Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/09/2019

A mulher que não goza e a glamurização do estupro


A mulher que não goza, por frigidez ou simplesmente por alguma anorgasmia aparentemente curável, não raro tem uma avaliação sobre o sexo com um viés moralista. Desconhece o sexo enquanto produtor de prazeres. Relaciona-o ou com o vazio ou com a conhecida dor ou desconforto, quando já o experimentou. Não sabe que quando é bem feito, cria uma enorme sensação de amor. Acham que ir para a cama é um serviço que prestam ao homem. Até um sacrifício.

Mulheres que não gozam não são poucas. Em nossa sociedade, podem estar para além de 40%. Não é difícil, então, virem com a história de que estupro é a coisa pior do mundo etc. Estupro é bem ruim mesmo – para quem passa por ele, sem dúvida a coisa pior do mundo. Mas há outras coisas ruins que não fazem a mulher, que não passou por abuso, criar auê. A mulher assim, nessas condições de não gozo, faz uma ligação entre estupro e sexo de modo inflacionário e, temendo o sexo, grita contra o estupro. Afinal, sexo já é ruim com quem gosta, imagina então como uma violência, pensam elas.

No entanto, estupro não é sexo, é um problema de mandonismo, de violência, e não é feito na rua, é feito em casa. Segundo nossas estatísticas, a maioria dos estupradores são pais, padrastos e ex-maridos. Não querem ter prazer nenhum, do ponto de vista estritamente sexual ou erótico, querem é mostrar que podem comandar de dento do corpo de outro os serviços requisitados. São os donos dos bonecos caseiros e os ensinam a respeito de algo que tem de ser evidente, sobre quem é que manda ali. Manipulam tais bonecos a partir de uma força interna, ou seja, o elemento da penetração. Claro que há patologias envolvidas nisso. Mas, não devemos esquecer, o Império Brasileiro foi o último recanto do Ocidente a abolir a escravidão. A cultura do domínio do mais forte sobre o mais fraco, milenar, encontrou aqui um aporte a mais. Há uma cultura enorme da ideia de que o serviçal é um boneco, e um boneco não tem alma, tem corpo, deve aprender a dançar segundo um comando interno dado não por palavras e doutrinas, mas pelo cabo que o mexe por dentro.

A sexualização do estupro, que por incrível que pareça é obra da mulher que desconhece o gozo ou que tem nele o desprazer, é parte da glamurização do estupro, e é oriunda de uma fantasia pré-adolescente que perdura na mulher e que contamina as pesquisas. Muitas se fixam nessa fantasia mesmo não gozando e tendo dor, ou desconhecendo o sexo.

Quando é por desconhecimento do sexo, a glamurização vem da fixação dessa fantasia pré-adolescente de ser perseguida no bosque pelo homem desconhecido. Quando é por conhecimento do desprazer no sexo, então mais ainda a fantasia pré-adolescente ressurge, para tornar o sexo, o casamento, a vida da mulher ainda possível, ainda palatável – tudo deve vir na imagem de como era antes, quando não se fazia sexo, a imagem de glamour e aventura do final da infância. Nesse segundo caso, a mulher busca na memória o que imaginava sobre sexo antes de conhecê-lo, antes de saber de sua anorgasmia, antes de ver que é algo desconfortável. Fixa-se na fantasia pré-adolescente como uma forma de continuar a viver mais um dia que, enfim, terminará sempre e eternamente em mais uma noite de mais desconforto e de baixa estima.

Em todos esses casos, a glamurização se insinua e, assim, ganha espaço o estupro como o suprassumo de todas as atenções. Todos querem saber como é essa tal coisa que faz do ato de amor, do ato de geração de filhos, um ator demoníaco. O contraste chama a atenção. É o inusitado. Então, é o espetáculo. Na sociedade do espetáculo é um dos mais atrativos. E dos bons! Coloque um vídeo na Internet falando de estupro, com algumas imagens insinuantes na capa, e verá o número de acessos subir vertiginosamente. Ora, pense bem, não há esse número de tarados no mundo.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

Tags: , , , ,

14 Responses “A mulher que não goza e a glamurização do estupro”

  1. kaio
    10/12/2015 at 17:36

    Minha namorada não goza, a princípio pensei que eu era o problema mas já fiz de tudo que é posição. O texto ajudou muito.

  2. 09/04/2014 at 01:05

    Impressionante como ainda existem certas coisas no mundo. Digo, a gente olha pra trás e certos problemas parecem tão arcaicos que assusta sua presença nessa sociedade metida a pós-moderninha. Mas a tecnologia está para as máquinas assim como a evolução não está para os seres humanos. Evolução de um ponto de vista moral e ético, digo.

    Quanto à questão da frigidez ou anorgasmia, o que é surpreendente é que nós – sim, sou uma mulher – aceitamos passivamente o não gozo, a não plenitude, por, talvez, ter nas costas, nos ombros e na cabeça milhares de anos de machismo, culpa e submissão, tornando nossas vidas mais infelizes.

    Só quem passou pelo escuro, reconhece a luz. E só reconhece o prazer, quem em seu lugar obteve a dor. É simplesmente libertador ter consciência das coisas, vivenciar plenamente as experiências e sentir a leveza da liberdade de escolha.

    E roubo a citação do Afonso: “Sexo é o susto de uma criança.(…)” (C.Lispector), porque é bem isso mesmo o que uma mulher que começa a descobrir os prazeres do sexo vivencia a cada ato.

    • 09/04/2014 at 09:24

      Aline, falta de gozo não é culpa do “machismo”. Anorgasmia é um problema maior que isso.

  3. juniN
    05/04/2014 at 23:15

    E aí, sr. Paulo Ghiraldelli, continuas acreditar em pesquisas de opinião? Espero que tenha aprendido com aquilo que nunca foi novidade: a manipulação de amostragens.

    • 05/04/2014 at 23:18

      JUNIN BURRINHO, nós denunciamos no HOra da Coruja o erro. Mas o IPEA não errou. Ele errou na divulgação. O problema é que você é tão burro que falou sem ler nada. Espero que aprenda a ler as coisas antes de falar. Se não age como as feministas e a imprensa afoita. Será que consegue entender? Não!

  4. Rinaldo Lima da Silva
    05/04/2014 at 21:59

    Do jeito que a situação caminha, teremos que segregar os homens no transporte público. Olhou para uma mulher, achou ela bonita… mão para cabeça, você está preso. Tudo o que você disser poderá e será usado contra você no Tribunal.

    • 05/04/2014 at 23:19

      Rinaldo, não, não há esse perigo. As coisas são menos malucas do que a direita pinta.

  5. simone
    05/04/2014 at 12:44

    Poderíamos dizer que nem todo homem é um tarado, mas que atualmente, as mulheres são sadomasoquistas!?

    • 05/04/2014 at 14:12

      Só um tolo diria que todo homem é um tarado. Isso foi o que a jornalista que fez a campanha contra o estupro deixou transparecer. Se você entendeu isso do meu texto você não entendeu nada de nada, nadinha mesmo.

  6. Afonso
    04/04/2014 at 16:00

    “Sexo é o susto de uma criança.(…)” (C.Lispector) – mas não é disso que se trata…
    Ótimo texto. Faz pensar na herança ‘escravocrata’. E não duvido também que (patologicamente) haja quem sinta algum prazer (sádico) em dispor do corpo do ‘outro’…

    • simone
      05/04/2014 at 12:47

      Será então, as mulheres estão mergulhas nas idéias de sadomasoquismo?

    • 05/04/2014 at 14:11

      Simone, se tomar o termo de modo vulgar, talvez sim.

  7. MARCELO CIOTI
    04/04/2014 at 11:10

    Felizmente,até agora,nenhum comediante
    metido a gênio fez piadinhas sobre a
    pesquisa do Ipea,pelo menos
    publicamente.Ou algum artista
    defendendo os estupradores como
    aqueles que,durante os governos
    militares só arrancavam umas
    unhazinhas.

  8. Julio
    04/04/2014 at 08:25

    Otímo texto! Muitas vezes as mulheres tendem a ser moralistas, e isso vem também dessas ~40%. Quando se opina o que se desconheçe, relacionado a algo mal entendido, e associado a uma pesquisa mal detalhada temos o fenomeno do:
    #eunaomerecoserestrupada

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *