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26/09/2018

A nova noção de família


Dizer que alguém que não aceita a ideia de família que não seja a de união de um homem e uma mulher é um portador de ódio é a mesma coisa que dizer que alguém que não aceita a ideia de cachorro como filho está só expressando ódio.

Os cachorros ganharam o status de filho para muitas famílias no Ocidente. Isso é algo correto e alvissareiro, e já é uma regra para muito mais gente do que há pouco tempo atrás. Alguns de nós, os mais velhos, sabemos bem de como o amor que tínhamos por cachorros era um amor que tínhamos para com cachorros, mas que ainda não eram filhos. Agora, nós mesmos nos pegamos amando nosso cão de um modo que aceitamos com naturalidade que outros nos chamem de “pai” e “mãe”, por conta deles e não de termos filhos humanos. Há pouco tempo era comum se ofender com isso. Aliás, hoje, diferentemente, há mulheres que admitem, até com orgulho, de que são antes mães de cachorros do que de humanos. A revolução semântica associada a isso é visível: muitos de nós estranhamos, agora, quando alguém diz “meu cachorro” antes de dizer “Glorinha” ou “Banzé” ou “Maria Betânia” ou “Pitoko”. Talvez essa seja uma das mais bruscas alterações de nossa sensibilidade que já tive conhecimento. Todas as outras levaram mais tempo.

Não conversamos a partir de conceitos, mas de palavras. Aliás, tanto é assim que há filósofos (Rorty à frente) que chegam a advogar que já que o significado não é dado senão pelo uso (Wittgenstein), então nem teríamos muito que nos preocupar com conceitos, ficando sempre com noções, ideias, palavras melhores e coisas assim. Com isso, teríamos mais facilidade de trocarmos de vocabulários quando tais vocabulários já estão sendo trocados junto com a nossa sensibilidade. Daqui uns anos ninguém saberá como que a palavra “cachorro” pode ser um xingamento de uma mulher para um homem! Já não estaremos em nada nos referindo a algum conceito, seja de cachorro ou qualquer outra coisa.

Caso pudermos entender a dinâmica de nossas alterações de vocabulário no entrelaçamento como nossa capacidade de alteração de sensibilidade, então veremos logo que um pastor que fomenta ódio contra homossexuais, não está conseguindo a adesão ao seu ódio daquelas pessoas que, junto com ele, concordam plenamente que a família só pode ser família se é uma união entre homem e mulher. O uso da linguagem não implica em amor ou ódio, mas em hábitos capazes de nos fazer sentir em casa. Perder palavras abruptamente é perder nossa clareira, ou seja, nossa capacidade de encontrar alguma coisa chamada pátria, casa, vizinhos, comunidade – consciência até!

Vários de nós ao ouvirmos o termo “família” ganhamos mentalmente uma imagem visual de um pai e uma mãe, nas figuras de homem e mulher. É assim mesmo com os que nunca viveram em uma família assim constituída. E isso não é nenhuma alienação. Simplesmente usamos as palavras segundo a função delas, que é nos colocar “em casa”, ou seja, nos manter na conversação com pares. Podemos ter um filho não-humano, mas se alguém vem falar de seu filho, para nós, não pensamos no filho do outro como o nosso, o cachorro, pensamos que ele está falando de um humano. Assim é o termo “família”. É antes de tudo um termo do cotidiano. Alguém é “pai” e alguém é “mãe”, e de preferência a imagem é a de união entre um homem e uma mulher. Quem não tem família assim pode, muito bem, concordar com a ideia de que a família é mesmo assim, e que a sua família é boa, ainda que incompleta ou diferente da ideia “normal”, corriqueira. O uso que dá significado é o que permite que conversemos. Eis aí a linguagem, e isso não é o ter ou não ter ódio.

Tornar o termo “família” como alguma coisa que possa nos fazer imaginar outras coisas que não a figura de um pai como homem e uma mãe como mulher não é algo que, em todas as sociedades, possa se resolver “por decreto”. Em algumas sociedades atropelamos a linguagem velha com uma nova por meio da lei, quando estamos já cansados de esperar pela revolução semântica, digamos assim, natural. Podemos fazer isso. É um modo de mudar as coisas, também legítimo. Mas erramos profundamente se achamos que os que acham que a lei não poderia endossar tal visão diferente são pessoas que estão com ódio. As pessoas, no geral e não nos casos específicos, apenas querem continuar podendo se entender. Não estamos necessariamente dispostos a sentir ódio quando estamos dispostos a torcer o nariz, ainda que bem torcido mesmo, para modificações semânticas.

Na verdade, a nova família já se impôs entre nós e o vocabulário a esse respeito, bem como as imagens associadas, vão se transformar, querendo ou não os que tem ódio, querendo ou não os que não têm ódio. E isso vai ser rápido como foi com o amor aos cães.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

cadeirinha

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6 Responses “A nova noção de família”

  1. Carlos Lenine
    28/09/2015 at 21:43

    Ótimo texto, Paulo!

    Que dizer de formulações muito praticadas hoje, consideradas como espécies de resistência ao que se vê como formas de expressão e mesmo de efetivação, por meio do idioma, de opressão ou exclusão sexista, como é o caso do gênero neutro em português ser o masculino? Coisas como escrever “alunx”, ” alunes”, “alun@s”. Eu diria que práticas assim acabam se tornando apenas rasuramentos forçados e não verdadeiramente ativos em relação a idioma e seu desenvolvimento etiológico. Mas que acha disso? E diria que esse assunto teria mesmo a ver com o seu texto ou forcei a barra?

    • 29/09/2015 at 03:27

      Carlos não sei do que está falando, não entendi nada.

  2. 28/09/2015 at 12:58

    professor, um comercial chamou a atenção exatamente por explicitar essa equiparação de pet com filho. mas o conselho tutelar não vai achar graça alguma se um pai alimentar seu filho com Bozo ou saminhar com ele com uma coleira no pescoço…

  3. Claudio Rodrigues
    26/09/2015 at 16:41

    Olá, professor! Penso que a questão posta em votação pelo congresso não se remete ao ódio, mas sim aos direitos. Visto que se uma pessoa só pode ser considerada “da família” se for do sexo oposto ao do, por exemplo, cônjuge falecido, para que tenha direito à uma herança entre outras coisas. De fato, além de ser uma pauta de chamariz para ocultar outras mazelas de nossa política, considero que, se aprovada em definitivo, só servirá para gerar insatisfação em metade da população não afeita a estes retrocessos, além de gerar insegurança jurídica aos que não se encaixam num modelo duvidoso gerado, mas nem sempre respeitado, pelo advento da civilização.

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