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20/11/2017

A onda dos filósofos bonzinhos ou provocantezinhos


De uns tempos para cá a filosofia adquiriu uma face popular boazinha (ou instigadorazinha), que pouco lembra qualquer coisa que seja realmente filosofia. É a apologia do viver bem.

A filosofia, em sua parte prática, isto é, ético-moral, é exatamente a busca do “bem viver”. Todavia, o que a filosofia entende como o bem viver, especialmente em suas origens gregas, está distante dessa apologia de frases adocicadas sobre o viver bem. Os que muitos em nome da filosofia estão falando por aí é sobre o viver bem, nada a ver com o “bem viver”.

O viver bem implica em ter paz. O bem viver pode ser até mesmo em tempos de guerra. O viver bem quer ver as pessoas com os pés sobre um mundo em que não ocorra nenhum caso horroroso, o bem viver quer que as pessoas sejam preparadas para não criar situações horrorosas ou tentar impedi-las. O viver bem leva o filósofo à TV de massa. O bem viver leva o filósofo à reflexão e, portanto, aos meios que não criam massas, que não tratam com massas.

Mesmo que se pareça diferente do escritor de auto-ajuda, o filósofo do viver bem é do campo da auto-ajuda. Disfarça aqui e acolá e termina na receita de bolo e na análise superficial, falando o que o senso comum fala. O filósofo do bem viver não pode comungar do senso comum, pois o bem viver, por si só, não coaduna com o que o senso comum quer fazer. O senso comum quer é viver bem.

Sócrates, Platão, Epicuro, os estóicos e os céticos, até mesmo os cínicos, foram filósofos do bem viver. Foram filósofos do viver a vida reta. Comungaram filosofias diferentes, mas todas elas desdenhavam o viver bem e em favor do bem viver. Queriam viver plenamente, sem escravidões, sem ter de agir como Maria-vai-com-as-outras. Ora, os que clamam pelo viver bem não podem viver bem sem se escravizarem. Dependem do jogo social do dar e tirar, e nisso se prendem aos que controlam o poder econômico, social, político e religioso. Cedem. São escravos dos bens para o viver bem. Os filósofos autênticos fazem o culto do Bem e, por isso, não precisam nem um pouco de bens.

Os que querem viver bem se acham no direito de querer isso. Mas quem não se acharia? Agora, isso não tem nada a ver com filosofia, tem a ver com desejos comuns. O filósofo pode ser rico ou pobre, isso não é da ordem da filosofia. Da ordem da filosofia é o bem viver no sentido que a vida que se quer ter, ao escolher o bem viver, é aquela em que sabemos utilizar o tempo.  A vida é o tempo. Fazer dele um campo de possibilidades e enriquecimento enquanto se vive, não enquanto se espera viver, faz parte da sabedoria do bem viver. O filósofo filosofa, e porque gosta disso está cultivando o bem viver. Nisso, também vive bem. O homem da auto-ajuda não. Ele faz a apologia de circunstâncias exteriores que garantiriam a paz – quem tem paz melhor é o morto. E como a paz na terra é para os néscios, o que aposta no viver bem se torna um deles. Ele corre todos os dias para pagar suas contas, mesmo tendo dinheiro. É estranho como se torna facilmente um tolo de coleira.

A cada dia que passa a TV e outros meios não conseguem fazer outra coisa que a grande imprensa escrita já tem feito, o de reproduzir para a massa a auto-ajuda como forma de filosofia. Mas isso não é filosofia. Podem pintá-la de voz trágica ou voz festiva, não vai virar filosofia por conta da tinta.

A filosofia pode ser entretenimento, pode ser crítica do entretenimento, mas não é filosofia quando funciona como pelego para o pensamento. A auto-ajuda é o pelego para o pensamento e, às vezes, o filósofo que assume a política posicionada também faz esse papel. Isso tem pouco a ver com a filosofia. A filosofia, e eu a tomo assim, é a arte do bem viver e isso tem a ver com argúcia, não com astúcia.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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7 Responses “A onda dos filósofos bonzinhos ou provocantezinhos”

  1. Mario Luis
    21/05/2014 at 00:17

    Este é, paradoxalmente, um texto de auto-ajuda. O bem viver é a forma de viver bem. Mas como sabê-lo senão pela angústia que jaz na lida inautêntica?

    • 21/05/2014 at 10:57

      Mário meu menino, Jesus, com sangue de poder, lhe dará o caminho. Ou qualquer coisa assim!

  2. Rodrigo albuquerque
    13/05/2014 at 17:32

    Olá professor Paulo, eu gosto muito da escola existencialista (Antiga: Pascal, St. Agostinho… Moderna: Kierkegaard, Sartre, Nietzsche, Schopenhauer, etc), mas queria saber de autores existencialistas contemporâneos/atuais. Me disseram que o Michel Onfray é “meio” existencialista. O sr. concorda? Conhece autores atuais dessa linha para me recomendar?

    Obrigado.

    • 13/05/2014 at 17:44

      Rodrigo, eu sou filósofo, gosto de filosofia, não de “escolas”. Não ficou preocupado com classificações.

    • Rodrigo albuquerque
      14/05/2014 at 19:54

      Sei que sou burrinho! Todo mundo diz que sou olavete e por isso burro. Mas eu leio, eu estou. Nós olavetes não somos burros. Olavo só tem o terceiro ano primário, é um gênio.

    • 14/05/2014 at 20:41

      Rodrigo, sei o são olavetes e a genialidade do chefea de vocês.

  3. MARCELO CIOTI
    13/05/2014 at 12:19

    E tem também a onda dos
    filósofos nervosinhos e malinhas
    sem alça.Pela terceira vez,o
    gênio do Safatle escreve na
    Folha sobre a necessidade
    da criação de impostos
    sobre herança e grandes
    fortunas.Acho que jogaram
    aquela privada no Recife
    na pessoa errada.

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