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25/03/2017

A politização é típica do ignorante, e mestra do cabeça-dura


Os filósofos ainda estão se curvando à politica, pois se curvam à politização. É uma regra isso entre nós, inclusive para os que dizem que não acham a política importante e decisiva. Quanto mais falam isso, mais mentem, pois mais se tornam ideólogos – em geral de direita, uma vez que a esquerda sempre esteve muito presa a um tipo de platonismo, e não raro já exige mesmo que a filosofia seja o fundamento da política. Fazendo isso, essa esquerda acaba é mostrando a filosofia antes como escrava da política que como fundamento.

Aprendi com meu amigo Richard Rorty que política é política e filosofia é filosofia. Pode haver até filosofia política, mas, ainda assim, discussões dessa ordem não precisam de metafísica para atuar como fundamentos para tomada de decisões políticas – John Rawls nos ensinou isso de dentro da filosofia política. Rorty fazia questão de se desvincular do criador da filosofia, Platão, que exigiu (ao menos nos escritos intermediários) que a justiça (e, portanto, a política) tivessem de se sustentar por conta da filosofia – e isso tudo por causa da decisão de fazer do filósofo o rei da polis ideal e justa.  Todavia, um pouco diferente de Rorty, hoje penso que a questão não é mais só a de separação dessas instâncias. Penso que um bom filósofo, atualmente, é aquele que denuncia – como Rorty denunciou Sartre – o fanatismo político, ou mesmo toda e qualquer politização.

A politização se tornou um problema grave em nosso começo de século XXI. Não sei se posso dizer isso de outros lugares, mas no Brasil é bastante claro, ao menos para mim, que ou colocamos esse termo e sua prática em um devido lugar, ou estaremos logo imersos em uma República do Falso Saber, e não uma República das Letras.  Logo começaremos a acreditar nos manuais soviéticos, que falavam em uma biologia proletária e coisa do tipo. Hoje em dia, nós faremos seguindo  intelectuais da direita – eles é que estão nessa agora.

Desde meados dos anos setenta para cá todo mundo que se acha politizado – e agora a direita fala isso – também se arvora em dizer que é intelectual  ou que é inteligente.  A esquerda achava isso de si mesma. Ser de esquerda e propor teses à esquerda não era algo do âmbito da política, mas algo do âmbito da inteligência. Escuto agora a direita dizendo coisa parecida. Há jornalistas que se acham inteligentes porque criticam o governo do PT! Criticam a esquerda! Não conseguem ver que caíram no mesmo engodo das esquerdas. Ninguém é inteligente ou culto por ser politizado, ou seja, por saber “discutir política” e ter uma noção a respeito de saberes de direita e saberes de esquerda.

As pessoas são inteligentes se são capazes de resolver problemas e, mais ainda, de descartar problemas e propor novos modos de problematização. As pessoas são inteligentes se fazem isso em diversas esferas de atuação humana. As pessoas são inteligentes se são capazes de uma visão plural, não reduzindo a riqueza do mundo a um só tipo de saber, muito menos o saber a respeito da polis e do poder, seja ele único ou não.

Do modo que faço filosofia, a filosofia se basta. Ela não precisa da política. Ela não precisa da política para ter um rumo, nem como proposta para ela e nem como fundamento dela. A filosofia tem olhos para além e para aquém do fato de sermos urbanos e termos nossas vidas ligadas ao poder. “Tudo é político”, um slogan que Paulo Freire usou bem, hoje não tem qualquer significado mais que não meramente ideológico, até tolo. A direita mostra-se estúpida ao seguir a esquerda nisso. Aprendeu com o inimigo a ser tola e está rebolando com isso como um tipo de Nei Matogrosso, mas no estilo Secos & Molhados, mas com velocidade de Rubinho Barrichelo. Por isso, quando vejo intelectuais tentando mostrar que estão à direita e que isso não é algo de mero desgosto diante da defesa do partido dos pobres, mas sim uma posição intelectual e inteligente, eu sei que estou diante de gente que está mesmo é cultivando o autoengano.

Alguns filósofos da direita fazem o que fazem porque estão enganados, outros para satisfazer suas claques, uma vez que estão sentindo o sabor que antes só a esquerda experimentava – que é esse de ter algum público lendo o que fazem! Triste isso!  São vanguardas da decadência! E não sabem! A direita está deslumbrada hoje por ter um público que ela imagina que é um público inteligente, que é um público que não está com ela só por mero reacionarismo babaca. Há filósofos que se dizem de direita, hoje em dia, porque acreditam que a fatia da classe média que os lê realmente está interessada em filosofia. Gostariam que isso fosse verdade. Que nada, esse público está interessado apenas em ouvir bravatas contra o PT e nada mais. Não entenderiam de filosofia nem mesmo após um século de aulas na Casa do Saber. São leitores do Lobão e lerão qualquer coisa que tenha um cheiro de anti-PT.

Posições políticas revelam desejos, não inteligência. Desejo que “os meus” controlem o poder, e por isso faço política. Querer ver esse desejo travestido com a capa do saber e da inteligência é mais que ideologia barata, é uma tonteira. Por isso, diante de intelectuais que a tudo se referem sob a perspectiva de direita e da esquerda, eu dou de ombros. Estão longe de compor um grupo que possa nos instruir sobre problemas da nossa vida. No máximo, nos instrui sobre o grau de não instrução de quem afirma isso.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de  A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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6 Responses “A politização é típica do ignorante, e mestra do cabeça-dura”

  1. Paulo Henrique Andrade
    03/06/2014 at 00:03

    Penso que precisamos do retorno daquele espírito de Voltaire, que foi filósofo mas também político, e que pregou de modo radical o direito do outro divergir dele mesmo. Ou seja, precisamos do debate justo, centrado em argumentos, em ideias, e não do maniqueísmo reducionista do tipo ‘atirar no mensageiro’. Concordar com o outro (mesmo o adversário político) em alguns pontos não é sinal de fraqueza, mas de maturidade intelectual. Mas infelizmente o que vemos – como diria Chomsky – é a instrumentalização de ideias simplistas ou a massificação da linguagem de propaganda em torno de meia dúzia de palavras-chave, com o intuito de bestificar o pensamento e anestesiar o público.

    Precisamos dar esse salto ético no debate público. Falta Voltaire, e sobra Goebbels.

    • 03/06/2014 at 10:36

      Paulo Henrique, não vou por aí. Não acho que filosofia é debate e muito menos que é política. Filosofia é investigação.

  2. Valmi Pessanha Pacheco
    26/05/2014 at 09:54

    PAULO:
    Quero seu pensamento acerca do livro Auto-engano do Eduardo Gianetti, um economista discorrendo, interessantemente, sobre Biologia, Psicologia, Medicina e FILOSOFIA, principalmente (Cia. das Letras).
    Abraços.
    Valmi.

    • 26/05/2014 at 15:58

      Valmi, jamais perdi meu tempo com qualquer coisa desse cara. É um babaca, inclusive como economista.

  3. Wagner
    25/05/2014 at 17:01

    A inteligência pode acabar mutilando. Porque é tão difícil caminhar inteiro?

  4. Robson de Moura
    25/05/2014 at 04:15

    Há uns anos eu concordava com o Martinho da Vila, que quer todo mundo se filiando a partido e discutindo política. Não mais. Uma das coisas difusas mais legais que me pareceram no junho do ano passado, quando as pessoas rejeitavam bandeiras de partidos, foi que esse gesto podia significar, entre outras coisas, o seguinte “quero ‘Brasil padrão FIFA’ mas, ao rejeitar partidos, ao dizer que não sou petista, anti-petista, ou qualquer outra coisa, digo também que faço uma política mais nuançada, menos partidarizada, mais sofisticada e complexa, e menos 8 ou 80”. Se eu viajei muito não sei. Mas isso aí jogou uma pá de cal nalguma simpatia que eu tinha pelo projeto do Martinho da Vila. Ao ver intelectuais e jornalistas virando reféns de claque politizada (a massa não discute política na internet, graças a Deus!), vejo que o junho de 2013 passou na janela, e feito Carolina, ele não viram.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo