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29/05/2017

A não banalidade do perdão


Had Gadia é em português a canção “A velha a fiar”. Aquela que começa assim: “Estava a velha em seu lugar. Veio a mosca lhe fazer mal. A mosca na velha e a velha a fiarEstava a mosca em seu lugar. Veio a aranha lhe fazer mal…”. Had Gadia é um nome aramaico que indica um filhote ou um filhote de cabrito, um cabritinho. Na versão hebraica, na qual a canção tem seu sentido histórico e original, a lírica não conta a história da velha, mas do pai que trouxe o cabritinho e este foi comido pelo gato e depois o gato pelo cachorro e assim por diante. A música é interpretada pelos scholars da cultura hebraica de muitas formas, a mais comum é que se trata de uma alusão ao povo judeu, escolhido por Deus, que estava quieto em seu lugar e depois foi incomodado por inimigos. Entre outras, canta-se essa música nas festas do Pesach (Páscoa judaica), quando os judeus acrescentam mais histórias ao episódio da escravização da nação no Egito.

Entre outras, uma das vezes que essa música me chamou a atenção foi no interessante Free Zone (Amos Gitai, Israel, 2005), com Natalie PortmanHana LaszloHiam Abbass, em que o conflito Israel versus palestinos se apresenta como alguma coisa que se iniciou não se sabe como e que talvez não termine nunca. Caso o filme fosse exclusivamente pró-Israel a música não se enquadraria, ao menos não interpretação oficial da canção. Todavia, o filme não vai por esse caminho. Ele diz respeito à eternidade do conflito. Então, a canção faz todo sentido. Trata-se do acúmulo de acontecimentos num caminho sem fim, sem parada, sem descanso. Uma guerra horrível, e quando ela parece cessar, inicia-se um jogo de ofensas pequenas e grandes de todos os tipos no cotidiano, alguma coisa que já não se sabe mais como parar já que também seu início não se pode precisar objetivamente.

Essa maneira de ver o conflito, talvez só possível mesmo para pessoas com o espírito crítico do israelita Amos Gitai, me faz lembrar a maneira que Hannah Arendt lida com um de seus temas preferidos: amor, perdão, promessa. O tema do amor é o de seu doutorado sobre Santo Agostinho. Todavia, de uma maneira menos técnica, ela repõe o assunto no belo e clássico A condição humana (Rio de Janeiro: Forense, 2011).

Nesse livro há um especial capítulo sobre o tema da promessa e do perdão. Cito um trecho significativo:

“A redenção possível para a vicissitude da irreversibilidade – da incapacidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse e nem se pudesse saber o que se fazia – é a faculdade de perdoar. O remédio para a imprevisibilidade, para a caótica incerteza do futuro, está contido na faculdade de prometer e cumprir promessas”. (p.295)

E logo adiante, Arendt diz:

“Se não fôssemos perdoados, liberados das consequências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos sempre vítimas de suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço.” (p. 296).

Em outras palavras, então: como parar Had Gadia? Ora, o perdão é cristão. Na cultura religiosa judaica a questão do perdão não se faz presente. Não à toa Hannah Arendt, uma judia capaz de perdoar Heidegger e sua simpatia pontual com o nazismo, ficou encantada com o cristianismo, com Agostinho e toda a literatura do perdão. Ela não economiza palavras: “O descobridor do papel do perdão no domínio dos assuntos humanos foi Jesus de Nazaré.” Ela insiste que essa mensagem de Jesus tem a ver antes com práticas comunitárias capazes de desafiar as autoridades de Israel, do que com certas ordens efetivamente religiosas. Além disso, Arendt lembra que Jesus não fala que é Deus quem perdoa, mas os homens devem perdoar e, então, só então, Deus perdoa. O perdão é o oposto da vingança. É um ato inesperado, ao contrário da vingança. É o que quebra o fio infinito de algo como Had Gadia. É exatamente o exercício da liberdade. Eis aí a grande libertação ensinada por Jesus, diz Arendt. Poder liberar o homem para a criatividade da história é pouco? Não é! Mas o que move o perdão na sua ocorrência? O amor.

Arendt não titubeia em afirmar que “dada a sua paixão, o amor destrói o espaço-entre que estabelece uma relação entre nós e os outros, e deles nos separa.” Todavia, ela sabe, o amor é uma força não da vida política, mas de pessoas singulares. O amor é uma força antipolítica, e ele tem seu parente próximo, na política, por meio do respeito – uma espécie de amizade sem intimidade ou proximidade. Nesse sentido, no campo propriamente político, é o respeito que inspira o perdão.

De qualquer forma, é o perdão o grande legado do cristianismo para um assunto que também é da ordem da vida cristã: a liberdade. Arendt diz:

O crime e o mal voluntários são raros, mais raros talvez que as boas ações; segundo Jesus, Deus se encarregará deles no Juízo Final, que nenhum papel desempenha na vida terrena e tampouco se caracteriza pelo perdão, mas pela justa retribuição (apodounai). A ofensa, contudo, é uma ocorrência cotidiana, decorrência natural do fato de que a ação estabelece constantemente novas relações em uma teia de relações, e precisa do perdão, da liberação, para possibilitar que a vida possa continuar, desobrigando constantemente os homens daquilo que fizeram sem o saber. Somente mediante essa mútua e constante desobrigação do que fazem os homens podem ser agentes livres; somente com a constante disposição para mudar de ideia e recomeçar pode-se confiar a eles um poder tão grande quanto o de começar algo novo.” (pp. 299-300).

Dito tudo isso, é claro que salta diante de nossos olhos a pregação do Papa Francisco, especialmente nos últimos dias, na viagem à Bolívia e ao Paraguai. Na Bolívia ele lembrou os desacertos dos processos nada louváveis do capitalismo na produção da pobreza. No Paraguai falou da “guerra injusta” do passado, no qual sua própria pátria, a Argentina, junto com Brasil e Uruguai, impuseram um massacre àquela nação, que até hoje passa por situações difíceis por causa daquele período. Estaria aí o Papa evocando o passado de um modo contrário ao que Arendt tanto preza na atividade cristã, o perdão?

Os conservadores, inclusive os cristãos que insistem em ler o Evangelho de um modo que ninguém honesto poderia lê-lo, podem sim querer se contrapor ao Papa. Alguns deles, inclusive, podem fazer como já fizeram no passado em relação a outros religiosos não conservadores, que a Igreja não deve falar de política. Mas no contexto da fé cristã e do que diz Arendt, o jesuíta Bergloglio, hoje Papa Francisco I, está correto. Ele fala de política, mas fala também de algo além da política.

O perdão é para as faltas do cotidiano, para os grandes males há o Juízo Final, todavia, entre um caso e outro, há aquelas faltas que ninguém quer carregar nas costas, aquelas pelas quais muitos são responsáveis e, então, por serem muitos, se aproveitam para dizer que a responsabilidade é de ninguém. Capitalismo e guerra são coisas assim. Todos nós os empurramos para acontecer. Depois que ocorrem, dizemos que não se trata de nada que fizemos. São afazeres para os quais poderíamos ter dito um sonoro “não!”, de modo a estancar o funcionamento da lógica de Had Gadia.

Guerras são coisas dos governos, o que podemos fazer? Capitalismo é algo supra-individual, uma maneira de produzir e reproduzir nossa existência e nossa civilização, nada podemos contra ele, não é? É assim que nos safamos! Dizemos que talvez, contra o capitalismo, poderíamos protestar nos “Occupy” da vida, ou segui-lo quieto, ou talvez nos inserir em um partido social-democrata que queira conduzir o capitalismo sem grandes dores. É isso? O papa diz não. Ele acredita que sua denúncia pertence a um plano diferente. Ela é dirigida não aos que não querem ter rosto ou se esquivam, mas ao indivíduo com rosto, identidade, vontade e, fundamentalmente, liberdade. A liberdade que é afirmada com a capacidade do perdão, como nota Arendt, é no discurso papal reposta como alguma coisa que efetivamente está conosco. Temos a liberdade individual de mudar as coisas.

Essa é a diferença entre o seu discurso e o de outros. Confia-se aí, novamente, uma grande força a cada homem, a cada mulher, a cada pessoa. Essa liberdade, como Francisco a afirmou em passado recente, é que pode se por contra a “cultura do descarte”. Penso que o papa acerta mais quando fala da cultura do descarte do que quando ele fala da política e economia da exclusão. Nesse segundo caso, seu discurso pode ser confundido com outros, de caráter político. No primeiro caso, a política se submente a um estado de espírito que pode ser mais abrangente. Todavia, há algo mais importante ainda em seu discurso na Bolívia: lá ele evocou diretamente a figura do perdão. E de um modo inusitado. Não a pregação do perdão, como é de praxe, mas o pedido de perdão. Ao condenar o capitalismo, o papa Francisco não se esqueceu de, diante dos bolivianos, cuja maior parte é descendente de indígenas, pedir perdão pela participação da própria Igreja no processo de colonização violentíssimo na América Latina.

A questão aí é delicada, pois o papa Francisco não é um papa qualquer, é um jesuíta. Os jesuítas estiveram envolvidos diretamente, por obra da Contra Reforma, no processo de colonização. Em alguns lugares defenderam os índios, em outros, foram partícipes da dizimação, escravização e aculturação de modo cruel de grandes populações dos então habitantes originais da América. Nesse sentido, o próprio papa entende o recomeçar.

Recomeçar para o papa é pedir perdão, pedir perdão é a chance de recomeçar. Francisco I acredita estar recomeçando. Ele acredita mesmo que sua vinda ao papado por meio da renúncia de seu antecessor, e não morte, o torna parte de uma oportunidade não de continuidade, mas de recomeço. Lendo seu trabalho por essa via, podemos realmente entender a importância que ele dá ao perdão, e a importância que este tem na estrutura da liberdade cristã, e em certas características culturais centrais do Ocidente. Essa é a ideia do começar de novo.

Há algo em Berglogio que não deixa de me agradar, é essa sua fé louca na capacidade nossa de cortar a Had Gadia.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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