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22/10/2017

A “obsolescência programada”


Quanto tempo dura a vida útil de uma mulher? Ou seja, por quanto tempo dá para ficar casado com alguém que faz sexo todo dia, bonita e cheirosa, e com desejo? Alguns dizem que é dos 14 anos até os 19 o tempo de uso da mulher. Outros falam que uma mulher dura até perto dos trinta anos! Há quem afirme que visualmente ela pode ir até os 50 anos hoje em dia, embora sexualmente já não funcione mais.

Usei aí todos os termos relativamente chocantes, grosseiros, para lembrar que eles de fato passam pela cabeça de muita gente, caso não fosse assim, não haveria nos sites eróticos e pornôs o jargão “novinhas”. Em outras palavras: tudo que aplicávamos a coisas, a produtos, para ver sua vida útil média, se aplica a nós, agora, sem pudor. Como o homem não é objeto de trabalho sexual nos mesmos moldes da mulher, então o vocabulário para ele é “vida produtiva”. Qual é a vida produtiva do homem? É isso que querem saber os políticos para calcular o quanto o Welfare State tem ou não de se preparar nos seus procedimentos de pagamento de aposentados e coisas do tipo.

Marx diria ou, melhor, disse mesmo: nos tempos modernos o mundo das mercadorias comanda o mundo dos homens. Weber completou: no mundo moderno a racionalidade deve ser vista única e exclusivamente como racionalidade instrumental, a que acolhe os melhores meios para determinados fins, sem avaliar fins. Quanto a essa avaliação geral, os grandes clássicos da sociologia e da filosofia social ainda não foram desmentidos no traçado que fizeram da modernidade. Ao contrário, estão atualíssimos.

A modernidade é a época das coisas. Sendo assim, é a época da vingança dos animais. O homem os usou e os destruiu como coisas, principalmente no início do capitalismo, agora os animais se extinguem e, no último suspiro, lembram a nós todos que também o homem está sob esse mesmo destino. Não é à toa que hoje nossa sensibilidade para com os animais aumentou. Estamos vendo no holocausto deles o nosso destino. Vamos “de vento em popa” nos tornando coisas, produtos e, uma vez no mundo atual, mercadorias. Não no sentido de que vendemos nossa força de trabalho, em termos de Marx, ou o nosso próprio corpo, em termos de outras análises não tão clássicas, mas no sentido de que estamos correndo o risco de, para o bem ou para o mal, ganharmos a tarja (escondida) da “obsolescência programada”.

As indústrias negam, mas elas já há algum tempo vem trabalhando com a produção voltada para a “obsolescência programada”. A indústria é programada e padronizada, então ela se esquece de criar o padrão da despadronização, para poder nos enganar melhor. Os celulares nossos estão deixando de funcionar em um tempo muito determinado. Eles começam a dar problema no dia X do mês Y após a compra. Todos. As impressoras fazem o mesmo. Eletrodomésticos todos estão assim. A ideia da durabilidade não aparece mais nas propagandas, pois não se pode cultivá-la, embora não se possa, escancaradamente, contar ao consumidor (ainda não) que o que ele está comprando não vai quebrar ou parar de funcionar por desgaste, mas por programação de morte. Ora, esse ideal industrial do capitalismo, especialmente do capitalismo nos centros emergentes, onde é necessário sobreviver com um mercado ainda não amplo (como o americano, por exemplo), vai ser a lógica para tudo e, num mundo onde o homem já é coisa, esse ideal engolirá a todos nós. A modernidade ainda não se completou pois só assim fará quando tudo e todos virarem coisas.

Nosso trabalho será cada vez mais programado para nos fazer durar o tempo que nossos Welfare States podem nos sustentar. Isso pode ser feito através de uma programação do trabalho em conjunto com a nossa indústria farmacêutica e nossos médicos atrelados a planos de saúde bem determinados e adrede preparados. Mas também poderá ser feito, de modo mais intervencionista, geneticamente.

Os cálculos para isso tudo, dos dois lados, tanto do político quanto do científico, já estão sendo feitos. As pesquisas também. Entraremos todos, enquanto mobília do mundo, para o interior do que o professor de filosofia argentino Mário Bergoglio, que é o Papa Francisco I, chama de a “cultura do descarte”. Nas suas intervenções ele tem lembrado isso quanto ao consumo, mas recentemente fez um alerta também em relação a nós mesmos, avisando do perigo que estamos correndo ao não guardar o domingo, ao nos tornarmos “escravos do trabalho” (Veja sobre o Papa aqui). Ele não disse “guardem o domingo para Deus”, mas “guardem o domingo para fazerem coisas que o trabalho não tem deixado fazer”. É uma interpretação popular que o homem culto pode entender como “guarde o domingo para Deus”, ou seja, para a liberdade. Ao menos o domingo!

Pode parecer ingenuidade isso. Os marxistas do passado, sempre crentes nas leis férreas da história e do capitalismo, diriam que é uma visão ingênua, passadista, utópica etc. (Talvez alguns conservadores “realistas”, hoje em dia, falem a mesma coisa usando outras referências). Mas, atualmente, a visão do Papa é uma visão a mais de resistência, também válida. Podemos continuar apoiando nossos sindicatos na luta pela redução da jornada de trabalho mundial. Mas é bom também que possamos perceber que o trabalho sai pela porta e entra pela janela, que faz parte da programação que a engrenagem nos põe, e que podemos estar sendo integrados aos planos de “obsolescência programada”, sem nos darmos conta. Os programadores estão eles mesmos sendo programados, acreditando que não.

Uma boa parte dos conservadores políticos não consegue entender tudo isso, uma vez que a incultura do conservadorismo sempre os fez alheios a Marx e Weber. Mas o problema é que os progressistas, ainda hoje, não entenderam que essa programação toda não pode ser vista como inexorável, como alguma coisa que só poderia ser resolvida se mudássemos de modo de produção. Não podemos pensar assim. Não podemos pensar que só em situações de apocalipse daremos passos para resolvermos problemas que atingem nossas vidas agora, nesse momento. O alerta de Bergoglio faz sentido, sim, nessa hora. Estarmos atentos ao modo com cada peça se quebra sempre no tempo certo deveria nos fazer ver que estamos também procurando médicos no mesmo tempo, muito coincidentemente, e que isso tem só um pouco a ver com o nosso relógio biológico natural.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 57, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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4 Responses “A “obsolescência programada””

  1. 18/03/2016 at 01:45

    Muito bom artigo!

  2. roberto quintas
    17/08/2015 at 13:05

    essa é a logica do Capitalismo, do Consumismo. mas aproveitando que falamos em mulher, o que o sr acha dos metecaptos PUA que divulgam textos misoginos? tem um que até cita o sr.

  3. Matheus Kortz
    13/08/2015 at 21:34

    Esse final “procuramos médicos coincidentemente e (…) tem pouco a ver com nosso relogio biologico natural” … só tenho a dizer: obrigado!

  4. Thiago Fajardo
    13/08/2015 at 20:44

    Sim e muito tempo tenho esta percepção. Por exemplo, é o caso da comida das massas – diferencio de alimento – que sustenta o trabalhador até que este ira sustentar a indústria de tratamento de câncer e outras doenças. Será que alguém pode acreditar que a couve que as massas comem seja a mesma dos grandes magnatas cult´s do mundo?

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