consumiu o planeta, e por isso estamos aqui até hoje. Todavia, ele prendeu o Surfista dentro de nossa atmosfera por um escudo invisível. Aquele que foi feito para atravessar o universo em pouco tempo, passou a ter de viver em velocidade mais lenta, circunscrito ao tédio de um lugar no qual ele jamais poderia ser integrar. Amar a vida, os animais, os menores, os indefesos tem um preço: tornar-se esquisito. Tornar-se agora, brega, como dizem os “fortões” do momento. Os que gargalham com nazistas, para lembrar uma imagem de Adorno ao temer o riso.

Mais tarde um pouco, já no colégio, me deparei novamente com a situação entre Galactus esurfista e galactus o Surfista Prateado. Foi quando tive nas mãos uma literatura filosófica um pouco mais avançada. Sim, você já sabe do que estou falando, presumo. Trata-se da parte inicial de A República, do diálogo de Sócrates com Trasímaco, em que este defende o poder arbitrário em detrimento da justiça. Depois, fora do colégio, deparei-me com Nietzsche, expondo como que o poder arbitrário das forças cósmicas que, enfim, estão a serviço de mais-poder, de vontade de potência, não podem respeitar nenhuma justiça. Trasímaco então é retirado de sua condição humana para ser incorporado ao universo. Tratava-se praticamente da volta de Galactus. Novamente estava eu às voltas com a mais perigosa ameaça ao nosso planeta.

Para forças cósmicas que buscam se exercer comandas pela vontade de potência, ou seja, para Galactus, um quase Trasímaco do Universo, qualquer argumento é descartável. Mas se fosse possível ponderar algum argumento, aquele do Surfista, de que os fracos possuem sentimentos e inteligência, isso seria inócuo ou até pior que nenhum argumento. Pois também quem o emite logo se dá conta que colocou na jogada exatamente o que não poderia colocar. Pois se a vida dos mais indefesos vai ser pesada pelos valores “ter sentimentos” e “ter inteligência”, eis aí que uma tal vida se abriu para sua total desvalorização. Pois, quem disse que os avaliadores “do lado contrário” estão interessados nesses valores? Além disso, que pobreza é essa de dar mérito de vida para quem tem “sentimentos” e, pior ainda, “inteligência”?

O que Galactus, Trasímaco e as forças cósmicas nos mostram é que ou o indefeso é defendido por ser indefeso, simplesmente por isso, ou não teremos mesmo nada a fazer, ficaremos presos em uma única atmosfera, como o Surfista.

Diante de cães perdidos, diante de bois que se dirigem ao matadouro, diante de fetos que não sabem o que de mal lhes preparam com a agulha do lado de fora, diante de povos massacrados pelo imperialismo de todo tipo, diante daqueles que descartam seus velhos, diante dos que acham “brega” a compaixão, diante dessas forças que são os pés de Galactus nos amassando todos como formigas, o único argumento que realmente se pode colocar na jogada é o argumento louco: “olhe para eles, Galactus, será que não se reconhece mesmo neles, será que de longe não são seus parentes?” “Não há mesmo nenhuma empatia?” “Não são eles também errantes do universo, em uma nave mãe chamada Terra?”

Na verdade, se me recordo bem, Galactus acabou perdoando a todos nós e seguiu o seu caminho, isso porque indiretamente viu no Surfista algo dos próprios terráqueos, a disposição de lutar, a coragem, a busca pela vida, e isso era exatamente a sina de Galactus, o beija flor do Universo. O poderoso monstro tinha de andar e consumir, consumir e andar, sem ter descanso. Ele mesmo gostaria de encerrar sua vida. Mas não há suicídio possível para quem é uma força da natureza. Então, entendendo sua não liberdade, e entendendo a não liberdade de outros, conseguiu ao menos uma vez ter compaixão? Não, novamente ele deixou em dúvida se o que fez foi um ato bom ou apenas um castigo. Deixar os terráqueos viverem e acreditarem no que acreditam, ou seja, que têm algum valor, talvez tenha sido um castigo. Simbolicamente, um castigo do tipo daquele aplicado ao Surfista. Já que ele gostava tanto de ser uma formiga, que ficasse preso ao formigueiro. Ficamos presos à vida, por permissão de Galactus.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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One Response “A prisão do Surfista Prateado”

  1. Eduardo Rocha
    17/08/2015 at 00:52

    Olá Paulo. Lendo seu texto lembrei do filme Watchmen. Um dos personagens chamado Dr. Manhattan apresenta um ideia semelhante a do seu texto só não estou lembrado exatamente como se inicia essa ideia nos diálogos do filme. Vou assistir novamente para ter certeza se eu não estou enganado.

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